quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

TORTURA E GLÓRIA- Clarice Lispector



Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos. Veio a ter um busto
enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os
bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança
devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de algum livrinho,
ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima com paisagem
de Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes. Atrás escrevia com letra bordadíssima
palavras como data natalícia e saudade.
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com
barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas,
esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na
minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a
implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa.
Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o,
dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua
casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. Até o dia seguinte eu me transformei na própria
esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave. No dia seguinte fui à
sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa.
Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o
livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí
devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar
pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí:
guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes eram a minha vida inteira,
o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Bom, mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era
tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o
coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu
voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do dia
seguinte ia se repetir com o coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto
o fel não escorresse de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera
para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem
quer me fazer sofrer está precisando que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia:
pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você não veio, de modo que o emprestei a
outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se formando sob os meus
olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a
sua recusa, apareceu sua mãe. Esta devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela
menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa,
entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o
fato de não entender. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme
surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! E o pior
para ela não era essa descoberta. Devia ser a descoberta da filha que tinha. Com certo horror
nos espiava: a potência de perversidade de sua filha desconhecida, e a menina em pé à porta,
exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, se refazendo, disse firme e calma para
a filha: você vai emprestar agora mesmo As reinações de Narizinho. E para mim disse tudo o
que eu jamais poderia aspirar ouvir. “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.”
Entendem? Valia mais do que me dar o livro: pelo tempo que eu quisesse é tudo o que uma
pessoa, pequena ou grande, pode querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho
que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando
bem devagar. Sei que segurava o livro com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito.
Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente,
meu coração estarrecido, pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto
de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei
mais comendo pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abriao
por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina
que era a felicidade. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era
uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em
êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
O p e q u e n o l i v r o d a s g r a n d e s e m o ç ões.