segunda-feira, 18 de junho de 2012

O burguês e o crime Carlos Heitor Cony




O burguês

Foi durante a noite que, de repente, ele se fez a pergunta:

— Por que não?

A pergunta finalizava a série de pensamentos que haviam começado horas

antes, quando estava no teatro. Fora com a mulher assistir a uma peça

de sucesso, com artistas de sucesso, estréia recente e também de

sucesso. As duas primeiras noites haviam sido dedicadas à alta

sociedade, às classes produtoras, ao Corpo Diplomático, às autoridades

constituídas e a penetras de diferentes origens e feitios. Na altura da

terceira apresentação, ele chegara em casa e a mulher o intimara:

— É o fim, Figueiredo! Todo mundo já viu a peça, menos nós. Tem de ser

hoje.

Uma semana depois, a peça seria suspensa por falta de público, mas

naquela terceira noite ele teve de se acotovelar na entrada, discutir

com os bilheteiros e terminar sendo explorado por um cambista que lhe

vendeu duas péssimas poltronas com ágio pesado e imerecido.

Suportou, lá dentro — e estoicamente — os primeiros momentos da peça,

mas ainda em meio ao primeiro ato desanimou de procurar entender o que

se passava no palco. Era um drama complicado e palavroso, uma jovem que

tinha neurose e amantes, um analista, uma enfermeira lésbica e,

presidindo a tudo, um pai severo e asmático. Em suma: um conflito acima

de suas possibilidades e de seu interesse.

Quando ia ao cinema, sempre podia dormir quando o filme seguia um rumo

surpreendente assim. No escuro o cochilo ficava impune, a mulher nem

suspeitava. À saída, ele concordava com a opinião da mulher e

conseguiam chegar em casa sãos e salvos. Mas no teatro era difícil o

cochilo. Havia luz, e pior que a luz, havia sempre a iminência de algo

espantoso, o cenário despencar, a roupa da atriz cair, um ator ter

enfarte ou esquecer o texto, um fósforo botar fogo no pano de boca.

Tais e tantos atrativos impediam-no de dormir, mas propiciavam discreta

dormência, o pensamento solicitado ora pelo calor, ora pela peça, ora

ainda pelo pigarro de um velho na platéia, ou pelo sapato um pouco

apertado que Ema — a mulher — o obrigara a usar.

Tivera um dia calmo, calmos eram todos os seus dias. A firma, apesar do

sócio que era uma toupeira, prosperava. Saúde boa, perspectivas boas.

Não tinha motivos para pensar no futuro ou no passado. Sobravam-lhe

motivos para dormir no presente, a peça já era um motivo.

A frase, dita por alguém no palco, chamou-o de volta. Ele já contara as

pregas do lado direito da cortina que compunha o fundo do cenário, e

preparava-se, resignado, pra contar as pregas do lado esquerdo, quando

ouviu alguém falar em morte.

Não, não ameaçavam ninguém de morte. O drama do palco era existencial,

não continha mortes nem ameaças de. Fora uma frase convencional, assim

como "não devemos matar a velha de susto", ou "se a velha souber disso

pode morrer".

Matar ou morrer? Não chegava a ser uma opção, nem no palco, nem em sua

vida, mas uma série de pensamentos que tinham, ora a sua lógica, ora o

seu absurdo, e em ambos os casos, a sua conveniência. Evidente, não

pensava nunca em sua própria morte, mas sabia que havia gente que

morria e gente que matava. Os que morriam eram os doentes, os suicidas,

os atropelados, os assassinos, os passageiros de avião ou da Central do

Brasil. Os que matavam eram os criminosos, os ladrões noturnos, os

tiranos, os motoristas de ônibus.

Não era agradável pensar em morrer. Logo retirou este elemento de sua

opção e ficou apenas com o matar.

Matar o quê? Matar para quê? Na peça, falavam em matar uma velha de

susto. Ele não tinha velha nenhuma à vista. A mãe já morrera, as

parentas de velhice mais agressiva também já haviam morrido. Havia a

sogra, ainda, mas não chegava a ser uma velha, e, além do mais, era uma

excelente pessoa.

Se não adiantava matar uma velha, matar o quê?

