domingo, 4 de agosto de 2013

“Ode à melancolia”!
Não, não te aproximes das águas do Letes, nem queiras recolher o vinho venenoso do acónito, cujas raízes estão entrelaçadas;
evita que tua fronte pálida se deixe beijar
pela beladona, as vermelhas bagas de Prosérpina;
não teças o teu rosário com as sementes dos ciprestes,
nem deixes que o escaravelho ou a borboleta nocturna
sejam a tua fúnebre Psique, ou que torne o mocho,
de penugem tão macia, o confidente da tua dor misteriosa
— porque, unida às outras sombras, uma sombra virá
cheia de torpor
e há-de extiguir, dentro da tua alma, uma angústia vigilante
Mas se, inesperado, o acesso da melancolia descer
do céu, como se fosse as lágrimas duma nuvem
que reanima as flores, cujas hastes tristemente pendiam,
e as verdes colinas oculta sob um véu primaveril,
então, deixa que se tranquilize a tua dor sobre uma rosa
matinal.
sobre o arco-íris que surge junto às vagas e à areia salgada
ou sobre o esplendor esférico das peónias;
ou se, cheia de delícia, aquela que tua amas se exalta<
pega na sua mão delicada, deixa que ela delire
e bebe nos seus incomparáveis olhos, longamente.
Com ela vive a beleza — que deve morrer,
e a alegria cuja mão se leva aos lábios
para dizer adeus; e, próximo, fica o doloroso prazer
que se transforma em veneno quando as abelhas dos lábios o
aspiram.
Sim, no interior do próprio templo da alegria
está o altar soberano da melancolia, coberta de véus,
apenas visível para aquele que consegue provar
as uvas da alegria, com um impetuoso e puro desejo;
mas o seu espírito depous há-de sentir amargamente
o poder que ela tem ao ficar entre seus troféus
nebulosos…

John Keats