domingo, 16 de setembro de 2012

Um discurso sobre o método Sérgio Sant’Anna


Ele se encontrava sobre a estreita marquise do 18º andar. Tinha pulado ali a fim de limpar pelo lado externo as vidraças das salas vazias do conjunto 180 1/5, a serem ocupadas em breve por uma firma de engenharia.  Ele era um empregado recém-contratado da Panamericana - Serviços Gerais. O fato de haver se sentado à beira da marquise, com as pernas balançando no espaço, se devera simplesmente a uma pausa para fumar a metade de cigarro que trouxera no bolso. Ele não queria dispersar este prazer misturando-o com o trabalho.
Quando viu o ajuntamento de pessoas lá embaixo, apontando mais ou
menos em sua direção, não lhe passou pela cabeça que pudesse ser ele o centro
das atenções. Não estava habituado a ser este centro e olhou para baixo e para
cima e até para trás, a janela às suas costas. Talvez pudesse haver um princípio
de incêndio ou algum andaime em perigo ou alguém prestes a pular.  Não havia nada identificável à vista e ele, através de operações bastante lógicas, chegou à conclusão de que o único suicida em potencial era ele próprio. Não que já houvesse se cristalizado em sua mente, algum dia, tal desejo, embora como todo mundo, de vez em quando... E digamos que a pouca importância que dava a si próprio não permitia que aflorasse seriamente em seu campo de decisões a possibilidade de um gesto tão grandiloqüente.  E que o instinto cego de sobrevivência levava uma vantagem de uns quarenta por cento sobre o seu instinto de morte, tanto é que ele viera levando a vida até aquele preciso momento sob as mais adversas condições.
No seu bolso, por exemplo, depois que se fora o cigarro, só restavam a
carteira profissional e algumas poucas moedas, insuficientes para tomar o
ônibus lá na Central do Brasil, numa hora em que os trens já teriam parado. Até a Central, ainda dava para ir a pé, quando ele costumava andar de cabeça
baixa, não por um sentimento de humilhação, em particular, mas como uma forma de achar moedas, o que não era tão raro assim, uma vez que, com a depreciação crescente do valor dessas moedas, muitas pessoas não se davam mais ao trabalho de curvar-se para pegá-las, quando as deixavam cair.
Antes de pegar o serviço, hoje, no turno das quatro horas da tarde, que se
estenderia até a meia-noite, ele hesitara bastante em gastar o dinheiro da
passagem. Mas o vazio no estômago falara mais alto e ele usara parte dessa
grana
com um cafezinho, enchendo três quartos da xícara com açúcar, o que lhe
proporcionava umas tantas calorias, embora ele não pensasse assim, em termos
de calorias, mas da diminuição da vontade de comer e, como requinte, que um cigarro, mesmo pela metade, era bem mais saboroso depois de um café.  Ele meditara também sobre as condições meteorológicas, olhando para o céu e concluindo que o tempo continuaria firme, o que significava que ele poderia passar a noite num dos bancos ou gramados do centro da cidade.  Costumavam causar-lhe tédio, quando dormia na rua, as manhãs sem destino até a hora de pegar o serviço, procurando distrair-se olhando o mar e os aviões na ponta do Aterro, perto do aeroporto, ou frangos giratórios nos fornos envidraçados ou, nos cartazes de cinema, mulheres nuas e homens de ação. Mas este era um problema para amanhã e depois de amanhã, no máximo, porque no terceiro dia sairia o pagamento. Ele era um homem que vivia nas imediações do presente, pois o passado não lhe trazia nenhuma recordação agradável, em especial, e o futuro era melhor não prevê-lo, de tão previsível. A data de pagamento, porém, era um marco cronológico ao qual ele se apegava.
