domingo, 15 de julho de 2012

Estranhos Sérgio Sant’Anna



Cheguei à portaria daquele edifício, em Botafogo, para ver o apartamento,
quase ao mesmo tempo que uma mulher. Notei que ela estava nervosa,
pelo modo como dava tragadas seguidas no cigarro, amassava com a mão
fortemente cerrada o caderno de classificados de um jornal, e também pelo
batom que transbordava da linha dos seus lábios, como se houvesse se pintado
às pressas. Mas nem por isso era menos bonita ou elegante, usando um
vestido listrado, de tecido meio rústico, que ostentava uma simplicidade que
devia ter custado algum dinheiro. Os sapatos pretos grandões, desses de
amarrar, concediam-lhe uma aparência um tanto exótica, um ar de força,
quase de brutalidade, talvez premeditada, um toque masculino que não
impedia de se evidenciar nela a mulher em todos os seus aspectos. Ou talvez
eu só tenha pensado essas coisas todas depois, tornando-me capaz de escrever
sobre elas desse modo. Naquele instante eu estava preocupado em ver logo
o apartamento.
Quando o porteiro estendeu a chave na minha direção, pois eu chegara
um pouco antes, ela disse com uma voz que pretendia ser durona, igual aos
seus sapatos.
- Não podemos subir todos juntos?
O porteiro tornou a recolher a chave, mantendo-a suspensa nos dedos,
como se fôssemos crianças disputando um doce.
- A senhora vai me desculpar, mas não posso largar a portaria - ele
disse. - O apartamento está vazio e, se a senhora não se importar, pode
subir sozinha com ele - o porteiro apontou a chave na minha direção.
Ela olhou para mim de cima a baixo, como se me avaliasse, até concluir
que eu era inofensivo.
- Por mim, tudo bem - ela disse.
Aquele exame minucioso, e talvez o seu resultado, me irritara. E
também o fato de o porteiro ter perguntado a ela se se importava de subir
comigo, e não a mim, que chegara primeiro, se me importava de subir com
ela. Afinal, estávamos disputando o mesmo apartamento. Então apenas dei
de ombros, indiferente.
Mal fiz isso, ela tomou a chave da mão do porteiro e seguiu em frente
pela aléia, ou fosse lá como fosse que se chamava aquela passagem que,
margeando o estacionamento a céu aberto, ia dar no bloco B, onde ficava o
tal apartamento.
Enquanto ia atrás dela, pensei que não estava sentindo nenhuma
vontade de morar naquele condomínio composto de dois caixotões verticais,
com o nome absolutamente ridículo de Bois de Boulogne. De fato, era todo
ajardinado e havia algumas árvores, para parecer bucólico e ecológico. Havia
também um playground à vista, o que significava muitas crianças quando
não fosse hora de colégio, e uma piscina escondida em algum lugar (eu lera
no classificado), que devia ser um tanque grande, também cheio de crianças. Na verdade eu e Clarice preferíamos começar nossa vida num desses prédios
mais antigos, com uma arquitetura humana, e não tínhamos a menor
intenção de ter filhos tão cedo. Mas eu ia ver o apartamento. Estava de férias
e programado para ver apartamentos.
Depois de subir dois lances de escadinhas, alcancei a mulher no hall
dos elevadores do bloco B, onde nos comportamos como os dois estranhos
que de fato éramos um para o outro. Ela pôs um cigarro na boca, sem
acendê-lo, e uma senhora juntou-se a nós. Logo depois o elevador chegou,
um pessoal saiu, deixamos a senhora entrar primeiro, depois entrou ela,
depois eu. A senhora desceu no quinto andar e, até lá, ficou olhando de cara
feia para o cigarro apagado nos lábios da mulher, que sustentou o seu olhar.
Assim que a senhora saiu, ela acendeu o cigarro, embora houvesse uma
plaqueta de proibição, visível no meio de vários grafitezinhos infantilóides,
alguns meio nazistas, alguns obscenos. Mas não seria eu, um ex-fumante,
que iria me incomodar com o cigarro dela.
- Também está procurando apartamento há muito tempo? - perguntei,
para quebrar o gelo entre nós.
- Não. Este é o segundo. Mas são todos umas merdas.
