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terça-feira, 24 de setembro de 2013

Dalton Trevisan


O Vestido Vermelho


Amor,
Comprei um vestido novo. (Nada como quem trabalha!)
O tecido é tão fino, parece que estou sem roupa. O mesmo vermelho que, segundo você, realça o brancor da pele e o loiro do cabelo. Ombros nus até a saboneteira, com o decote no limiar do abismo – além do qual você não aprova.
E onde está você para apreciá-lo, com teus mil beijinhos no pescoço? Eu aqui linda, só para te agradar. (Calcinha rósea rendada e sutiã meia taça, o que por ora não precisa saber.)
E você, nada? Já não me quer?
Não te emocionam as coxas mais frescas e lisas que o vestido? Já não te apetece sopesar na concha da mão o seio de biquinho ereto assim a ponta fina de uma caneta Bic? Nem te comove a lua bochechuda da minha bundinha empinada? Nada te diz a concha nacarada de quatro pétalas?
Covarde! Ingrato! Soberbo! Não sabe o que está perdendo.
Só me ver neste vestidinho faria você açular a fogosa matilha dos teus vícios mais perversos. E desmaiaria entre ais ao simples roçar do precioso tecido.
Já serpenteio o strip da Virgem Prometida ao Minotauro - e tudo mostro sem nada tirar. Requebrando no salto agulha, assim gostosa, frente e atrás, se você pedisse.
Mas não pede. Me esqueceu para sempre? Pra você já não existo?
Ai, tua mão trêmula em cada curva, já pensou? Um sobe e desce de avanços e recuos. O terceiro quirodáctilo que negaceia...e a delícia única de ouvir: Ai, putinha, de você eu quero tudo! Você deixa, meu amor? Só pra mim, você deixa? Tudo?
Daí me ponha de joelho e descerro o teu zíper com mais devoção que uma samaritana descalça. Isso mesmo: sou uma putinha pra você se servir. Em adoração, eu beijo dardejo lambo. E a-bo-ca-nho com toda a gentileza.
É o meu quindim de Tia Ló! E lambisco e mordisco tamanha doçura que já me arrepia lancinante o céu da boca.
A cabecinha entre os lábios, ao ritmo frenético da língua enlouquecida. Afinal todo o ferrão de fogo e mel, uai, a tua cimitarra do profeta inteirinha na boca - e pode não querer?
Chupo, amor, na frente do espelho, se pedir. Levanto um canto do vestido para você ver as nalgas rosáceas, ou baixo o decote para vislumbrar as duas tetinhas, também elas de joelho, suplicantes por uma carícia furtiva. Ou ainda nua e descabelada, prontinha às tuas ordens, no falo felação faço.
Será que o meu senhor já não gosta?
Nem sequer a xotinha mais te excita? Monto lépida o ginete empinado, a tua cabritinha selvagem dos montes. Toda me contorço e revoluteio dando e roubando beijo e palavrão amoroso.
Nunca mais, seu puto, me fará gozar?
Ordene, que eu obedeço. Ficar de pé no armário, portas e pernas abertas? Ou rendida me ajeitar de quatro? Me ofereço sem reserva às tuas massagens erógenas do eunuco na odalisca preferida do Sultão - e você, indiferente, nem pisca?
Quero sentir os teus beijos pelo corpo me ungindo com o mais afrodisíaco dos óleos. Quero mordida doida na bundinha em flor. Do macho a gente espera fatal! o beijinho molhado e o tabefe ardido de mão aberta.
Mas onde está você, cego e surdo, que não responde?
Sem vontade de sodomizar esta cadelinha que te ama e tanto deseja? Eis-me aqui, à mercê dos teus caprichos e delírios.
E cadê você? Nem um pio.
Me lembrei que gostoso era você me abraçar pelas costas. O corpo bem juntinho ao meu. E, abrindo passagem na longa cabeleira, o beijinho na nuca. A pressa nenhuma. A mão no seio no seio no seio. De olho fechado para sentir melhor o amasso do corpo, o beijo na nuca.
E o beijo na boca. Choradinho. O toque da língua. A língua na língua, saboreando. A língua no dente. O dente no lábio. O gosto de sangue no beijo.
E lembro que você apreciava deslizar a mão viageira coluna abaixo. Uai, na bundinha. E ali ficar acima abaixo. Por cima da roupa, por baixo da roupa. Sobre a calcinha, debaixo dela. Ai, nem quero pensar. Era suor palpitação calafrio vertigem.
Às vezes guardava amoroso a dura duridana entre as bochechas: o seu santuário, a sua bainha sob medida. Um fogaréu de prazer. Todinha em chamas. Olha aqui - na branca pele a cicatriz perene do teu ferro em brasa.
E a flor selada se abrindo entre as coxas. Mar Vermelho, onde o cajado do meu puto Moisés?
Ah, como eu me lembro. E você, a memória perdida, sequer uma recordação?
Me faz cadela, seu viado, pelo amor de Deus!
Essa litania profana da vítima e cúmplice de tuas perversões - deixa de ser pidonha, menina! - não te alvoroça o apetite? Negue, se pode, que também me quer e bem se delicia? Quem não sabe que o meu amor é tarado por uma violação? Que só pensa em enfiar, meter, arrombar o meu corpo e currar a minha alminha.
Já rejeita o prêmio por tantos perseguido e por um só alcançado? E eu, aqui aos uivos, canina, o que fiz para não merecer o teu exército com bandeiras rompendo as minhas últimas defesas?
Venha, ó meu puto. Faça mais. Sim, faça tudo! Tudinho!
Morra de orgasmo múltiplo nos meus braços.
Diga que não é a suprema graça gozar no cuzinho. Todos os suspiros e gemidos e delírios. O coração aos gritos no meu cravo violáceo despetalado.
Tem coragem de afirmar que nessa hora já não levita entre os lençóis, sai rasante pela janela, flutua sobre os telhados da Praça Tiradentes?
Feliz de mimzinha, engatada, lá vou eu - e lá vamos nós, xifópagos do amor, pisando as nuvens distraídos.
Nunca mais abraço cafuné mordida tapa amasso agarro beijo nó górdio de língua?
Deixa de ser bobo, homem!
Ao menos fala se gostou do vestido. (Sob ele, me quer de meia preta e liga roxa? Pronto! já me antecipei ao seu desejo.)
Dá um beijo na boca, poxa!
Não está vendo este seio, esta coxa, este requebro de bunda?
E uma bundinha de moça, o que é? Você me diz: A mais perfeita curva da esfera celeste!
Feita pra pegar. Pra passar a mão boba - ó delícia! ó suplício! Pra tatuar com a tua sarça ardente!
Já não sou eu, euzinha, o bastante para a tua fome?
E esta rosa de febre com a boquinha úmida que geme e grita o teu nome - você já não escuta?
Que fim levou a tua paixão de amor louco? Em que velho sapato se esconde a aranha-marrom do teu desejo?
Onde as chamas dessa luxúria que tudo incendiava à sua passagem? Que água apagou esse fogo? Que boi bebeu essa água? Que passarão colosso arrebatou esse boi?
Despida dos meus sete véus, rastejando, te ofereço na bandeja de Salomé o coração apunhalado da minha pombinha e a cabeça falante do meu amor.
Já não me quer, você? Tudo bem.
Basta que eu te olhe. Nem chego perto. Do outro lado da cama.
No deslumbrante vestidinho novo. Comprei com o meu dinheiro contado. Só pra ficar linda aos teus olhos.
E sem você, ó puto dos meus pecados - coberta de púrpura ou nua em pêlo -, pra que ser linda?
Maldito vestido vermelho.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O defunto inaugural Relato de um fantasma Aníbal Machado

