quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
UMA VELA PARA DARIO - Dalton Trevisan
Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo.
Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque.
Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da boca.
Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças foram despertadas e de pijama acudiram à janela. O senhor gordo repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.
A velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem pagaria a corrida? Concordaram chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado á parede - não tinha os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.
Alguém informou da farmácia na outra rua. Não carregaram Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito pesado. Foi largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que fizesse um gesto para espantá-las.
Ocupado o café próximo pelas pessoas que vieram apreciar o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozavam as delicias da noite. Dario ficou torto como o deixaram, no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.
Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade; sinal de nascença. O endereço na carteira era de outra cidade.
Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a rua e as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu a multidão. Várias pessoas tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes.
O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo - os bolsos vazios. Restava a aliança de ouro na mão esquerda, que ele próprio quando vivo - só podia destacar umedecida com sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabecão.
A última boca repetiu - Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se dispersar. Dario levara duas horas para morrer, ninguém acreditou que estivesse no fim. Agora, aos que podiam vê-lo, tinha todo o ar de um defunto.
Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não pôde fechar os olhos nem a boca, onde a espuma tinha desaparecido. Apenas um homem morto, e a multidão se espalhou, as mesas do café ficaram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.
Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.
Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas da chuva, que voltava a cair.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
O amor, esse sufoco agora há pouco era muito agora, apenas um sopro. Ah, troço de louco corações trocando rosas e socos. leminski
links importantes
http://www.bn.br/portal/
http://www.louvre.fr
http://centraldascuriosidade.blogspot.com/
http://www.heroisdavida.blogspot.com/
Lista de Blogs
-
-
-
-
Quando a fantasia é melhor que a realidade1 semana atrás
-
-
-
Pão de Mistura1 mês atrás
-
novo site2 anos atrás
-
O Cão contra ataca! Ou Dart Vader com ciúmes..3 semanas atrás
-
Tumblebugs 2 Em Português1 semana atrás
-
-
-
Mudança2 anos atrás
-
-
40 Anos da Feria do Som4 dias atrás
-
ESTULTÍCIA13 horas atrás
-
Projeto 3 minutos - Hoje é ou hoje são?5 semanas atrás
-
6 meses atrás
-
Professor...ao mestre com carinho!4 meses atrás
-
Coreia não desistirá de bombas já produzidas; ouça especialista4 dias atrás
-
-
-
Questão: Tropeirismo2 meses atrás
-
Memorial de Alice6 meses atrás
-
MINHA PUNHETA20 horas atrás
-
blog em novo site2 anos atrás
-
-
Segunda-feira poética O Duplo, Ferreira Gullar22 horas atrás
-
Simpsons imita abertura de Games of Thrones10 horas atrás
-
-
-
Atelier mudou de endereço!11 meses atrás
-
Luis Fernando Veríssimo6 dias atrás
-
Comprar livros do Paulo Leminski8 meses atrás
-
a gente se acostuma...1 dia atrás
-
-
Cadernos Eletrônicos de Informática1 ano atrás
-
-
Vou ali e já volto!5 meses atrás
-
'CINE BAITA'2 semanas atrás
"Para meu coração basta teu peito, para tua liberdade bastam minhas asas..."Pablo Neruda
Hoje eu queria andar lá em cima nas nuvens, com as nuvens, pelas nuvens, para as nuvens… [Cecilia Meireles]
Hoje eu queria andar lá em cima nas nuvens, com as nuvens, pelas nuvens, para as nuvens… [Cecilia Meireles]
A Biblioteca Digital Paulo Freire disponibiliza obras do filósofo brasileiro ~ http://tiny.cc/p2zg9

0 comentários:
Postar um comentário