O sujeito que o recrutara por um salário mínimo lhe dissera que ele
ainda tinha sorte, pois o desemprego grassava no país. Era um sujeito que
gostava de usar verbos desse tipo, de dicionário, que lhe pareciam conceder
dignidade e pompa às suas palavras, embora ele não chegasse a materializar
em sua mente tais substantivos abstratos. Autoridade e importância, sim,
eram prerrogativas das quais ele se revestia em seu cargo, ele ali sentado
com
a gravata e a palavra, enquanto que os homens que desfilavam à sua frente
permaneciam de pé e mudos, a não ser por certas respostas quase monossilábicas
como “sim senhor”, ou “não senhor” quando se tratava de vícios como a cachaça. Se audiência fosse um pouco mais qualificada, ele discorreria também um pouco mais sobre os problemas do país, que provinham do atraso do povo, a desonestidade e incompetência dos políticos, agravadas pelo gigantismo do Estado. Na intimidade do lar, ele apontava ainda causas como as condições climáticas, uma colonização de degredados e a mistura de raças. Ele era um homem da iniciativa privada numa posição de comando intermediário, embora achasse que ganhava pouco, o que era amenizado pela perspectiva de subir alguns degraus, desde que fosse perseverante e duro até o ponto da inflexibilidade. E o nome Panamericana se revestia para ele de uma aura multinacional, apesar de não ser mais do que isso, uma aura esperta que, a bem da verdade, contaminava mesmo o homem lá na marquise, em seu uniforme com aquelas letras gravadas significando para ele alguma coisa que não entendia bem e por isso respeitava, algo ligado a competições esportivas que o Brasil disputava. Alguma coisa imponente, sem dúvida, tanto é que eles eram proibidos, em tese, de vestir os uniformes fora do horário do trabalho, justamente para evitar que os empregados manchassem aquele nome envergando-o em botequins ou bancos de praça e gramados.
Mas a perspectiva de passar a noite num desses dois últimos locais trazia
em seu bojo a vantagem de que, não indo para casa, ele não presenciaria o
que lá estivesse se passando, com a mulher e os três filhos diante de uma
despensa - que era como eles chamavam alguns caixotes empilhados totalmente vazia. Não que ele estivera pensando nisso em seu trajeto rumo
à marquise, muito pelo contrário; ele costumava desligar-se dos problemas
da casa tão logo punha os pés na rua. Sabia que as mulheres eram capazes de
verdadeiros milagres, como uma contabilidade não escrita de ovos e farinha tomados emprestados umas das outras na vizinhança, mas se um homem se encontrasse por perto todas as queixas recairiam sobre ele. Pelo menos era o que ele pensava, quando estava pensando nisso.  Tais aflições subsistiam, porém, apenas como uma espécie de latência dentro dele - uma ausência boa - ali na marquise, e não teriam aflorado juntamente com o próprio meio de livrar-se delas, caso ele não identificasse os gritos em coro das pessoas lá embaixo como pedidos para que ele pulasse.  Não que ele se dispusesse a ceder àqueles apelos, bem entendido; apenas descobria, um tanto perplexo e até fascinado, que esta era uma alternativa plausível para um ser humano como ele, em dificuldades, mas de posse de todos os seus movimentos. E isso lhe concedia uma liberdade insuspeitada e uma leveza, uma vez que um fio muito tênue podia separá-lo da meta comum à espécie, que é não sofrer.
Pode-se indagar a respeito do medo. Se ele não tinha medo de estar ali suspenso? Mas é preciso não esquecer que ele estava habituado a ocupar posições delicadas no espaço.
Outro, em seu lugar, talvez se magoasse com o pouco caso que a
assistência dava à sua vida. Mas, como já vimos, ele também se dava pouca
importância, como um coadjuvante muito secundário, quase imperceptível,
de um espetáculo polifônico. Por isso, também jamais se cristalizara a
hipótese de forçar o destino com uma arma na mão, assaltando pessoas físicas
e jurídicas, embora passasse por sua cabeça, como na de todo mundo, de vez
em quando... E nesse espetáculo havia os que se colocavam como espectadores
nos mais baixos degraus da fama e ele mesmo, se fosse numa dessas manhãs em que flanava sem destino, teria se postado na platéia para matar o tempo, mas sem voz ativa, porque era um homem sóbrio em seus atos, modesto. Então não sentiu mágoa e até sabia, sem trazê-lo à consciência que em ajuntamentos semelhantes existiam aqueles, como certas mulheres (às vezes já com uma vela na bolsa), que passavam aflitamente a mão no rosto e diziam falas melodramáticas como “pelo amor de Deus, não”, ou algo do gênero, e também aqueles outros que chamavam a polícia e os bombeiros, sendo que um carro da primeira corporação já chegava neste momento.  Ele era um homem respeitador das leis e dos poderes e, em nome de tal respeito, medo até, levantou-se imediatamente para retornar à limpeza das vidraças, quando um silêncio de expectativa neutralizado por um clamor de incentivo veio lá de baixo, para logo depois se transformar numa vaia, quando perceberam que ele era apenas um homem trabalhando, ainda que em condições precárias que sugeriam risco, ação, emoção, coragem.
E esta vaia, sim, foi recebida por ele com mágoa, porque os gritos
anteriores tinham sido algo assim como o entusiasmo da arquibancada diante
de um atleta e, de repente, era como se ele houvesse executado ajogada errada. Com o escovão e o pano nas mãos, e o balde a seus pés, ele virou-se novamente para a platéia e deu um passo miúdo adiante, para ouvir distintamente os gritos de “pula”, “pula”.