a Rodrigo M. F. de Andrade Vamos subindo devagar. Quando alcançarmos o espigão, poderei saber para onde... Saber, não: desconfiar. Mas os homens não falam; apenas exalam um ou outro gemido nas rampas mais fortes. Eu não sou tão pesado assim. Pelo contrário: tantos dias exposto ao ar livre, o sol reduziu-me bastante, curtindo-me as carnes. Conheço estes caminhos. Muitas vezes, bêbado ou vencido pelo cansaço, deixei-me ficar encostado à cangalha, sobre o pedregulho do leito, enquanto o meu cachorro farejava os bichos e a mula aproveitava o capinzinho das margens. Só acordava quando trovejava lá em cima e me vinha o medo de ser arrastado pelas enxurradas; ou então quando se aproximavam esses caminhões enormes que começam a invadir a serra depois que se abriu a estrada que vira para a encosta de lá. A garoa afastou-se do vale. Não sei por que os galos ainda cantam. Chegamos ao alto onde o pé de coqueiro joga uma sombra curta para o lado das jazidas. Deve ser pouco mais de meio-dia. Tomara que o nosso rumo seja no sentido contrário ao dessa sombra. Conquanto para a minha pele seja indiferente solou chuva, prefiro a vertente de cá, onde deve ter ficado o molde irregular das patas da alimária. Os homens param. Depois se decidem: será mesmo pela estrada nova! Tal corno eu queria. O dia clareou bonito. Nunca o vira assim. Estou feliz. Circulo nele agora participo-lhe da atmosfera. Vem subindo Josefina com a criança ao colo. Eu queria dar-lhe bom-dia, mas não posso. Se ela soubesse quem vai aqui!... Passou sem desconfiar... Na ponte provisória um dos homens falseia o pé, e meu corpo rola. Vão pescá-lo mais adiante. Tive receio de que o deixassem seguir com as águas. Já começo a ser menos indiferente ao destino de minha carcaça. Ao longe — mancha de sangue na vegetação — uma bomba de gasolina. A primeira instalada nestes ermos de montanha. Depois, a estalagem. O dono grita, ao dar com os meus despojos: — Que há lá em cima que estão mandando defuntos cá para baixo? Já é o segundo!... Os homens não respondem. Desanimaram não sei por quê. Quererão largar-me ali mesmo, nalguma grota, tal como me encontraram. Se fosse antes, não me importaria. Mas já agora nasce em mim um capricho: chegar primeiro, ganhar a corrida. Eles prosseguem mais soturnos. A que distância andaria o outro? Foi um tropeiro que informou mais adiante: — Cruzei com ele há coisa de duas léguas da Igrejinha; levantei o lenço. Imagine quem era? O Antão, caçador de parasitas. Catingando já, coitado... E reconhecendo a qualidade da mercadoria que ia na rede: - Se vosmecês querem chegar na dianteira, carece andar ligeiro. A festança vai ser de arromba. Só estão esperando o material. Parece que pagam bem. Comprar defunto pra cemitério, foi coisa que nunca vi! concluiu o tropeiro soltando uma gargalhada. E depois de relancear o meu corpo embrulhado no lençol: — Óiá! o pé dele tá aparecendo!... Agora sim, compreendo por que, e sei para onde me estão carregando: fizeram cemitério nalgum lugar, mas faltou defunto para inaugurá-lo. Daí o pedido às redondezas. Que cemitério será? O dia vinha escurecendo. Os homens tinham agora pela frente uma planície animada de sapos e pirilampos. — Engulam a cachaça, disse eu, já impaciente. E toquem depressa! Minha voz não ressoa, mas produz efeito. Tanto assim que os homens empunham logo o pau da rede e me erguem aos ombros. E eu vou seguindo, o rosto voltado para a primeira estrela. Um era careca, o outro tinha bigode. Atravessaram o pântano. Se não conhecessem tão bem o caminho, ficaríamos os três atolados na lama. Quase não se falavam. — Espanta a varejeira da testa, gritei para o careca... Isto é, quis gritar. O homem sacudiu a cabeça. — Por menos de quatrocentas pratas, nós voltamos com ele, disse o de bigode. — Até trezentos, a gente fecha o negócio, responde o careca. — Vosmecê vê que ele nem tá cheirando!... Era a minha vantagem sobre o concorrente. Pelo que percebi da conversa deles, e pela marcha batida em que vínhamos, o outro devia ser alcançado na curva do Bananal, antes de o sol raiar. A esse pensamento, trocaram-me de ombro e apressaram a marcha. Surgiram na cerração as primeiras mulheres que se encaminhavam para o eito. Ao darem comigo, caíram de joelhos, persignando-se. A mais moça fez uma pergunta; a que só de longe o careca respondeu: — Foi tiro, não; morte de Deus. — Toca depressa, toca! gritava eu sem poder gritar. Receavam os homens que outros cadáveres, além do que seguia à frente, estivessem afluindo ao mesmo tempo para o Arraial Novo. Morrer, sempre se morre por estas terras abandonadas. Mas com a friagem dos últimos dias e o advento dos caminhões, contando-se bem, é fácil encontrar defunto apodrecendo pelos caminhos, ou dentro da mata. O interesse dos que me carregavam era chegar primeiro e negociar depressa