quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Imitação
Uma maré negra, insondável,
De orgulho interminável...
A vida que eu tive outrora
Seria mistério, ilusão...
Um sonho que se infundia
De loucas ideias da aurora
Com os seres que antes havia,
Que minha alma não veria,
Deixasse-os eu transcorrer
Com olhos de fantasia!
Não guarde a terra o legado
Daquilo que foi revelado
Ao meu espírito: o pensamento
Que o prendia... o encantamento...
Pois tal ânsia luminosa
Se findou, e o tempo neste mundo
Acabou com um suspiro fundo;
Pouco importa! Morra embora
Com uma ideia que amei outrora...
Edgar Allan Poe
(Boston, 19 de Janeiro de 1809 - Baltimore)

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Oh Captain! my Captain!
Walt Whitman, 1865

Ó Capitão! meu Capitão! Finda é a temível jornada,
Vencida cada tormenta, a busca foi laureada.
O porto é ali, os sinos ouvi, exulta o povo inteiro,
Com o olhar na quilha estanque do vaso ousado e austero.
Mas ó coração, coração!
O sangue mancha o navio,
No convés, meu Capitão
Vai caído, morto e frio.

Ó Capitão! meu Capitão! Ergue-te ao dobre dos sinos;
Por ti se agita o pendão e os clarins tocam teus hinos.
Por ti buquês, guirlandas... Multidões as praias lotam,
Teu nome é o que elas clamam; para ti os olhos voltam,
Capitão, querido pai,
Dormes no braço macio...
É meu sonho que ao convés
Vais caído, morto e frio.

Ah! meu Capitão não fala, foi do lábio o sopro expulso,
Meu calor meu pai não sente, já não tem vontade ou pulso.
Da nau ancorada e ilesa, a jornada é concluída.
E lá vem ela em triunfo da viagem antes temida.
Povo, exulta! Sino, dobra!
Mas meu passo é tão sombrio...
No convés meu Capitão
Vai caído, morto e frio.

WHITMAN, Walt. Folhas de Relva. São Paulo: Martin Claret, 2006.
Tradução de Luciano Alves Meira.

Imagem do filme Sociedade dos Poetas Mortos, 1989.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

E então, que quereis?... Maiakóvski



Fiz ranger as folhas de jornal

abrindo-lhes as pálpebras piscantes.

E logo

de cada fronteira distante

subiu um cheiro de pólvora

perseguindo-me até em casa.

Nestes últimos vinte anos

nada de novo há

no rugir das tempestades.

Não estamos alegres,

é certo,

mas também por que razão

haveríamos de ficar tristes?

O mar da história

é agitado.

As ameaças

e as guerras

havemos de atravessá-las,

rompê-las ao meio,

cortando-as

como uma quilha corta

as ondas.
(1927)



 Maiakóvski — Antologia Poética”, Editora Max Limonad, 1987, tradução de E. Carrera Guerra.

terça-feira, 15 de abril de 2014

domingo, 6 de abril de 2014

SONETO 35 William Shakespeare


Não chores mais o erro cometido;
Na fonte, há lodo; a rosa tem espinho;
O sol no eclipse é sol obscurecido;
Na flor também o inseto faz seu ninho;
Erram todos, eu mesmo errei já tanto,
Que te sobram razões de compensar
Com essas faltas minhas tudo quanto
Não terás tu somente a resgatar;
Os sentidos traíram-te, e meu senso
De parte adversa é mais teu defensor,
Se contra mim te excuso, e me convenço
Na batalha do ódio com o amor:
Vítima e cúmplice do criminoso,
Dou-me ao ladrão amado e amoroso.
William Shakespeare