O fato é que ele jamais estivera num palco, num pedestal, e isso afetara sua modéstia. Não é preciso conhecer a palavra pedestal para saber que as estátuas repousam sobre uma base. Como também não é preciso conhecer a palavra polifônico para ouvir as muitas vozes e o conjunto de sons da cidade.
E haveria sempre alguém que pudesse narrar isso por ele, até que as condições
socioeconômico-culturais da classe operária se transformassem no país e ela pudesse falar com a própria voz.
Quando isso acontecera, por exemplo, na Inglaterra, dera origem a fenômenos inesperados como os Beatles e os angry young men, jovens
zangados. Já na União Soviética ou em Cuba, o brilho de algumas vozes fora abafado em nome de prioridades econômicas indiscutíveis. Ele vira, na abertura dos Jogos Olímpicos de Moscou, a saúde e a beleza da juventude soviética. Como todo mundo, no Brasil, ele dera o seu jeito de comprar um aparelho de TV. Comprara de um rapaz vizinho, sem exigir nota fiscal ou indagar sobre a marca ou procedência. O rapaz era um jovem zangado brasileiro e assaltava pessoas físicas, preparando-se para encarar as jurídicas, do ramo bancário. Ambos não conheciam os Beatles.  As estátuas, ele conhecia bem, apesar de não ler as placas. Perambulava muito diante delas e intuía que eram erigidas (embora não utilizasse tal verbo, mais do estilo do chefe do Departamento de Pessoal da Panamericana) em homenagem a pessoas que teriam realizado feitos notáveis, tanto é que estavam ali em exibição pública, como exemplo moral.  Não era bem o caso dele, certo, mas ele também estava provando do poder sobre a massa, como alguns daqueles homens ilustres. E isso ampliava, de repente, de maneira literalmente vertiginosa, a sua consciência social.  Aquele pessoal lá embaixo, como ele próprio, a mulher e os filhos, não era gente bonita, bem alimentada e imbuída de elevados propósitos; pelo contrário, era preciso aplacá-los com sangue e circo. Então ele chegou a refletir - se se pode chamar assim o clarão de raiva que o atravessou - sobre métodos violentos de transformação da sociedade. Alguém mais cultivado poderia contrapropor métodos constitucionais de mudança. Mas isso poderia levar décadas ou um século, ou talvez não acontecesse nunca.
E o caso dele era premente: a situação financeira de carência absoluta,
agravada pelo fato de ter se destacado tanto nos últimos instantes na
Panamericana, de forma incompatível com a política de pessoal da Companhia.
E havia o fato principal de que ele tinha uma só vida para viver, apesar
de, paradoxalmente, andar ventilando, nesses últimos momentos, como um
exercício, a hipótese de livrar-se dela. Diante disso, a sociedade como um
todo era uma abstração. Ele estava se tornando agora, sempre vertiginosamente,
um individualista. Se tivesse uma arma na mão, talvez houvesse disparado a esmo. Ele não tinha tal arma e só poderia disparar contra si mesmo, em forma de uma tristeza pontiaguda.
Em compensação isso ampliava sua consciência poética, talvez dando razão àqueles que vêem na arte uma redenção do sofrimento. Aproximava-se a hora do crepúsculo, uma hora bonita, ele também achava. Para realçar tal beleza na melancolia, havia a possibilidade desta tornar-se também a hora do seu crepúsculo, que ele podia fazer belo e significativo. Se pulasse, transformar-se-ia numa personagem de jornal, um mártir da crise econômica, merecendo mais do que um simples registro, porque teria conseguido transformar a avenida Rio Branco lá embaixo, assim batizada por causa de um barão (que ele desconhecia), num pandemônio, com o soar das sirenes e um carro do corpo de bombeiros que ocupara um bom trecho do asfalto, o Estado usufruindo da oportunidade de retribuir o dinheiro arrecadado dos contribuintes.
Um cordão de isolamento já fora estendido para que ele não caísse em
cima das pessoas e, sem sabê-lo, ele se avizinhava de um ideal romântico que
é o de morrer jovem e no auge da fama. Só não era belo. Era um rapaz de
vinte e cinco anos, embora não parecesse. Aos argumentos de praxe de que
tudo isso de nada lhe serviria depois de morto, ele poderia contrapropor -
se além de romântico fosse poeta ou filósofo - que estava gozando com a
máxima intensidade os lances dramáticos que podiam anteceder a morte,
como num duelo ao entardecer. A cidade era inquestionavelmente bela, com
seus picos e montanhas, o oceano, algumas aves marinhas, outras não, um
avião que pousava naquele instante, com seus passageiros que observavam a paisagem de um ângulo diverso do seu. É claro que não existe a beleza sem
que a observe. Mas, por outro lado, não haveria tal intensidade na
contemplação, no caso dele, não fosse certa iminência... Uma iminência que
tornava
mais perceptível do que nunca, aos seus ouvidos, a polifonia sinfônica das
ruas, como se ele fosse um apreciador sofisticado de música aleatória, o que,
quando nada, demonstrava que não é preciso estar a par de certas definições
e correntes estéticas para usufruir dos efeitos e dos materiais que as compõem,
que acabavam por se reunir numa espécie de zumbido cósmico que parecia nascer de dentro dele.