os despojos: o meu, era ganhar a corrida com o colega que ia na frente. — O outro já deve estar perto, diz o de bigode. Tá largando catinga... Surge ao longe um bananal oscilando suas folhas tostadas de vento frio. Experimento certo bem-estar, como nunca na vida. Não propriamente um bem-estar comum, mas o sentimento, quase apagado em mim, quando me apanharam na grota, de que ainda vagueio e vaguearei algum tempo pelas imediações de meu corpo. Mais de quarenta anos tem esta carcaça. À frente dela vou seguindo, como a projeção de uma luz distanciada mas não excluída de sua lanterna. Que bom este passeio! Tudo tão fluido que posso perceber o que se faz e acontece na área mais próxima de meu corpo. E lá vai o tropeiro Fagundes — eu me chamava Fagundes (Fagundes?) — descendo de rede para o cemitério do Arraial Novo!... Por que, nesse arraial, tanta pressa em inaugurá-lo? Por que não esperar pelos defuntos da localidade? A vida lá é boa, eu sei. Tem aguadas, milharais, moinhos; terras férteis e homens fortes. Ninguém há de querer morrer ali, só para estrear cemitério!... — Eh, Bigode!... Eh, Careca! Depressa!... No Ribeirão das Mulatas alcançamos os outros. Vão perder a partida. Além do mais, a mercadoria que oferecem apodrece tão depressa que será capaz de ser recusada, mesmo que chegue em primeiro lugar; ao passo que meu corpo, magro e curtido, parece intacto. E os meus homens passaram silenciosos. Os do outro defunto olharam com raiva. Meus fluidos atravessaram depressa aquela área, como que fugindo ao mau cheiro... Ao avistarem o arraial que sorria ao longe, no meio do arvoredo, os dois homens suspiraram. Fui recebido por um bando de crianças em meio do latido geral dos cães. Colocaram-me num estrado que me esperava no centro da igrejinha. Correram a avisar a professora rural, enquanto os meus carregadores, à porta, discutiam o preço. Os curiosos foram chegando. Descobriram-me a cara. Era a primeira vez que viam defunto. Ante o meu dente único plantado na gengiva esbranquiçada, puseram-se a rir. A maioria eram rapazes. — Agora o cemitério vai ser cemitério mesmo, dizia um. — Lá se vai o nosso campo de futebol! suspirava outro. — Acho que não se devia recorrer a defunto de fora, opinava um terceiro. — Uma vergonha para nossa terra! Entrou um cachorro. Dentro da pequena nave ecoavam-lhe os latidos. Entrou em seguida uma velha que se ajoelhou junto de mim, impondo silêncio aos rapazes e ao cachorro. Ao se retirarem de lenço ao nariz, os moços tropeçaram na escadaria com um fardo que cheirava mal, envolto em jornais e folhas de bananeira. Era o outro. Com bastante atraso, numa carrocinha, vinha chegando o terceiro concorrente. Três defuntos ao todo. Os rapazes indignaram-se. Era a invasão do Arraial por gente podre. Revoltante, aquilo. Foram queixar-se ao Fundador: na pressa de inaugurar o cemitério as mulheres inundam o povoado de cadáveres! Um, ainda passava. Mas tantos assim!... Não acha um perigo, Fundador? Assim chamava todo mundo a esse velho robusto, três vezes casado, figura principal e dono de quase todo o povoado, que enchera de filhos e netos. — Vocês se entendam com as mulheres. Elas que inventaram esse negócio de cemitério. Eu, por mim, quando chegar a minha hora, vou morrer sozinho lá em cima, no mato, já disse. Um dos jovens entristeceu subitamente. — Não se amofine, rapaz, disse o Fundador batendo-lhe no ombro. Mandarei fazer outro campo para vocês. — Não estou pensando no campo. Me refiro aos defuntos. — Ele está fingindo, Fundador! interveio o companheiro. Está com o sentido é no campo mesmo. Não pensa noutra coisa. Eu também. Nosso clube foi desafiado, o senhor sabe. Estávamos treinando todos os dias. Agora, depois desse enterro, como é que vai ser? E com certa astúcia: — O senhor não acha que um só defunto é pouco para dar àquilo um ar de cemitério? Ainda mais um sujeito que ninguém conhece... que nem é cidadão do Arraial. — Isso mesmo, isso mesmo! ciciava eu aos ouvidos do rapaz. Mas ele não me ouvia, não me podia ouvir... — São vocês os culpados, disse o Fundador. Eu mandei abrir um cemitério, vocês fizeram um campo de futebol. — Saiu sem querer, Fundador, saiu sem querer... — Até as medidas são iguais, me disseram! Calou-se o primeiro rapaz, a fisionomia transtornada. E num impulso de paixão que lhe venceu a timidez, dirigiu-se ao velho: — Fundador, nós nunca tivemos disso aqui! Ninguém falava em morte. Todo mundo só pensava em trabalhar e viver. O senhor bem que podia salvar o nosso time. O jogo está marcado para o fim do mês. Virá gente da redondeza. Nosso clube é novo, mas a vitória é certa. Vai ser uma honra para o Arraial. Se o senhor deixar, nós damos um jeito no cadáver, adia-se a inauguração e em três semanas fazemos outro cemitério. Talvez até melhor do que este... — Agora é