Matar por matar, amor à arte, eis a questão. Matar para experimentar os

nervos, ou para provar a si mesmo do que era capaz. Sim, isso

justificava um crime. Mas para provar do que era capaz, não bastaria

matar — isso qualquer idiota poderia fazer. Tinha de matar e permanecer

impune — para poder se olhar no espelho e se sentir redimido,

confiante: sou um caráter!

Foi então que surgiu o problema — que seria, nos próximos dias, o seu

problema, o único problema realmente sério de sua vida — como obter o

crime perfeito? Matar o porteiro de seu edifício, por exemplo, nunca

seria um crime perfeito. Mais cedo ou mais tarde a polícia apertaria os

moradores do prédio e ele acabaria confessando. Para matar impunemente

teria de escolher um comerciário de Brás de Pina, uma funcionária

subalterna que voltasse, tarde da noite, para o Leblon.

Mas seria estúpido matar sem motivo, embora matasse perfeitamente. O

crime perfeito, sem lucro pessoal, não lhe interessava, aliás, pensando

bem, agora que o primeiro ato terminava, nenhum crime lhe interessava.

Teve coragem para o comentário.

— Uma peça muito profunda!

A mulher não concordou nem discordou. Apenas disse:

— Vamos esperar pelo resto. Acho que vai sair um escândalo!

Foi a vez de ele concordar, embora não suspeitasse que tipo de

escândalo estava prestes a estourar. Saiu para o hall circulou entre

estranhos, bebeu um gole d'água gelada, sem sede mesmo, só para passar

o tempo.

Durante o segundo ato os pensamentos seguiram outro rumo. Surgiu no

palco um pastor protestante. Surgiu também um militar reformado que era

mudo — e ele começou a pensar em como seria sua vida — e como seria ele

mesmo — se não tivesse voz.

Chegou à conclusão e ao fim da peça: poderia manter o mesmo padrão de

vida se, por acaso, ficasse sem voz. Era-lhe coisa inútil, espécie de

adorno. Para ganhar dinheiro e dormir com a mulher — a voz era

dispensável, uma responsabilidade incômoda.

Ao saírem, cumprimentou com a cabeça alguns conhecidos e fez a viagem

de volta imaginando-se mudo. Conseguiu chegar em casa sem ter

pronunciado uma só palavra — o que não era uma vantagem especial,

sempre que iam ou que voltavam de algum lugar, a mulher é quem falava,

ele apenas ouvia.

A grande oportunidade para testar a sua disciplina interior foi ao

guardar o carro na garagem. Todas as vezes tinha de pedir à mulher que

suspendesse o vidro da porta:

— Suspenda o seu vidro, Ema.
Àquela noite, engoliu em seco e esperou que a mulher saísse para, então

inclinar-se no banco, com algum esforço para sua espinha já bombardeado

por sedimentações calcáreas que prenunciavam um respeitável bico-de-

papagaio, e rodar a manivelinha até fechar o vidro.

Na cama, preparado para dormir, a palavra primeiramente, e o conceito

depois, retornaram à sua cabeça e às suas preocupações: matar. Há muito

não tinha insônia. A firma prosperava, vendia material de escritório

aos ministérios militares, era pago em dia, e não faltavam encomendas,

tanto Marinha como o Exército e a Aeronáutica — felizmente para ele e

para Pátria — gastavam mais em papel timbrado do que em pólvora.

Geralmente, caía duro em cima da cama. De quinze em quinze dias ou de

vinte em vinte dias, procurava a mulher para um amor apressado e quase

sempre incompleto da parte dela.

Quando percebeu as horas, viu que gastara a noite toda pensando. Tinha

disciplina interior feroz e eficiente. Se dormisse até as 9, estaria

salvo. Virou para o lado e antes de escorregar definitivamente no sono,

teve um pensamento também definitivo:

— "Se não fosse a polícia, eu matava!"


O crime

A firma era próspera e prosperava, apesar do sócio: um belo homem

excelente caráter, pai amantíssimo, esposo exemplar, amigo

irreprochável foi o mínimo que um orador, à beira do túmulo, disse

dele, no dia do enterro: "Colhidos pela brutalidade de tua morte, aqui

estamos, Anselmo, para prantearmos o excelente caráter, o pai

amantíssimo, o esposo exemplar, o amigo irreprochável que acabamos de

perder!".