Havia também qualquer coisa de existencialista nele, com esse negócio de viver intensamente um momento limite e dar-lhe um sentido, como alguma personagem de Jean-Paul Sartre, além de ter sido acometido, há pouco, de uma boa dose de náusea existencial em relação a si próprio e à massa humana. Por outro lado, mesmo em condições socioeconômicas mais favoráveis, haveria o absurdo da existência. Ele era um absurdo. Uma consciência largada no mundo, que podia morrer a qualquer instante e não era feliz.
É claro que, do ponto de vista de uma abordagem psicanalítica, sua
ânsia recém-aflorada de pular era passível de ser analisada sob outros ângulos,
alguns menos, outros mais românticos ainda. O fato de sua força voltar-se contra ele próprio, num momento em que não podia dirigi-la para fora, era somente a parte mais óbvia da questão que, com um mínimo de paciência, poderia ser explicada a ele por algum psiquiatra do INPS, que a seguir o consideraria apto a retornar ao trabalho. Ele não era burro, apenas não crescera num ambiente propício a aprimorar sua educação. Quanto ao narcisismo, refletido no ato de pavonear-se no espelho da massa, ele poderia canalizá-lo para atividades socialmente mais ajustadas, como progredir no seu ramo de vidraças e assoalhos, até deixá-los tão impecavelmente limpos que lhe devolvessem uma imagem sem distorções e fantasias perniciosas. Ou, no caso de suas ambições ultrapassarem o âmbito do emprego para atingir o mundo dos espetáculos - como ocorria agora -, sempre restaria a possibilidade de buscar uma chance num programa de calouros da TV, ou no futebol, mas isso, no segundo caso, se não houvesse se passado em sua infância um acontecimento absolutamente traumático: ter sido expelido, aos empurrões, de um time de garotos, por deficiência técnica possivelmente decorrente de suas deficiências físicas, ainda que ele fosse escalado na ponta-esquerda, posição que no Brasil costuma tornar-se a mais próxima possível da reserva.
Tanto é que se comentassem com ele que o Brasil, em toda a sua história esportiva, jamais tivera em suas seleções um só ponta-esquerda que fosse o astro do time, ele captaria numa fração de segundo a origem e o espírito da coisa, remetendo-a a seu próprio caso e isso, sem dúvida, seria plenamente um insight, que o faria rir numa descarga nervosa, talvez convencendo-o a aceitar melhor seus próprios limites, pois ele nem mesmo era canhoto e tornava-se extremamente difícil cruzar a bola com o pé trocado. E ainda lhe restaria, uma vez diluída uma prejudicial imagem idealizada, torcer e identificar-se com um time que lhe devolvesse, de vez em quando, a sua dedicação com um campeonato; afinal nem todos podem pisar o palco.
Mais difícil - e romântico - embora não impossível, desde que se
encontrassem as expressões adequadas, seria aprofundar com ele a coisa no
sentido de entendê-la, a sua tentação repentina de pular, como um desejo
de retorno aos braços e seios maternos e talvez até a uma vida uterina, ao
indiferenciado que a todos iguala, não houvesse sido esta sobressaltada por
tentativas de morte contra ele e ainda por cima com a utilização de métodos
inadequados - talvez sentidos por ele como maremotos no líquido em que boiava -, embora, depois de ele ter vindo insistentemente à luz, fosse
encarado, por seu raquitismo, como um castigo e uma dádiva, o que já o colocava no mundo desde o início como um paradoxo e diante de um conflito. Pois o mesmo fato que o levava a ser sacudido e surrado quando chorava durante as noites, por sentir um oco inexplicável nas entranhas, era razão para ser embalado e amamentado em plena via pública, sob marquises (!) dos edifícios, porque a mãe complementava o magro orçamento doméstico mendigando no centro da cidade, para onde ele era trazido num trem elétrico (!) vestindo seus piores farrapos, se é que os havia e, nesse ponto, como prova material de penúria para os pedestres, ele bem valia o seu peso em moedas.