tarde, respondeu o Fundador. Realmente, era tarde. As velhas já me tinham lavado e agora me vestiam. Nunca me vi tão bem trajado. Larguei os trapos; enfiaram-me um casaco impreciso e negro, entre jaquetão e fraque. Fiquei um defunto bem passável. Pelo menos, limpo. A professora assumiu um ar doloroso. Vestida também de preto, a face chorosa, embora sem lágrima - era a dona do enterro. Cercavam-na outras mulheres. Conduzia-se como se fora a minha viúva. Notaram os rapazes nos modos reticentes do Fundador certa indiferença pelos preparativos do enterro. Combinaram não comparecer. Faziam mesmo trabalho surdo contra a cerimônia da inauguração. Serviam-se de dois argumentos: um, que eu não era do lugar; outro que, enchendo-se o povoado de cadáveres, uma epidemia era iminente ali. Se alguém duvidasse, fosse perguntar aos doutores da cidade vizinha. O Fundador invalidou o último argumento mandando fechar as estradas e enterrar logo os defuntos restantes. À outra razão responderam as mulheres que ninguém sabe quando o nosso dia chegará. Que destino se daria então à nossa carne? Os rapazes ouviram desconcertados. Jamais cuidaram de tal coisa. — Sim, é porque vocês são moços, não pensam nisso, insistiam as mulheres. Saibam que não é só de velhice que se morre neste mundo. Vamos pensar um pouco no futuro. Lembrem-se de que a morte anda pegada à nossa pele. E como os sinos começassem a repicar forte anunciando o meu enterro para o dia seguinte, os rapazes se retiraram desanimados. Desceram até a pracinha. Um sentimento novo amargava-lhes o coração. — Tudo perdido. Temos que mandar avisar que o jogo foi adiado. Que azar! Na conversa junto ao chafariz, circulavam uns termos até então desconhecidos no Arraial: "esquife", "féretro", "funeral" e outros, lançados pela professora. As moças não pareciam tristes. Iam perder o futebol, é verdade; em compensação, o enterro valeria a pena como festa. A primeira cerimônia pública desse gênero que se ia realizar no Arraial. Muitas ficaram em casa, preparando os vestidos. Vendo-me de preto entre círios e mulheres que rezavam ou fingiam rezar — os rapazes se impressionaram. Ecoava neles a advertência fúnebre da velha, reforçada agora pelo sino que não parava de tocar. Desistiram da campanha contra o enterro. A cancha ia mesmo virar cemitério... Eu estava de fato um defunto convincente. As crianças trepavam para espiar, e recuavam de pavor, repelidas sempre pela ponta de lança de meu dente único. No dia seguinte, o povoado acordou cedo. Fora uma noite diferente, noite em que cada um se deitara com a convicção de que eu estava presente a seu lado. Os cães ganiam a cada minuto. Ninguém punha o rosto à janela. Para todos, eu era um defunto imenso e difuso, presidindo à noite do Arraial. Na verdade, não passei um minuto sequer junto a meu corpo. Quem se incumbira disso fora a professora e uma velha. Flutuei por cima dos telhados, penetrei de mansinho nos lares. Quedei-me junto de várias criaturas, acompanhei-lhes os movimentos íntimos. Como toda essa gente é. simples, a portas fechadas! De alguns que dormitavam toquei-lhes de leve a nuca. Apenas toquei. O suficiente para apreciar-lhes o estremecimento de pavor. Ninguém me viu. Senti não poder apresentar meu vulto em forma de vapor, como no tempo em que se acreditava em fantasmas. Nem mesmo consegui apagar as lamparinas acesas por minha causa. Talvez porque meus fluidos estivessem enfraquecendo, talvez porque não tardasse a desintegração de meu corpo. Estou reduzido ao mínimo, pensei. Mas posso perfeitamente dar uma chegadinha até o cemitério, onde vão instalar-me hoje à tarde. O portão foi colocado, os muros caiados de novo. A cova está aberta. Retiraram as traves do gol. Foi pena. Aquilo tinha mesmo formato de cancha de futebol, mais que de campo-santo. Não sei como vão se arranjar agora os rapazes. O sino começa a badalar. Os cachorros põem-se a latir. Está chegando a hora. Eu me recolho aonde se acha meu cadáver para assistir ao saimento. Lá está a mesma mulher. (— Mas a senhora não me larga, professora!) Ah, se eu pudesse articular as palavras. Que olheiras as dela, que maneira suspeita de olhar para um corpo morto. Já vou sendo levado. O ambiente é festivo. Todo mundo me acompanha exceto o Fundador. Alegou que precisava cortar uns toros lá em cima, deixou Dona Maria doente e grávida na cama, sumiu-se. Não quer saber de nada com a morte; diz que não gosta de cemitério. Eu também não gosto. Principalmente nas condições em que estou sendo enterrado, com esse péssimo sino que mais parece batucada confusa e sem ritmo. Nunca ouvi tocar tão mal a finados. A população me acompanha com relativa decência. Pelo menos, faz o possível. Os rapazes compareceram, afinal. Friamente. Sob a aparência fúnebre, as senhoras escondem certo entusiasmo. Algumas quase