- É verdade - eu disse, apaziguadoramente, achando graça.
Chegamos ao décimo primeiro andar, o do nosso apartamento, e vi que
a mão dela tremia ao tentar enfiar a chave. Eu disse “Me dá licença , peguei
a chave e a introduzi facilmente na fechadura.
Ela entrou, olhou ao seu redor, até encontrar um banheiro, onde se
trancou imediatamente. Fui abrir a janela da sala, pois fazia um calor abafado
ali dentro, apesar de ser outono. A primeira coisa que notei na paisagem foi
o morro, a menos de um quilômetro de distância. Dava para ver as pessoas
subindo e descendo a favela, como num formigueiro - não se pode ser
original nessas coisas. Depois olhei para baixo e encontrei a piscina. Era
melhor do que um tanque e devia estar fechada a essa hora da tarde, porque
não havia ninguém lá. Mas o playground começava a se povoar e os gritos
chegavam ali em cima, mas eram menos crianças do que eu imaginara. Ainda
observei mais algumas coisinhas nos arredores, tentando vê-los também com
os olhos da Clarice.
Dei-me conta de que a mulher estava demorando no banheiro e
desconfiei de alguma coisa. Cocaína, por exemplo. Mas, afinal, eu não estava
com ela, podia ver o apartamento sozinho e ir logo embora, pois já concluíra,
mais ou menos, que o imóvel não fazia o gênero de Clarice.
Ao virar-me para examinar melhor a sala, reparei numas irregularidades
na parede em frente, onde o sol batia nesse instante. A massa e a pintura tinham
sido retocadas havia muito pouco tempo, em alguns pontos, formando
pequenos calombos. Aproximei-me para vê-los de perto, quando a mulher
saiu do banheiro. Fumava outra vez, o batom em seus lábios fora alinhado e
ela se maquiara em torno dos olhos, que brilhavam, avermelhados. Podia ser
cocaína, porque o seu nariz também estava congestionado, mas achei possível
que ela houvesse apenas chorado e quisesse disfarçar com a maquiagem.
Fingi não reparar nisso e pressionei o dedo num daqueles calombos,
que cedeu um pouco.
- Podem ser tiros - eu disse. - Eles devem ter extraído as balas. Por
isso o aluguel é tão barato.
Percebi que estava querendo impressioná-la, o que, a julgar por sua
resposta, não consegui.
- Você acha barato por uma pocilga dessas? Precisa ver o banheiro. É
ridículo.
- Estou falando de preço de mercado.
- É possível - ela falou, olhando em direção à janela. - Mas a favela
está longe.
- Os fuzis alcançam dois quilômetros - eu disse, e vi que continuava querendo impressioná-la.
- Você é da polícia? - ela perguntou, com uma voz falsamente neutra
e ingênua, que significava ironia com toda a certeza.
- Não, sou jornalista.
Ela se dirigiu para a janela, sem perguntar qual era o meu jornal ou a
área do jornalismo em que eu atuava, e achei melhor assim. Pois, não sei por
que, senti que me sentiria um idiota se dissesse a uma mulher como aquela
que eu era subeditor de um segundo caderno, fazendo entrevistas por telefone
e escrevendo frescuras sobre artistas egocêntricos.
Ela atirou a ponta do cigarro lá embaixo e ficou observando ela cair.
Depois virou-se para mim e disse, antes de se debruçar novamente no
parapeito:
- É uma boa altura.
De repente, me passou pela cabeça que ela só tivesse vindo ver o
apartamento para se jogar lá de cima. Podia ser mera projeção minha, claro,
pois também sou meio neurótico e até fizera um pouco de análise, antes de
conhecer Clarice, que me dava segurança. Mas, por via das dúvidas, resolvi
voltar à janela, onde poderia intervir caso a mulher fizesse menção de pular.
Confesso que, além do fato em si de não querer que um semelhante meu se
autodestruísse, pensei também nas complicações com a polícia, com a
imprensa e com Clarice. Como iria explicar a ela por q e estava vendo
apartamento com outra mulher que ainda por cima se atirara dele?
Mas, assim que me aproximei da mulher, ela disse:
- Vou dar mais uma olhada por aí.