E se depois de um primeiro tratamento de choque, no referido INPS, ele fosse encaminhado a um profissional gabaritado, no ramo da mente, este talvez pudesse anotar em seu bloquinho, não como uma certeza - pois aprendera a desconfiar delas - mas como uma bela hipótese a ser investigada, o fato de ele ter escolhido (ou ter sido escolhido por ela, pouco importa, pois não existem coincidências, mas causalidades necessárias) uma profissão que o levaria sempre para bem próximo das marquises e que agora estivesse na iminência de jogar-se de uma delas para cair dentro do berço, que era a calçada. A fortificar tal dedução, havia o fato indiscutível de que ele trilhara literalmente esta via na vida, onde era sempre obrigado a pegar um trem elétrico para chegar ao local de trabalho que se confundia com o mítico ponto onde seria acalentado e daí, talvez, se pudesse explicar-lhe seu delírio ambulatório e até curá-lo dele, pois num dia chave, como o de hoje, o ter gasto o dinheiro da condução de volta com um café e principalmente açúcar (pois a doçura na boca era um fator que, além das calorias, tinha necessariamente de ser levado em consideração) podia não passar do que provavelmente era: um mero pretexto a acobertar coisas mais reconditamente recalcadas no inconsciente. E o final de todo este encadeamento era que ele gastara o dinheiro do ônibus, o veículo que o levaria de volta ao sofrimento do lar, e não o daquele trem (o seu trenzinho elétrico de infância) que o conduzia ao aconchego do seio materno. E o profissional sorriria de prazer diante de tal insight não do paciente, mas dele próprio - que poderia até ser levado a um congresso e publicado na revista da Sociedade, espicaçando os lacanianos, eis que tais associações não se teriam devido a nenhum troca-letras ou aliterações, mas a imagens semanticamente justas, verdadeiro embrião para uma monografia que poderia ser intitulada A psicanálise da classe operária e, desta vez, sem qualquer ironia, a Europa verdadeiramente se curvaria diante do Brasil.
É certo que tal profissional, por sua integridade, somada a uma boa
dose de esperteza, se anteciparia com um post-scriptum às possíveis
desconfianças
diante de tal modelo, criticando-o ele mesmo justamente por sua
perfeição, como a de um círculo, não deixando brechas, mas redimindo-o
com o argumento de que muito mais do que pela justeza científica de uma
resposta, um modelo psicanalítico se validava pela maior ou menor
possibilidade
de um paciente ajustar-se dentro dele, como num pijama de molde
adequado, e residiria aí, precisamente, a possibilidade de cura, se se pode
falar em cura quando se trata de uma coisa volátil como a mente, que, como
a alma, não ocupa propriamente um espaço. E, de qualquer modo, dentro
das limitações de uma tentativa de conhecimento que não chega a ser uma
ciência, mas um método, talvez propiciaria este modelo que o paciente
pudesse voltar para casa, em vez de dissipar seu dinheiro na rua, e lá beijar
a
mulher no rosto como qualquer cidadão de classe média. Para então concluírem
juntos, paciente e analista, que no princípio e fim de tudo está sempre o amor e, neste ponto, concordariam todos, freudianos, lacanianos e
junguianos-bio-energéticos, que o que importava, no fundo, na relação analítica, era a cumplicidade afetiva, amorosa mesmo, entre analista e analisando, pena que tal tipo de cliente em potencial, este que estava suspenso por um fio entre vida e morte, na marquise, não pudesse pagar para ver isso de perto.  Então só lhe restava o amor de fato. O amor de uma mulher, por exemplo, que lhe estendesse a mão neste momento crucial. Não a mulher dele, evidentemente, pois a relação que se estabelecera entre ambos nos últimos tempos, depois dos desgastes da vida em comum, era aquela que pode estabelecer-se entre um pedaço de pau e um buraco, mais ou menos ajustados em suas dimensões, porém dissociados de uma configuração gestaltiana que os integrasse dentro de um todo que incluiria um aspecto de sublimação espiritual, aquilo que os seres humanos costumam denominar amor. Ou mesmo um desejo intenso pela carne alheia que fosse mais do que o apaziguar de uma coceira. Mas a natureza não queria nem saber das condições extrabiológicas: no fim de nove meses dava filho e ele já tinha três.  Boa parte daquela massa arfante que circulava pelas ruas lá embaixo era proveniente do encontro de corpos em tais circunstâncias de pobreza material e do espírito, então era natural que, em termos de qualidade, houvesse uma baixa progressiva.