No mesmo cemitério, à beira de outro túmulo, e mais ou menos mesma

hora, Ema foi sepultada e chorada quase que solitariamente: quatro

coveiros a sepultaram, com suas correntes e más vontades, e o marido

chorou, apesar de tudo, segundo afirmaram alguns poucos presentes que

ouviram os soluços de um enterro e o discurso do outro.

À noite, apareceram-lhe em casa alguns amigos compenetrados. Conforme

afirmaram mais tarde, foram à casa dele unicamente para que Figueiredo

"não fizesse uma besteira".

Apesar da presença dos amigos, Figueiredo conteve-se e não cometeu

besteira nenhuma. Tomou apenas um porre, como lhe convinha, e disse

obscenidades a respeito da vida e de si mesmo, chamando a vida de merda

e chamando-se a si mesmo de corno. O que ia de encontro aos pensamentos

gerais, embora os amigos protestassem, deixa disso, Figueiredo, deixa

disso!

No dia seguinte ao do enterro, apareceu mal vestido e barbado para

iniciar as providências legais das sucessões, pois sucedia ao sócio no

controle da firma e sucedia à mulher nos bens do casal que eram muitos,

o sogro lhe havia deixado apólices e casas em Vila Isabel.

Estava rico e livre agora da chatice do sócio e da chatice da mulher. E

para ficar livre dos amigos, começou a cultivar mau hálito, o que

impedia que os mais importunos se acercassem dele para dar conselhos,

principalmente quando, após o escândalo da dupla morte, revelou-se o

outro escândalo, o da fortuna que lhe chegava às mãos através de tão

rudes eventos.

Rosnavam que, se não fossem as trágicas e patentes circunstâncias, a

polícia deveria investigar melhor aquilo tudo. Mas a suspeita não tinha

consistência — apesar do ódio que Figueiredo passou a provocar pela

fortuna, pelo mau hálito, e pela liberdade que lhe chegara à vida. Ele

mesmo, com o tempo, começou a esquecer, a duvidar do passado, e um dia,

vendo no fundo do armário uma peça íntima de Ema, suspirou e sentiu

saudades. Logo se aprumou, afugentou o pensamento macabro que lhe

surgiu, e embora não houvesse ninguém à volta, disse em voz alta, como

convinha a um homem que sofrera tanto:

— "Aquela cachorra!"

Porém já cinco anos eram passados da morte da cachorra e do cachorro.

Cinco anos daquela tragédia que enlutou a família cristã, rudemente

golpeada pelo escândalo daquele pacto de morte. Cronistas sem assunto

escreveram sobre o pacto de morte tão romanticamente previsto e

executado, foram ouvidas opiniões de sociólogos, de pedagogos e de

sacerdotes sobre o caso. Cinco dias depois já ninguém falava no assunto

e cinco anos depois, só mesmo ele, e às vezes, pensava em tudo,

detalhadamente, como num passo heróico de sua vida.

Chegara àquela noite em casa, de uma viagem rápida a São Paulo, e

baqueara ao entrar em seu quarto: caídos e nus, em cima da cama, a sua

mulher e o sócio. Próximo do sócio, o copo partido, cujos resíduos

foram examinados pelo Instituto de Criminalística e cuja malignidade

foi devidamente provada.
A perícia, com a ajuda dele, reconstituiu os acontecimentos. Ele

viajara a São Paulo, voltaria na noite seguinte. Tão logo se mandou

pela estrada, Ema chamara o amante. A perícia examinou a vagina de Ema

e encontrou sinais evidentes do coito recente. O imperscrutável

aconteceu — e aqui o relatório policial foi respeitoso, ao afirmar que,

"após manterem relações de fundo sexual, os dois amantes decidiram pôr

fim à vida através de um pacto de morte que foi imediatamente

cumprido".

Anselmo preparou o veneno, Ema bebeu estoicamente, sem repugnância pela

morte ou pelo gosto de amêndoas que saía do copo. E Anselmo, logo em

seguida, ingeriu o restante. Contorceram-se pouco, e logo se

imobilizaram — e foi assim que, à noite, Figueiredo e mais tarde a

polícia os encontraram.