sorrindo. Estou perto, e estou vendo. De vez em quando se lembram e simulam consternação. Consternação verdadeira, porém, reina atrás, perto da bandinha de música, onde os rapazes deploram ainda a perda do campo. Como compensação, namoram as moças. — Aqui não, diz uma. Olha o morto. — Deixa, deixa que ele te aperte, moça — insuflo aos ouvidos dela. Não te preocupes com o que vai lá na frente; aquilo é apenas um corpo abandonado, arranjo de velhas que só pensam na morte. Parece que a moça me atendeu... O préstito atravessa o portão de ferro. Meu caixão é colocado perto de seu lugar definitivo. Começo a achar aborrecido o papel a que me obrigaram. Despertar tantas idéias tristes numa aldeia tão despreocupada!... Não reclamo nenhum respeito pelo meu corpo. Será que já está descendo à sepultura? Um momento. Deixem-me voar até lá... O padre terminava as palavras em latim. Referiu-se depois ao significado da cerimônia: entregava aos futuros mortos do Arraial Novo a sua verdadeira morada; e exortava o povo "a que pensasse sempre na morte!" Quando terminou, todos olhavam para o chão e simulavam tristeza. Ouviu-se em seguida a voz bonita do vereador distrital. Disse que ali se enterrava um dos últimos tropeiros do nosso amado sertão, "raça que se extingue -ante a avançada progressista dos caminhões"; que me conhecera (onde? como? se nunca me viu, se nunca votei!) e tinha importante declaração a fazer: "Eu não era um defunto estranho ao local, nascera ali mesmo!..." Baixa demagogia... Pois se o Arraial não tinha trinta anos! Os rapazes sorriram. E resolveram, baixinho, expulsar do clube o sujeito amarelento que se prestara ao papel de coveiro. A professora avança e dá instruções. As moças me cercam e eu me surpreendo numa onda de alegria indefinida. Aura de juventude emanando delas! Que fazer de tanta primavera desaproveitada? Meus fluidos roçam-lhes o colo. Somente os fluidos. A invisível carícia arrepia-lhes a pele, enquanto a musiquinha toca uma coisa triste debaixo das árvores. Que se passou com elas que enrubesceram de repente? Algumas cruzam os braços ou tapam com o xale o busto arrepiado; outras se escondem, perturbadas, no meio do povo. Está na hora de eu ir para o fundo. Quem é que me aparece à boca do buraco? A mula com a cangalha! Ó mulinha, ainda bem que não esqueceste o antigo dono. Coitada! Meio desmanchada, como um brinquedo abandonado... Logo atrás, sorrindo com os dentes brancos, a metade do corpo comida pela sombra, quem vejo? Isabela! — Tu te lembras, pretinha, daquele banho no ribeirão? o único momento bom de minha vida. Ah! agora não posso, mulinha!... Agora não posso, Isabela! Pois vocês não vêem que estou muito ocupado, inaugurando?! Os rojões explodem, rejubilam-se as velhas. Só não conseguem chorar. E com frenesi atiram sobre o meu corpo uma chuva de pétalas. Em seguida, torrões de terra, como se me apedrejassem. Abraçam-se e despedem-se felizes. Tinham arranjado sede para os seus despojos. O portão foi fechado. E eu fiquei lá dentro, como ovo de indez. A espera dos mortos que hão de vir... Fiquei, é modo de dizer; saía sempre. A idéia de corpo sepultado sossegou a princípio os meus fluidos. Durante dias perdi a memória; alguma interrupção, talvez mergulho mais demorado no vazio. O fato é que reapareci depois. E ainda há pouco dei um giro até à pracinha. Há lá um arbusto onde gosto de ficar. Uma moça que passava perto parou de repente, assustada, olhando para mim, sem me ver. Tratei de voltar logo ao cemitério. E foi bom, pois um vira-lata, o mesmo da chegada, o que mais latiu na igreja e rosnou todo tempo no enterro, o cachorro de sempre, esgravatava com fúria o meu túmulo em direção aos ossos! E eu, pensando em seus dentes, experimentava a sensação de mal-estar análoga à que em vida se chama pavor. Afinal de contas, é mesmo ao meu corpo que pertenço; dele não devo afastar-me muito, sem risco de me dissolver para sempre. Francamente, o que não me agrada é ser o usufrutuário único deste local. Se uma só andorinha não faz verão - disseram os rapazes -, uma única sepultura não devia fazer cemitério. Deram para chegar atrasados e abatidos ao eito. Põem-se a sorrir quando encontram as velhas. Elas não compreendem, sentem-se satisfeitas com o seu cemitério. O Fundador desconfia, mas finge que não sabe. E para ter a certeza, usa um estratagema: — Para apanhar? — Que jeito! Não temos onde treinar... — Então? Ficou de pé o desafio? — Nós jogaremos assim mesmo. — Por que não falam com a professora? Ela tem a chave do portão. — Mas só abre quando vai rezar lá dentro. — Para um morto que não conhecem... acrescentou o outro. — É isso mesmo, exclama o Fundador. Inventaram a morte no Arraial Novo! As velhas, de fato, não largam o cemitério. Entram ao cair da tarde e se ajoelham. Não rezam por mim, rezam pelo