Enquanto ela foi ver um dos quartos, que dava para os fundos do prédio,
fui ver outro bem em frente ao dela, procurando afastar a idéia de suicídio
da cabeça. Na verdade, sabia que deixara a análise antes de remexer num lodo
mais profundo, e talvez para não ter de fazê-lo. E aquela mulher, apesar de
tudo, me dava a impressão de gostar muito da vida. Apenas tinha de ser a
vida que ela gostava.
O quarto que vi era comum, um desses quadrados que os construtores
fazem economizando espaço. Também fora pintado recentemente, mas não
havia calombos nas paredes. Abri a janela e depois fui dar uma olhada no
armário embutido. Tentei abrir uma das gavetas e percebi que alguma coisa
a estava emperrando. Puxei com força e um sutiã, empoeirado, acabou por
soltar-se. Peguei-o e observei que, pelo seu tamanho e desenho, fora usado
por uma mulher de seios pequenos, provavelmente uma jovem.
Nesse instante, ouvi-a exclamar alguma coisa no outro quarto, que não
deu para entender direito. Mas dali eu podia vê-la segurando um objeto que
não consegui identificar. Devolvi o sutiã à gaveta, depressa, fechando-a em
seguida.
- Vem cá ver - a mulher me chamou em voz alta.
Dirigi-me rapidamente para lá e encontrei-a suspendendo uma tira de
cortina japonesa, que ela desenrolava do chão, onde devia ter sido largada
na
mudança. Nela, havia um buraco de bom tamanho.
- Balas! - a mulher disse, com uma espécie de alegria, embora o
buraco fosse só um. - O tiro deve ter entrado pelo outro quarto, atravessou
o corredor e a bala veio se alojar aqui. Aliás, pode até ter saído de novo
-ela mostrou a janela que havia aberto. - Você tinha razão. Os sacanas
deixaram esse lixo aqui (ela largou a cortina com repugnância) e acharam
que a gente não ia perceber.
Fiquei satisfeito com aquele reconhecimento e acrescentei, excitado:
- Vi poucas crianças no playground. Deve ter muita gente deixando
o prédio.
Foi nesse momento que ela disse sua grande frase, que me fez compreendê-la melhor:
- Morrer não tem a menor importância. O horrível é ficar velha!
- Você está longe disso - eu disse, sentindo-me metade idiota,
metade cafajeste. Mas percebi que uma centelha se acendera em seus olhos.
- Estou com trinta e quatro anos - a mulher disse e olhou para mim,
com uma certa expectativa.
- Parece ter bem menos - falei, embora ela pudesse ter também trinta
e seis. - E mesmo que não parecesse, é uma bela idade.
- Ele parece que não acha - ela retrucou, amargamente.
- Ele quem?
- Não interessa. E você, quantos anos tem?
- Trinta e dois.
- Ele tem cinquenta - ela falou com orgulho.
Foi aí que eu disse a grande besteira, ou talvez não, levando-se em conta
o que aconteceu depois.
- Ele te abandonou?
Sem qualquer aviso prévio, ela desatou um choro convulsivo, de dor e
de raiva, e avançou com os punhos cerrados na minha direção. Recuei,
amedrontado. Mas, em vez de me bater, ela se agarrou ao meu corpo,
esfregando-se nele em movimentos sofregamente ritmados. Olhei para a
janela, preocupado que alguém estivesse nos vendo. Felizmente não havia
nenhum edifício alto nas proximidades.
- Ninguém jamais me abandonou, entendeu? - ela gritava. -
Ninguém, ouviu?
- Claro - eu disse, correspondendo ao seu abraço um tanto mecanicamente,
pois continuava com medo.
- Mas o filho da puta também está comendo outra - ela disse, e agora
chorava mais livremente.
Acariciei os seus cabelos de um modo paternal:
- É por isso que você está procurando apartamento?
Ela fez que sim, com a cabeça:
- Ele está comendo uma garota de dezoito anos. Você compreende
bem o que isso significa?
- Compreendo - eu disse. E, de fato, compreendia tudo cada vez
mais. - Essas coisas acontecem - tentei consolá-la.
Foi o suficiente para ela me empurrar, com brutalidade.
- Vocês são todos iguais. Não pense que não vi você pegando aquele
sutiã. Eu não preciso usar, veja!