No 18° Distrito Policial o pacto de morte foi classificado como

"Ocorrência nº. 53.697" e arquivado após despacho do delegado-auxiliar,

cumpridas as formalidades legais e pagas as taxas do costume.


O crime e o burguês

— "Se não fosse a polícia eu matava!".

Com essa frase ele adormecera, uma semana antes da tragédia que abalou

a sociedade cristã e a sua vida. Viera do teatro e ficara pensando em

matar, mas não sabia nem como, nem a quem matar. Não tinha nenhum

problema importante na vida, tudo lhe ia bem, e essa inexistência de um

problema dava-lhe a sensação de burrice, de imprestabilidade.

Desde que pensara em matar, sentiu que iniciava uma nova vida, fugia à

rotina, à qual sempre se submetera. Era o seu problema, embora não

fosse, ainda, a sua vontade. No trabalho, em casa, andando pelas ruas,

tinha agora uma ordem fixa de pensamentos e de energias.

Certa tarde, regressando da cidade, parou no Flamengo. Entrou num

prédio, tomou o elevador, fechou os olhos e apertou um botão: qualquer

andar em que o elevador parasse, serviria. Parou no sétimo andar. Havia

duas portas à frente, apertou a campainha do 701. A velhinha veio abrir

e ele quase chegou ao crime: levou as duas mãos para a frente em

direção ao gasganete da velha. Mas deu-lhe uma tremedeira nas pernas e

ele recuou. O elevador ficara parado no andar e ele pôde fugir. Poderia

ter deixado a velha morta, ninguém teria visto nada. Mas deixou a velha

apenas surpreendida e irritada.

Passou uma noite de cão, reprovando-se a covardia. Tivera tudo à mão, a

velha, o elevador, não esbarrara com ninguém, nunca entrara naquele

prédio. A polícia procuraria pelos parentes da velha, os desafetos, os

fornecedores, as ex-empregadas, os vizinhos. Não tivera ao alcance das

mãos apenas o gasganete da velha: tivera nas mãos o crime perfeito — e

o desperdiçara, sem lucro algum.

E então tremeu, emocionado e surpreso: acabara de descobrir o crime

verdadeiramente perfeito: O LUCRO. Matar sem lucro, como no caso da

velha, seria uma brincadeira idiota. Tinha de matar com muito lucro,

com tanto lucro que ficasse óbvia a lucrabilidade do crime. E para

tornar patente essa lucrabilidade, tinha de escolher uma vítima que

fosse patentemente próxima de seus interesses. Viu a mulher dormindo a

seu lado.

— "Se mato esta mulher — a minha mulher — o primeiro e necessário

suspeito serei eu mesmo".

Riu, com a facilidade do problema. Tão fácil era o problema que

resolveu exagerar. Não mataria apenas uma pessoa, mas duas. E, na

escala de importância e de lucro, a segunda pessoa que lhe apareceu foi

o sócio, o qual hipotecara, há tempos, a parte dele, para levar a

mulher aos Estados Unidos, curar um tumor no colo do útero. Ele

emprestara o dinheiro e ficara com as hipotecas do sócio. Se matasse o

sócio, a firma ficaria inteiramente em suas mãos, era um lucro

evidente, agressivo.

Dois dias depois, avisou à mulher que ia a São Paulo, viagem rápida.

Saiu à noite, subiu em direção a Teresópolis. Deixou o carro numa rua

que lhe pareceu deserta, tomou um ônibus e antes da meia-noite estava

novamente em casa. Entrou pela garagem, como o fazia todas as noites,

mas sem o carro, e por causa disso, não teve necessidade de acordar o

garagista.

Surpreendeu a esposa:

— Uê? Você já voltou?

— Você está vendo.

Explicou que o carro enguiçara no quilômetro 97 da Rio — São Paulo,

tomara um ônibus, amanhã voltaria ao local, com um mecânico. Foram

dormir e ele procurou a mulher. Dessa vez, pela primeira vez em muitos

anos, concentrou-se no esforço de fazê-la gozar — era parte do plano.

Depois que ela estremeceu e gritou coisas indecentes — sinal que

finalmente gozara — ele conseguiu, também, um escasso prazer. Mas logo

levou a mão ao peito:

— Ema, o enfarte!