O amor que o poderia ter salvo seria, por exemplo, o de uma datilógrafa que às vezes ele via fazendo horas extras numa das firmas para as quais ele era designado para a limpeza. Era uma jovem bem proporcionalmente rechonchuda, que provavelmente se tornaria gorda, com o correr do tempo.
Mas isso era um problema para depois, do qual ele não se ocupava em suas
fantasias, pois estamos no terreno do presente imediatíssimo. Além de ele
verdadeiramente admirar-se com suas formas e com o modo velocíssimo da
moça bater à máquina sem olhar para as teclas, havia um detalhe que fornecia
a ela uma aparência simultaneamente distinta e distante (porque ele conhecia
bem o seu lugar no mundo): os óculos. Parecia-lhe incrível que uma mulher
fosse ao mesmo tempo jovem e desejável e complementada por um par de
óculos que fazia vir à mente dele professoras meigas que ele não tivera a
oportunidade de conhecer. Eram os óculos um símbolo de inacessibilidade
e cultura e as fantasias chegavam a ele primeiramente em forma de preliminares,
como levá-la ao cinema, à Quinta da Boa Vista, até um dia pegar na mão dela, para só depois, muito aos poucos, ir pegando no resto. O momento em que ele a possuiria seria um acontecimento solene, quando deveria munir-se de toda a delicadeza e a última coisa a retirar do corpo dela, se ele efetivamente retirasse, seriam os óculos. Porque esses óculos, sem que ele o soubesse, eram o seu fetiche.
Talvez ele se espantasse ao saber que também dentro dela se passavam
devaneios, nos quais um homem sensível acabaria por descobrir a alma gentil
que se abrigava naquele corpo curvado sobre a máquina e atrás daqueles
óculos. Embora ela mantivesse relações esporádicas com um contador casado
e com um jovem vizinho de bairro, que tinha um automóvel, ainda não se
desfizera do seu sonho de casar-se com alguém que verdadeiramente precisasse
dela, como algum jovem estudante de medicina que chegaria ao final do curso com todo o sacrifício, do qual ela compartilharia com alegre resignação.  E se ela conhecesse um homem assim quando ele se encontrasse à beira do desespero, seria capaz de entregar-se ainda mais vitalmente, gozando entre lágrimas da comovente alegria que é poder estender a mão àquele que se afoga, para trazê-lo não só à tona, mas aos píncaros do sublime.
O problema é que para se ter direito ao amor, no desespero, é preciso
carregar algum tipo reconhecível de beleza, nem que seja através de obras, como um Toulouse-Lautrec. Embora Van Gogh, apesar de tudo... Quanto
a ele, o homem na marquise, fora destinado a essa solidão radical que é a
feiúra na pobreza. Mas ele seria até capaz de reconhecer, modestamente, se
tivesse tido a tal educação mais aprimorada, que Toulouse-Lautrec sofrera
mais do que ele, porque provara daquele mundo onde as mulheres eram
belas, e os homens, artistas tão sequiosos dessa beleza, que às vezes um deles,
por carência dela, se mandava daquele mundo para outro melhor.  Então só lhe restava, de fato, o amor de Deus ou a Deus que, através de uma das suas personae cristãs, o Filho, podia ser visto concretamente de braços abertos dominando a cidade. Podia ser visto privilegiadamente dali de onde ele estava, o homem da marquise. Iluminava-se o Cristo durante as noites e apagava-se ao amanhecer; encobria-se de nuvens negras em dias de tormenta e era visto a brilhar novamente quando voltava a bonança. Mas nunca, desde a inauguração da estátua, em 1931 - incluindo a visita do Papa, em 1980 -, fora visto mexendo um só dos braços para apaziguar uma dessas tormentas, individuais ou coletivas, nem quando eram as águas das chuvas que, descendo do morro que sustentava a sua imagem, iam provocar a catástrofe lá embaixo, levando na enxurrada casas, animais e pessoas e induzindo estas pessoas a pensar em algum castigo que certamente teriam merecido. Não era então previsível que movesse o Cristo um dos dedos que fosse, pelo homem na marquise, ainda mais que, se se encontrava este em posição tão periclitante, era de posse de um livre-arbítrio muito mais acentuado do que normalmente dispunham as pessoas na sua posição, tomando-se esta no sentido mais amplo possível. Pois não só ele dominava as alturas, como fora parar ali por dever de ofício e não pelo desespero - a não ser o inerente ao próprio ofício - e podia descer no momento em que quisesse, inclusive pelo lado de dentro do prédio. E, se não o fazia, era pelo pecado do orgulho.