futuro defunto, rezam para a morte. Há pouco, entrou a professora. Debruçada sobre a sepultura não fez senão murmurar: — José, meu José... Ora, eu não me chamo José... Esqueci meu nome, é verdade; mas sei que não era José... Razão tem o Fundador. O espírito da morte apoderou-se do Arraial. Ainda ontem senti isso quando estive pousado nos arbustos da pracinha. Todo mundo silencioso e triste, aguardando a abertura da igreja. Só não vi os rapazes. É o cemitério, pensei; é a minha presença! De alguns dias para cá, se uma parte da população se entrega aos trabalhos de rotina, a outra se ocupa em interrogar a alma. As velhas dizem que se alguma dúvida houver, é só passar a noite pelas imediações. Ouvem-se barulhos estranhos, estrupidos de correria. E se não fosse o rumor dos moinhos, todo o arraial poderia escutar. Ao saber disso, tomou-se a população de certo orgulho: já havia fantasmas no cemitério do Arraial Novo! Um defunto extranumerário, um simples tropeiro tivera a força de transformar em campo-santo uma área terraplenada, logradouro inexpressivo antes. Que todos respeitassem agora o cemitério com as almas que nele transitam!... Essas almas eram quase sempre vinte e duas, fora as que permaneciam a certa distância, olhando apenas. Escalavam o muro e, uma vez lá dentro, vestiam depressa os calções. As lavadeiras que passavam perto mal ouviam o barulho, saíam correndo. Se tivessem coragem de verificar, poderiam reconhecer vultos familiares sob o projetor da lua cheia. Eu adorava ficar ali. Acompanhava o movimento do jogo. Torcia. Metia-me no meio dos jogadores. Só faltava gritar. Não sei como ninguém dava pela minha presença. A bola saltava às vezes o muro e ia aninhar-se no capinzal de fora. Um dos jogadores cobria-se de uma capa escura e saía a buscá-la. O jogo então recomeçava forte. De repente, fora de propósito, parava. — Que houve? quem apitou? Ninguém apitara. Era eu que soprara no apito do juiz. Muitas e muitas vezes intervinha sem que ninguém soubesse, só para animar, só para mostrar que me achava ali, vendo, participando. Substituído o juiz, as marcações continuavam desencontradas. Ninguém desconfiava. Antes de raiar a madrugada, esvaziava-se o campo. Os "fantasmas" seguiam para o eito e eu ficava... Ficava... Era bem triste, à hora quente dos comentários, continuar sozinho ali. Deliciava-me só de pensar em novas noites de jogo. Às vezes os rapazes demoravam, e eu me tornava impaciente. Primeiro, atiravam a bola. Sabia então que estavam perto, preparando-se para a escalada. A bola corria até para junto de minha sepultura. Despertado do sono, eu subia depressa no muro e, sem garganta, sem voz, punha-me a chamá-los. Iniciava-se então mais uma partida animada. Evitei repetir a proeza do apito, não só porque podia afugentar os jogadores, privando-me do espetáculo, como pelo receio de submeter a uma prova infeliz a força cada vez menor de meus fluidos. As velhas já desconfiavam. Não todas. E, por certo, nenhuma, se a professora não deparasse com a minha cruz de madeira caída ao chão. Culpa dos rapazes que se esqueceram de recolocá-la quando, da última vez, fugiram do sol que raiara depressa. — Fantasma não faz isso, disse a professora, suspeitosa. Quem teria sido? As mulheres foram de novo queixar-se ao Fundador: — Isso não é comigo. Falem com D. Maria, mas depois que nascer a criança, pois a minha velha já está em dores. — Mas jogaram uma bola na cruz! É uma profanação! exclamava a professora. — Deve ter sido algum fantasma, explicava um dos rapazes. — Ou então chutaram de fora, disse outro. — O muro não deixa, insistiu uma das mulheres. — Só se foi um tiro de parábola e aqui ninguém sabe chutar assim... — O Zequinha, lembrou o coveiro, chuta suspendendo a bola. Ora, todo mundo sabe que Zequinha fugiu com a mulher do vereador. Jogava tão bem, que ela fugiu com ele... Os rapazes só contavam agora com a mediação de Dona Maria que não estava bem, depois que lhe nascera a criança. Daí por diante, nunca mais se bateu bola no cemitério. Reforçada a vigilância, meus fantasmas não apareciam. Fiquei mais triste. Agora, nem para voar até o arraial tenho força. Para nada, aliás, tenho mais forças. Já não percebo bem o que se passa atrás dos muros. A paisagem se dissolve ao meu olhar que está se apagando. Parece que ainda resta para os ouvidos um canto de lavadeira batendo roupa. Tão longe... Mas está acontecendo qualquer coisa lá na entrada. O portão se abriu todo! O povo chegando!... Ah, é a senhora?! Pois entre, a casa é sua... Eu, sozinho, já não podia responder por todo este cemitério. Estou sumindo... O espaço endureceu. Meu prazo terminou. Só vejo figuras opacas imobilizadas no gesto de chutar a bola. E essa coisa fixa, mancha final de luz remota que deve ser o Sol. Entre, Dona Maria. Sirva-se de seu cemitério...

