quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O PERFUME DE UM ALMOÇO EM VERA CRUZ-Ignácio de Loyola Brandão

Andando pela ruas de Marília, cidade de Sérgio Ricardo, Dib Lufti e Oswaldo Mendes, procurei o Yara Clube na Sampaio Vidal. Ali tinha freqüentado domingueiras durante as férias nos anos 50. Freqüentar significava entrar no salão, apanhar o Cuba Libre e olhar. Olhava. Como olhei, sem avançar. Passei a adolescência e a juventude a olhar, imobilizado pela timidez e por não saber dançar, a não ser boleros, dois para lá, um para cá. Ainda que continue com uma sede esportiva fora do centro, o Yara não existe mais na Sampaio Vidal. No lugar está um restaurante popular, necessidade dos tempos que correm. Na minha busca quis rever o Cine Marília e o Cine Bar, instituições de uma época. Esquecido de que essa época ficou meio século atrás, quando ainda existia café na região. No Cine Bar, em 1965, Edla Van Steen, com Cio; Thomaz Souto Correia, com A Morte Semi- Virgem; e eu com Depois do Sol, fizemos a primeira tarde de autógrafos da história da cidade. Naquele ano, houve um festival de cinema e Anselmo Duarte esteve lá com Vereda da Salvação, adaptado da peça de Jorge Andrade. Lançamentos com autógrafos eram coisa nova, ninguém sabia como agir. O Cine Bar lotado, gente a olhar para os autores, enquanto estes, por sua vez, contemplavam o público. Exasperante momento de hesitação e dúvida, até que Anselmo comprou um livro de cada um, pediu autógrafos, o povo compreendeu, a tarde começou. O Cine Marília e o Cine Bar desapareceram, há um banco no lugar, símbolo de nossa civilização. Ao menos, ainda está lá o Edifício Marília, o primeiro arranha-céu da cidade. Certas noites, subíamos ao último andar, havia um restaurante chique, mas da comida não me lembro. Lembranças que se foram, Marília é uma cidade com mais de 200 mil habitantes, esparramada, ruas largas, horizontes vastos. Da janela de meu hotel, no centro, eu via os limites da cidade, curiosos grotões, como cannions, que me faziam bem à vista. Eu, a olhar! A cidade ainda não se debruçou sobre esses mini-precipícios batidos por uma claridade que fere. O céu da cidade continua o mesmo, resplandecente. O bom é que o Cine Clube está voltando às atividades e lembrei de Roberto Cimino, alfaiate valoroso (essa é a palavra) que dedicou sua vida ao Clube. Quem está procurando reativá-lo é justamente seu filho. Os festivais de cinema da cidade ficaram conhecidos e levavam famosos de São Paulo e Rio. Cimino tinha sentido de mídia, convidava também as modelos da Rhodia, superstars da mídia. Mila Moreira foi uma que vi desfilando em carro aberto pelas ruas. Nunca recuperamos tudo que ficou para trás e, muitas vezes, nem queremos, para flutuarmos na delícia do imaginário. Por outro lado, Marília tem dona Geysa, mulher de 85 anos que me lê e queria me conhecer. Fui a ela. Doce, conversadora, lúcida, bem-humorada, tem uma tirada atrás da outra. Dessas pessoas que viveram várias épocas e são a história viva do cotidiano. Quando decidiu aceitar o pedido de casamento daquele que foi seu primeiro e único namorado, com quem se casou e viveu toda a vida, ela se definiu: "Saiba que estou vindo diretamente da fábrica ao consumidor." Existe frase melhor? Depois do primeiro beijo no cinema, encabulada, perguntou ao namorado: "Te decepcionei? Não sei beijar? Não podia saber, nunca tinha beijado, acho que fiquei de boca aberta. Se quiser me ensinar, me ensina, desde que eu seja a única." Ainda hoje, ela levanta cedo, lê jornais, livros, segue telejornais, conversa, passeia, ouve música. Certas manhãs, coloca um CD, fecha os olhos e dança com o marido em pensamento. Viver tem sabor. Estive em Marília levado pelo Programa de Educação Tutorial, PET, das Ciências Sociais da Unesp, fiz duas falas e corri a me refugiar na cidade vizinha, Vera Cruz, a dez minutos. Lá onde nasceu Benedito Ruy Barbosa, o novelista. Queria reencontrar outros lugares de infância, como as fazendas do Juca, do Costinha, do Assis, do Ito, do Nago, dos Furtados, do Mundinho, do Costão, um português que plantava uvas e produzia vinhos, com quem me iniciei em enologia aos 14 anos. E quase terminei. Apelidos me vinham, Nhô, Tucun, estranhos, quais eram os nomes deles? De Marília, com o primo Dafnis decolávamos do aeroporto, voávamos até Vera Cruz, dando rasantes sobre as fazendas e cidades. A liberdade de voar num aviãozinho daqueles nunca mais se repetiu, os Airbus e Boeings de hoje não têm graça. Aquilo era a liberdade total, a insegurança, aventura e risco. Dali minha paixão por aviões. Agora, o que primeiro avistei quando entrei em Vera Cruz foi a torre com a sirene que, na rua principal, no começo da noite anunciava que a sessão de cinema ia começar. As pessoas corriam, quem estava a jantar se apressava. Nina e Silvio, primos, ou primos dos primos, me receberam e convocaram parte da cidade. Tudo correu à moda antiga para comemorar a biografia de Ruth Cardoso, o aniversário de Zero, as palestras na Unesp, o dia azulado, a cidade imobilizada ao sol, como sempre foi. No entanto, daqui desta vila sai o pensar e o idealizar de uma revista chamada Café Espacial, com quadrinhos, textos, fotos, entrevistas, que estaria à vontade em São Paulo ou Nova York. Tudo naquela tarde reascendia ao perfume quase obsceno, de tanto que provocava os desejos, de uma leitoa à pururuca com abacaxi que se derreteu na boca, carne de panela, tutu de feijão, frango com quiabo, batata doce, banana frita. O aroma das comidas foi proustiano, passado e presente, hoje e ontem, futuro, todos os tempos misturados. Vieram todos e também os mortos, lembrados aos risos, porque a maioria da família sempre foi de farpas pontiagudas, ironias e gozações, de tirar o pelo dos outros com afeto, cheios de sarcasmos e brincadeiras, respostas prontas. Tudo isso que a literatura me tem proporcionado fazendo com que eu me renove sempre, me encontre no ontem, me projete para o amanhã, correndo para o futuro. Voltei no avião com pão feito em casa e geléia de laranja, também caseira. “O Estado de S. Paulo”