Embora por várias vezes houvesse abandonado o Cristo por ídolos de periferia como orixás e exus, já ouvira falar, este homem, durante as catequeses de infância, em sua paróquia - depois das quais era servido um lanche-, que os pobres mereceriam um lugar de destaque no reino dos céus e que, por outro lado, os suicidas não teriam perdão. Para encontrar-se então com Deus, no seu caso particular, era preciso sobretudo ter paciência.  E o que o homem fez foi abrir os braços para o Cristo, movido um pouco por uma súplica vaga, porque ele não sabia como sair honrosamente daquela armadilha, e um pouco por exibicionismo ou espírito de imitação, que não raro são a gênese da loucura, quando um ser humano percebe que, se não podem certas realidades ser transformadas, pode-se simplesmente mudar a si mesmo, trocando-se um papel modesto por outro melhor, como o de Napoleão ou outro general, em casos extremos, ou de um simples guarda de trânsito, nos menos graves. Imitação que, naquele caso específico, fez sucesso, pois a massa vibrou lá embaixo, talvez pela popularidade do modelo, talvez por acreditar que a personagem que o encarnava finalmente iria voar.  Foi neste momento que se fez ouvir a voz. A voz trovejou não das alturas, mas da sala da firma de engenharia:
- O senhor desça já daí porque está preso - disse um policial, empunhando seu revólver. Logo percebeu que incorrera numa impropriedade semântica que podia trazer graves conseqüências, se o homem descesse e, por isso, estendeu um dos braços dali do peitoril da janela para agarrá-lo.  Pela primeira vez, na vida, este outro homem era tratado de senhor; tratamento, porém, que adivinhava seria imediatamente abandonado uma vez nos braços truculentos da Lei. Então recuou na marquise até um limite tão preciso e precário que, fatalmente, o colocava sob a jurisdição do corpo de bombeiros.
O representante mais categorizado desta corporação, que ali estava, fora submetido a um treinamento durante o qual se levara em conta, entre outras
disciplinas, as humanidades. Fez um sinal para que o membro da outra corporação se recolhesse a um canto discreto e assumiu o comando das operações com um discurso para o qual se preparara desde o dia em que, assistindo a um filme pela TV, descobrira que a sua verdadeira vocação era ser bombeiro. Um discurso onde o formalismo era substituído, juntamente com as armas, pelo tratamento mais brasileiro-homem-cordial do “você .  - Rapaz - ele disse. - Pra tudo na vida há remédio e você ainda vai rir dos problemas que te levaram até aí em cima, seja lá o que for. Por que não chega mais perto pra gente conversar? Ou se quiser fala daí mesmo, que nós estamos aqui é pra te ajudar.
Apesar das misturas de concordância e de uma certa armação na fala, sua voz alcançara justamente aquele tom de cumplicidade afetiva, amorosa mesmo, precioso para se estabelecer uma relação. E é preciso não esquecer que o homem não se instalara ali com a intenção de pular; apenas fora tentado, inadvertidamente, pela vertigem e poder das alturas. Virou-se então para o bombeiro, que já saltara para a marquise, sob aplausos do público volúvel, e sorriu encabuladamente, como que pedindo desculpas.  Poderia ter explicado, simplesmente, que estava limpando vidraças e que tudo não passava de um mal-entendido, era só ver o balde etc., e checar na Panamericana - Serviços Gerais.
Mas a verdade é que haviam ocorrido em sua mente alguns fenômenos bastante complexos, que modificaram a sua visão de mundo e que ele gostaria de expor, inclusive a si mesmo, mas para os quais não encontrava palavras.
- É como se fosse um outro, compreende? - ele disse ao bombeiro, que
o abraçava sem encontrar resistência, para conduzi-lo à sala. - Alguém possível
dentro de mim, que estivesse soprando pensamentos na minha cabeça.  Neste momento, ele deu um largo sorriso, porque essas eram justamente as tais palavras. Porém o treinamento do bombeiro não chegara a considerar certos aspectos mais recônditos, sutis e contraditórios da mente e, como um profissional objetivo dentro das limitações dos seus deveres, não teve dúvida em seu veredicto.
- É louco - avisou lá para dentro, ao mesmo tempo que empurrava o homem para o interior da sala, onde foi imobilizado.  Ele fora traído, mas, por outro lado, o seu salvador - se podia chamá-lo assim - aplicara-lhe um rótulo novo que lhe oferecia também uma nova identidade, talvez explicando suas novas sensações, que agora ele preferia guardar para si mesmo.
“É como se tudo não passasse de um sonho, inclusive eu e o bombeiro.” Um sentimento, aliás, sumamente agradável, porque o libertava de certas cadeias.