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

MARINA COLASANTI- UM CONTO



UM LINDO CONTO DE MARINA COLASANTI.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Conto


Amor tardio
Amor perdido

Carlos Eduardo Esmerion


Numa terra distante vivia uma princesa encerrada em sua torre que assomava ao centro de uma grande floresta. Diziam que ela era uma feiticeira poderosa e que havia abandonado sua família para viver só com seus pássaros e seus lobos na floresta. Os animais a amavam, pois ela cuidava de todos eles e até as árvores lhe prestavam reverencia por que ela as protegia dos lenhadores, expulsando-os com feitiços assustadores. E por tantos anos usou seus poderes para isso que a floresta se tornou livre dos homens, pois ninguém ousava nela penetrar com medo da princesa e muitas a chamavam de bruxa.

Numa tarde um jovem pastor adentrou na floresta para buscar uma de suas ovelhas que havia se desgarrado do rebanho e logo a que ele mais prezava. A despeito de todas as coisas que já tinha ouvido sobre o lugar não temeu e seguiu em frente disposto a sair de lá só quando encontrasse a ovelha desgarrada. Ele foi longe e nada, de repente se viu rodeado por árvores altas cujas copas elevadas impediam que os raios de sol chegassem ao chão. Ficou desesperado, não conseguia achar direção e as mesmas árvores pareciam se fechar cada vez mais a sua volta. Mas de súbito ouviu uma doce voz entoando uma canção tão bela que lhe arrancou lágrimas dos olhos. Ele seguiu a voz e depois de um tempo se viu diante da torre e lá em cima vislumbrou a mais bela mulher que se podia imaginar: seus olhos brilhavam mais do que as estrelas e sua pele reluzia como o marfim precioso: Era a princesa que cantava e olhava para ele com olhos penetrantes.

- Ali esta a sua ovelha jovem pastor, pegue-a. Dei ordem para meus lobos não a machucarem e também para nada fazerem com você, pois é homem de bom coração como poucos que andam neste mundo. Pode partir se quiser, vá em paz e siga com Deus, mas se quiser também pode ficar um pouco e descansar. Não tema a chegada da noite, quando quiser um de meus pássaros te guiara para os limites da minha floresta para não se perder. - disse ela com uma voz tão meiga e delicada que convenceria até mesmo uma pedra.

- Como recusar tão bela companhia? Obrigado minha senhora, certamente ficarei. Olhando para sua beleza extrema vejo o quão mentirosos são os homens que deturpam tão alta princesa com histórias de bruxaria e coisas semelhantes. - Disse o pastor.

- Sim, sei bem o que falam de mim, meus pássaros me contam tudo. Mas não ligo, sou o que sou e tudo que faço é para defender minha floresta da ganância dos outros e da maldade das pessoas. Se todos que entrassem em meus domínios tivessem seu coração não precisaria mover um dedo para defender o que é meu. Mas, meu trabalho é duro, a anos o faço sozinha e vivo aqui isolada sem companhia pois todos me temem e ninguém me ama, salvo meus animais.

Depois dessas palavras o pastor ficou comovido e desde então ia todos os dias passar a tarde com a princesa, mas nunca entrava na sua torre apenas ficavam conversando de longe. Ela debruçada do alto da única janela que existia na construção e ele sentado numa pedra abaixo, por anos eles se encontraram todos dias e ficavam juntos até o anoitecer quando então uma coruja guiava o pastor para fora, pois todo dia os caminhos mudavam sob as árvores. Durante esse mesmo tempo o pastor foi tomado de amor pela princesa que o correspondia também e igualmente dizia que o amava e lhe prometia que ficariam juntos. Ela lhe fazia canções e jogava lenços com seu perfume. Todo encontro ela lhe enchia de esperanças e com sua magia o fazia ter sonhos onde os dois estavam juntos e se amavam em lugares belíssimos. Os anos passavam e nada de suas promessas se concretizarem, nem mesmo na torre ele podia entrar.

- Por que não posso subir até você minha amada? Se não tem escadas eu trago uma corda e escalo as paredes, deixe-me ir te abraçar e te beijar. Já faz tantos anos que nos encontramos e nunca lhe toquei, nunca lhe abracei. Meu coração dói por isso, deixe-me ir até você! - Implorava ele diariamente.

- Não! Ainda não é hora meu amado, essa torre é encantada e nenhum homem pode subir até mim enquanto perdurar esse feitiço que eu mesma coloquei para me proteger, mas todos os dias trabalho para desfazê-lo e o farei em breve, fique tranqüilo. Contudo, enquanto não o desfaço você não pode subir, se o fizer certamente morrerá.

Mas as palavras da princesa eram mentirosas por que não havia nenhum feitiço e bem prezo a sua cintura estava a chave que abria uma passagem que conduzia ao alto da torre, mas ela não lhe dava. Ao invés disso alimentava o pastor com mais e mais esperanças e os anos passavam e as coisas continuavam como sempre: ele na pedra, ela no alto da torre e os dois, mesmo depois de dez anos jamais haviam se tocado.

