quinta-feira, 29 de março de 2012

Poemeu - A superstição é imortal Millôr Fernandes

Quando eu era bem menino Tinha fadas no jardim No porão um monstro albino E uma bruxa bem ruim. Cada lâmpada tinha um gênio Que virava ano em milênio E, coisa bem mais perversa, Sapo em rei e vice-versa. Tinha Ciclope,Centauro, Autósito, Hidra e megera, Fênix, Grifo, Minotauro, Magia, pasmo e quimera. Mas aí surgiram no horizonte Além de Custer e seus confederados A tecnologia mastodonte Com tecnologistas bem safados Esses homens da ciência me provaram Que duendes, bruxas e omacéfalos Eram produtos imbecis de meu encéfalo. Nunca existiram e nunca existirão: uma decepção! Mas continuo inocente, acho. Ou burro, bobo, ou borracho. Pois toda noite eu vejo todo dia Tudo que é estranho, raro, ou anomalia: Padres sibilas Hidras estruturalistas Ministros gorilas Avis raras feministas Políticos de duas cabeças Unicórnios marxistas Antropólogas travessas Mactocerontes psicanalistas Cisnes pretos arquitetos Economistas sereias Democratas por decreto E beldades feias Que invadem a minha caverna E me matam de aflição Saindo da lanterna Da televisão.