Ele estava enganado, mas não muito longe da verdade, embora o estivesse da originalidade: ele não era um sonho, mas uma alegoria social.  Social, política, psicológica e o que mais se quiser. Aos que condenam tal procedimento metafórico, é preciso relembrar que a classe trabalhadora, principalmente o seu segmento a que chamam de lúmpen, ainda está longe do dia em que poderá falar, literariamente, com a própria voz. Então se pode escrever a respeito dela tanto isso quanto aquilo.
Mas nesse ínterim chegava suado, gordo e ofegante ao recinto uma
personagem bastante próxima da realidade: o chefe de pessoal da Panamericana
- Serviços Gerais. Vinha imbuído de formalismo, dignidade e prerrogativas do seu cargo, além de premido pelo medo de perdê-lo, diante de uma publicidade que não era bem o que o departamento de Relações Públicas da firma tinha em mente. Com os pés bem fincados no chão, disse:
- Você desonrou o uniforme. Pode trocar de roupa e me entregá-lo
pessoalmente. O ato que acaba de cometer é falta grave, passível de justa
causa. E portanto está demitido. Suas palavras judiciosas visavam, desta vez, muito mais do que impressionar
estilisticamente a audiência, assegurar a todos que estava fazendo o melhor possível nas circunstâncias, uma vez que o seu olhar clínico para bêbados, vagabundos, ladrões e malucos falhara lamentavelmente naquele caso. Inadvertidamente, estava cometendo mais um erro: suas palavras foram registradas pela imprensa, um tanto frustrada até então com a negativa do homem da marquise em dar qualquer depoimento em que as suas motivações se mostrassem claras. E louco era uma palavra que os editores, a não ser os dos jornais populares, consideravam um tanto vaga.  E o executivo não apareceu bem na história, onde, ao contrário do que pensava, também não era sujeito, mas uma reles peça, primeiro passo numa derrocada que se iniciaria com a sua demissão e terminaria com o seu suicídio, quando, por um sentimento inato de justiça, viesse a aplicar em si próprio o mesmo código severo que costumava destinar aos subordinados. Mas isso já é outra história.
Nesta, apenas os policiais ficaram impressionados. Embora também
não encontrassem as palavras justas para dizê-lo, viram ali uma manifestação
do poder temporal e também daquele outro, maior, que fora ofendido numa
de suas principais personae. E, como punição exemplar aos desesperados, mais
desespero.  o veterano de tantos incêndios e escombros de enchentes -, e disse que o rapaz só ia trocar de roupa no hospital psiquiátrico, para onde seria levado.  Suas palavras também foram registradas e, mais uma vez, com toda a justiça, a corporação apareceu bem diante da opinião pública, como um lampejo de esperança de que nem tudo estaria perdido.
Quanto à personagem principal da história, o homem da marquise, ao saber do seu destino, em outras circunstâncias talvez se sentisse ferido em seu ponto mais vulnerável, o que o teria feito, quem sabe, aproveitando a vigilância afrouxada, pular enfim para a morte. Não por causa da perda do salário, propriamente, pois já se encontrava há muito a um pequeno passo do vazio econômico absoluto. Mas porque perceberia, com clareza, que a Panamericana tinha sido até então para ele não apenas um emprego, uma firma na qual trabalhava, mas um invólucro, materializado pelo uniforme, dentro do qual se enfiava - ele que se sentira, desde o berço, como uma espécie de coisa oca - e que, se não lhe fornecia uma identidade marcante, o tornava parte de uma equipe, como no futebol, permitindo que - contrariando o regulamento - passeasse entre os mendigos do Aterro sem sentir-se um deles, ainda que também não tivesse nem um puto no bolso.  O sujeito do corpo de bombeiros - que indiscutivelmente surgia diante dos seus olhos como a pessoa de maior autoridade moral, dentre todos, ali - falara numa troca de uniformes no hospital psiquiátrico, do mesmo modo que fizera, a propósito dele, sem titubear, um diagnóstico preciso: louco. Não havia então por que desconfiar e ele caminhava com uma satisfação até ansiosa para trocar de papel e de equipe.
Na verdade, ele já se encontrava sob outra jurisdição. Não a dos dois
homens de branco que chegaram para levá-lo numa ambulância, ele envergando
o uniforme da Panamericana e tudo. A jurisdição sob a qual ele se
encontrava era a do “outro”, aquele alguém possível que soprara pensamentos
em sua cabeça, sobre a marquise. E ele previa, intuitivamente, que lá no
hospital deveria haver um pátio onde, flanando à vontade debaixo das árvores
ou sentado num banco, ele teria todo o tempo do mundo para encontrar e
conhecer o tal “outro”, até que os dois se tornassem a mesma pessoa e falassem
com a mesma voz.