Caiu para o lado, olhos arregalados, bufando grosso. Ema deu um pulo da

cama, nua.

— Vou buscar a coramina!

— Não! Chame o Anselmo, preciso falar com ele, é urgente, mas diga a

ele para não contar a ninguém, para vir já! As hipotecas dele! Ele pode

perder tudo!

Ema foi ao telefone, acordou Anselmo:

— O Figueiredo teve um enfarte. Venha correndo, mas não diga nada a

ninguém. As hipotecas!

A mulher de Anselmo perguntou quem chamava o marido dela àquela hora da

noite, mas Anselmo, apesar de esposo exemplar e pai amantíssimo, deu um

grito:

— Vá à merda, mulher. Depois eu explico!

Ema foi à cozinha, apanhou um copo d'água. Quando voltou ao quarto,

pingando gotas de coramina no copo, encontrou o marido em pé, com um

copo na mão.

— Uê? Já ficou bom?

Figueiredo avançou para ela.

— Beba isso!

— Mas...

— Beba, sua idiota!

Era a primeira vez, em dezenove anos de casados, que se dava o nome ao

boi naquela casa. Ema apanhou o copo, sentiu um cheiro estranho. Bebeu

um gole e ainda teve tempo de perguntar:

— Para que é isso?

— É um afrodisíaco. Faz a gente gozar mais ainda.

Mas Ema não ouviu que ia gozar mais ainda. Caiu próximo à cama e

Figueiredo arrumou-a o melhor que pôde. Mais alguns minutos, foi à

porta da frente, esperar pelo sócio. Viu o elevador subir, a luzinha

crescendo, crescendo. Anselmo saiu do elevador e deu com ele na porta.

— E o enfarte?

— Entre depressa!

Anselmo não gostou. A mulher dele ia falar o resto da vida contra

aquela saída abrupta, misteriosa, ia ser o diabo explicar.

— Brincadeira tem hora! Cadê o enfarte?

Figueiredo estendeu-lhe o copo.

— Prove essa droga! Veja que gosto tem e se concorda comigo.

Anselmo provou, sentiu um gosto adocicado de amêndoas, mas não teve

tempo de concordar. Figueiredo arrastou-o ao quarto, tirou-lhe a roupa,

deitou-o ao lado de Ema, a mão estendida para fora do leito. Pegou no

copo, colocou-o na mão de Anselmo, deixou que o copo se partisse no

chão.

Apagou as luzes, deixando apenas um pequeno abajur aceso. Ganhou a rua,

atravessando a garagem do prédio, o garagista tinha sono de pedra,

quando chegava tarde, com o carro, tinha de esmurrar a campainha para

que o homem lhe abrisse a porta dos carros.

Andou pela cidade, esperando o primeiro ônibus para Teresópolis.

Deixara impressões no copo, nas roupas, em todos os lugares. Mas o

lucro era tão dele que invalidava a suspeita. Deixara atrás de si um

crime que se explicava por si mesmo.

Tomou o ônibus para Teresópolis. Com o sereno da noite, o carro ficara

melado como um bicho. Antes de ligar o motor, abriu o painel de

instrumentos e desligou o cabo do velocímetro. Desceu a serra, almoçou

um frango assado à beira da estrada, atingiu a Avenida Brasil e cortou

em direção oposta à cidade. Andou mais alguns quilômetros e pegou a Rio

— São Paulo. Enfrentou as retas iniciais, atingiu a serra mas logo fez

um contorno e embicou de volta ao Rio. Parou no posto de gasolina para

abastecer o carro.

— Tem mecânico aí?

O mulato de maus dentes surgiu das entranhas de uma camioneta.

— É o cabo do velocímetro. Acho que houve alguma coisa com ele.

Deu boa gorjeta ao mecânico e ao homem do posto que lhe enchera o

tanque,

tinha agora duas pessoas que atestariam que ele regressava de São

Paulo.

Quando arrancou, os dois homens o chamaram de doutor:

— Boa viagem, doutor!

Chegou em casa, após uma boa viagem, e viu o quadro que logo os

policiais examinaram, os jornais noticiaram e com o qual ele lucrou.


Moral

O crime, para o burguês, só não compensa quando a polícia está contra.
FONTE:http://www.releituras.com/cony_menu.asp