Ela arrancou o vestido de baixo para cima, de um só golpe. Havia parado
de chorar tão subitamente quanto começara.
Eram seios perfeitos. Talvez houvessem sofrido uma plástica, mas que
importância tinha isso se eram tão bonitos e gostosos? Não havia outra coisa
a fazer senão acariciá-los, enquanto enfiava a mão em sua calcinha branca,e
a mulher, por sua vez, desatava o meu cinto, para depois baixar minha calça
e minha cueca, tudo de uma só vez, ajoelhando-se então aos meus pés para
chupar o meu pau, fazendo-o crescer de uma forma incomensurável, que
dava a ela uma satisfação intensa, que talvez não tivesse muita coisa a ver
comigo - eu via em seus olhos de cobra -, mas com o cara que estava
comendo a garota de dezoito anos, como se ela quisesse provar a ele o seu
poder, que acabava provando a mim e muito bem.
Pedi um tempo, porque senão aquilo ia terminar logo, e também para tirar
a camisa e os sapatos nos quais minha calça e cueca haviam se enroscado, fazendo
com que eu tivesse de me apoiar na cabeça da mulher para não perder o equilíbrio.
Enquanto eu tirava tudo, ela tirou a calcinha:
- Você quer que eu fique com ou sem os sapatos? - ela perguntou.
- Com os sapatos - eu disse. Ela deu um risinho:
- Eu sabia. Vocês são todos homossexuais enrustidos.
Ignorei aquele comentário, pois não sou machista, e preferi observar
meticulosamente a xoxota dela, que era bastante ostensiva, mas bem
proporcionada
e agradável de ver, com os cabelinhos aparados.
Ela demonstrava sentir prazer com a minha observação e acendeu
calmamente mais um cigarro.
- Poxa, como você fuma, hein? - eu disse, apenas por dizer, ou
porque aquele silêncio contemplativo me deixava um pouco embaraçado.
A resposta dela foi dar uma tragada funda e provocativa, para depois
aproximar-se de mim, pedindo que eu a beijasse na boca. Foi um desses beijos
profundos, sexuais, sem nada a ver com os beijos dos que se amam. Enquanto
ele transcorria, ela foi soprando a fumaça para dentro da minha boca,
lentamente. Eu só havia parado de fumar por causa da Clarice, que era
antitabagista militante; então não tossi nem me engasguei, pelo contrário;
traguei numa boa até o fundo, retendo o mais que pude a fumaça em meus
pulmões. Se palavras podem descrever tal experiência, devo dizer que ela me
alucinou como se eu fosse um fumador de ópio, e que foi a maior intimidade
que jamais tive com uma mulher, como se eu a conhecesse em todas as suas
entranhas. A falta de hábito, porém, fez com que eu me sentisse meio tonto,
e fui descendo meu corpo, trazendo o dela comigo.
- Quer que eu faça com você uma coisa que faço sempre com ele? -
ela perguntou.
- Quero - eu disse, ainda meio grogue.
- Então vira de bruços.
Saí do meu estupor e ergui a cabeça, assustado:
- Só se você apagar o cigarro.
- Não sou sadomasoquista - ela disse com desprezo, amassando o
cigarro no assoalho.
Virei-me de bruços e ela veio por cima de mim, de um modo que me
fez conhecer melhor o mecanismo das mulheres, ou pelo menos de certas
mulheres, e também dos homens, ou pelo menos de certos homens, como
eu e o coroa devasso. Esfregando ritmadamente a xoxota em minha bunda,
ela dizia coisas como “meu benzinho, eu te adoro, vou te comer todinho”.
E assim ela gozou, inquestionavelmente, pois não captei nada de teatral em
seu orgasmo. Foi uma série de tremores silenciosos, apenas ligeiramente
arfantes, quase introspectivos, até ela cair ao meu lado, satisfeita. Depois
deitou a cabeça em meu peito e começou a fazer risquinhos nele, com suas
unhas pontiagudas.
- Por favor, não faça isso - eu disse.
- Não faço por quê? - ela continuou com mais força.
Segurei os braços dela.
- Eu sou noivo.
Ela deu uma gargalhada artificial e levantou-se, abruptamente:
- Não acredito. Estamos quase no século vinte e um e você é noivo.
Cadê a aliança?
- Não uso. Foi apenas uma forma de dizer, já que eu e Clarice vamos
nos casar.
- Bem, nesse caso talvez seja melhor eu ir embora - ela disse,
dirigindo-se até onde estavam jogadas suas coisas. - Não quero atrapalhar
a vida de vocês. Quantos anos a Clarice tem? - ela perguntou, como que
casualmente.
- Dezenove - eu disse, embora a Clarice tivesse vinte e quatro. Só
não falei dezoito porque ia parecer coincidência demais.
Se houvesse algum objeto ali para jogar na parede, tenho certeza que
ela teria jogado. Como não havia, ela dava pontapés no ar, tentando chutar os sapatões para longe, o que não conseguiu, pois eles estavam firmemente
amarrados. Então ela pôs o vestido, mas pelo avesso. Ao retirá-lo, quase se
sufocou com ele, ao contrário da maneira graciosa e segura como o fizera da
primeira vez. E acabou por estar de novo nua, e de sapatos, chorando
mansinho, como se tudo aquilo a houvesse feito amadurecer anos, conformar-se
à realidade.
Eu não sou burro, embora as coisas que escrevia para o segundo caderno
muitas vezes fossem. Continuei ali deitado, nu, esperando que a histeria dela
passasse. Sabia que se aquela mulher não cometesse nenhuma ação sem
retorno, o fato de eu ter uma noivinha de dezenove anos só faria aumentar
o seu desejo, desta vez por mim mesmo, nem que fosse para provar mais
alguma coisa. E, realmente, enxugando as lágrimas, ela acabou por fazer a
inevitável pergunta do final do século.
- Você trouxe camisinha?
- Não, eu e Clarice somos monogâmicos e não usamos.
- Mas eu e ele não somos e não confiamos em ninguém - ela disse,
indo até onde deixara sua bolsa. Remexeu lá dentro e depois atirou para mim
uma camisinha.
- Era para usar com aquele veado - ela fez questão de informar. -
Mas se você fizer alguma perversão comigo eu vou gritar.
- O que você chama de perversão?
- Se chegar perto, eu aviso - ela disse.
Fui por aquele troço no banheiro, onde estava mesmo precisando ir. Lá
dentro, tentei descobrir o que ela achara tão ridículo, pois era uma peça comum,
até confortável, com uma boa banheira. Imaginei que deviam ser os
azulejos brancos, com figuras azuis de Vênus e de anjinhos tocando trombetas,
possivelmente copiadas de terceira mão do banheiro de algum palácio
na Europa. E não pude deixar de pensar, incomodado, que Clarice gostaria
daquele banheiro, talvez o consideraria a melhor coisa do apartamento.
Ou teria a mulher implicado com o espelho oval, com bordas trabalhadas
em metal prateado? O espelho no qual agora eu me olhava, percebendo
que alguma coisa mudara em meu rosto, talvez uma inocência perdida,
pois estava traindo Clarice pela primeira vez. Tentei pescar lá no fundo de
mim mesmo uma velha culpa, conhecida minha, e não consegui encontrá-la.
Concluí que aquilo não era uma traição, era um acontecimento tão inexorável
quanto uma catástrofe. Eu fora atropelado pelo destino e só me restava
sair de novo ao seu encontro.
Encontrei a mulher na sala, deitada de costas num colchãozinho que
ela disse ter achado no quarto de empregada. Estava nua até dos sapatos, e,
com as pernas e os olhos semicerrados, parecia a noivinha que, tenho certeza,
ela estava representando, com algum rubor nas faces, talvez de ruge, mas o
que importava?
Descrições de pormenores sexuais são deselegantes e enfadonhas. Se as
cometi, anteriormente, foi por considerar que certos atos obedeciam a uma
lógica e motivações radicais, a uma sexualidade invulgar - e, por que não
dizer?, refinada - que poderão servir ao enriquecimento do eventual leitor
deste relato, feito por quem não se pretende mais do que um repórter.
Mas creio poder revelar que gastamos duas camisinhas e fizemos de
tudo, nesse segundo movimento, menos o que, imaginei, devia ser a tal
perversão. Quanto aos orgasmos dela, da segunda fase, foram quase certamente
falsos e teatrais e, por vezes, tive de tapar sua boca. Como se ela quisesse
anunciá-los ao prédio inteiro, talvez ao mundo, mais particularmente a
Clarice, ao tal coroa e sua garotinha. Mas o que importa, já que os meus
foram verdadeiros, assim como os meus sentimentos?
O meu grande erro, talvez, tenha sido querer traduzir esses sentimentos,
comentando o crepúsculo que vimos cair, o luar que agora banhava os nossos corpos, o canto tardio de cigarras de outono. E houve um momento em que
cheguei a dizer, ternamente:
- Poderíamos até morrer juntos.
Isso lembrou-lhe que devia ir embora.
- É melhor descermos separados, depois de todo esse escândalo. Eu
vou primeiro e você entrega as chaves, está bem? - ela disse.
- Pretende ficar com o apartamento? - perguntei enquanto nos
vestíamos.
- Uma gaiola dessas? Você deve estar brincando.
- Vai voltar para aquele cara?
- Agora já posso - ela disse.
- Vai contar para ele o que aconteceu? - perguntei, ajoelhando-me
para amarrar os seus sapatos, enquanto ela acendia mais um de seus cigarros.
- Tudo é possível - ela disse. - Mas não aconselho você a fazer o
mesmo. Sua noivinha não iria perdoá-lo.
- Talvez eu não queira ser perdoado.
- Você é louco - ela disse, encaminhando-se para a porta.
Quis acompanhá-la até o elevador, mas ela não deixou.
- Me diga ao menos o seu nome - implorei.
- O que passou, passou, está certo? Que importância têm os nomes?
- Não quer nem saber o meu?
- Não - ela disse, batendo a porta.
O que mais dizer?
Terminei com a Clarice, voltei a fumar e vim morar sozinho, pagando
uma mixaria de aluguel, no apartamento 1101, B, do Condomínio Bois de
Boulougne, na expectativa, talvez fantasiosa, pelo menos em sua segunda
parte, de que o coroa um dia aprontasse mais alguma com a mulher, e ela,
farejando o meu destino, viesse me usar para uma nova vingança.
Até o momento em que escrevo, isso não aconteceu. Mas, entre
intervalos mais ou menos longos de tediosa calmaria, muitas coisas acontecem
no Bois e suas redondezas: batalhas entre traficantes no morro Dona
Marta, o pipocar de fuzis e metralhadoras, foguetes sinalizadores cruzando
os ares, incursões da polícia e do exército na favela, helicópteros voando
rasante sobre o bairro e, de vez em quando, balas perdidas, que já furaram
novamente as paredes da sala e dos quartos.
Às vezes, engatinhando com as luzes todas apagadas, vou deitar-me no
assoalho daquele quarto em que fui possuído pela mulher. Entrincheirado
atrás de uma parede, acendo então um cigarro, dou uma tragada funda, e
penso naquela que me penetrou até o âmago.
Troquei o segundo caderno pelo setor de polícia do jornal, comprei um
binóculo potente, para observar o morro, e instalei um fax no quarto
desabitado de empregada, cujo colchão, onde às vezes durmo, conservei.
Dali, o local mais seguro do imóvel, envio as últimas notícias para a redação,
às vezes quase na hora do fechamento do caderno Cidade Escrevo à mão e
assim transmito as páginas, pois meu micro levou um balaço que varreu para
sempre sua memória, igual a um ser humano quando apaga. Estamos furando
todos os concorrentes no noticiário do Dona Marta.
Num domingo, enquanto olhava pensativo da janela lá para baixo,
testemunhei quando um senhor, usando um desses shorts largos, foi alvejado
pelas costas por um franco-atirador, no momento em que mergulhava na
piscina semideserta do condomínio. Caiu já provavelmente morto na água,
cujo azul se tingiu de vermelho, num contraste macabro na manhã ensolarada
de primavera. Foi o que escrevi, e não cortaram.
Pensei, também, que morrer talvez não tivesse mesmo a menor importância.
O sujeito havia saído de cena em grande estilo, enquanto nós, aqui,
continuamos sofrendo por razões diversas, incluindo as minhas. Mas não estava simplesmente fazendo frase quando escrevi, para finalizar a matéria, com esperança de que a mulher me lesse, entendesse tudo e
viesse me encontrar, que morrer é muito fácil no Bois de Boulogne.