O coração do pastor estava já despedaçado por tudo aquilo, porém a despeito da sua imensa vontade de estar com a princesa ele a respeitava e jamais tentou ir contra a sua palavra. Porém, o desespero o atormentava, ele não mais vivia em paz com aquele amor que não se realizava, o que mais lhe machucava o peito era ter sua amada tão perto e não poder tocá-la. A princesa, mesmo diante de todo sofrimento do pobre pastor não amolecia seu coração e mantinha firme em não permitir que o pobre homem apaixonado subisse em sua torre. Ela o seduzia, enchia seu coração de esperança, mas no seu íntimo ainda não tinha vontade de realizar nenhuma delas. Por que fazia isso? Somente Deus o sabe...

Ocorreu que numa tarde o camponês não veio ao seu encontro. Era a primeira vez depois de dez anos que isso acontecia. Ela o aguardou e ele não veio. - Certamente amanhã virá, algo deve ter impedido de o fazer hoje - pensou. E veio o dia seguinte e ele também não apareceu. O terceiro e o quarto dia e nenhuma notícia. A princesa já estava apreensiva e desesperada, agora com a ausência do jovem ela teve a certeza que precisava dele, com a sua ausência ela percebeu que o amava. - Meu Deus eu o amo, sim eu o amo! Quando ele vier eu abrirei a minha porta e permitirei que entre e me abrace e me beije, pois só agora vejo que preciso disso. Eu o amo! - Disse ela cheia de alegria no coração.

No entanto os dias se seguiram e ele não veio. Depois de algum tempo um de seus pássaros trouxe a notícia de que o camponês havia sido morto pelos aldeões, pois estes acreditavam que ele havia feito pacto com ela e lhes passaram a atribuir a causa dos infortúnios que aconteciam na vila. - Eles o mataram minha senhora, por que o pobre a amava e todos diziam que era seu lacaio e que as coisas más eram obras sua e dele. Ele não virá nunca mais, nunca mais.

Ao ouvir aquilo a princesa caiu em prantos e tão grande foi a sua dor que não pode suportar. Tão grande foi seu arrependimento que seu coração deixou de bater. A torre ruiu e toda floresta morreu em seguida: as árvores secaram, os animais partiram e nenhuma planta, ou erva, ou mesmo capim, cresceu naquele lugar. Tudo se tornou árido como um deserto. À noite, os mercadores que agora cruzavam as areias sem vida daquele lugar diziam ainda poder ouvir os lamentos da princesa e seu choro: Ela não parava de repetir “ele não virá mais, nunca mais e eu o amava...”


terça-feira, 5 de maio de 2009

Conto: para quem gosta de ler


Preocupações de uma velhinha


Se o ronco de um quadrimotor rompe a calma da manhã, os olhos da velhinha se erguem assustados do canteiro de couves para o céu onde o monstro de metal passa com imponência assustadora cintilando ao sol, e de sua mão pende por um momento o velho regador de lata, que ela pousa depois lentamente no chão quando o som já se perdeu e a distância apagou o minúsculo ponto no azul; e então ela olha para os canteiros, que ela rega toda manhã e de tempos em tempos cava com a enxadinha e semeia, ela olha e tem medo, seu coração que já morreu em muitas mortes e que sempre ressuscitou com a valentia de uma planta rebelde, parece agora temer coisas jamais vistas, coisas obscuras e terríveis que lhe anunciam o ronco do avião sobre sua cabeça, as notícias que os olhos, num intervalo do crochê, vão tentando decifrar no jornal largado sobre a mesa, os ouvidos atentos recolhem das conversas.
Antero, os chineses são gente má?...
Os chineses? Por quê? São gente feito nós mesmos.
Hoje li no jornal que eles estão matando muita gente...
É guerra, Mamãe.
Guerra pra quê?
Pra quê; guerra, uai, um é inimigo do outro e quer destruir o outro.

Guerra que lembra é a do Paraguai, era menina ainda, o pai contando as histórias, umas bonitas, outras tristes – mas não parecia matarem tanta gente. Depois outra guerra, muito longe, e depois, mais perto, a guerra da Itália, quando diziam que o Jaime podia ser chamado a qualquer hora e em que o Amadeu foi, tinha até uma retrato dele vestido de soldado – mas essa guerra ficava noutras terras, a milhares de léguas de distância, e era preciso ir de navio ou avião, pois tinha o mar. Agora era esquisito, parecia que a guerra estava em toda parte (tantos nomes de lugares que ela nunca tinha ouvido falar), no mundo inteiro – e decerto de uma hora pra outra estaria ali também na cidade, no meio deles, aviões jogando bombas soldados atirando nas pessoas e as casas pegando fogo, sangue e gente morta nas ruas.

-O Brasil também está na guerra?...
O Brasil? Não.
Então como que eu li que foi um batalhão de soldados brasileiros para um lugar estrangeiro...
Onde? Ah, isso é outra coisa, Mamãe ; é guerra, mas não é o Brasil, é a ONU, um batalhão de soldados do mundo inteiro, vários países, mesmo quem não está na guerra; é para acabar com a guerra, entende?

Diz que entende e para de falar; depois ela vai pensar sozinha para ver se entendeu mesmo, mas agora não está entendendo: pois se não está na guerra então pra que mandar soldado? Mas não gosta de perguntar aos filhos, eles não gostam de explicar, dizem que é muito complicado, a senhora não entende, Mamãe. Mas tem hora que dá um comichão na língua e quando vÊ já está falando:
Que que é belico?
Bélico: acento no é. Bélico é guerra, coisas de guerra.
Material bélico...
Fuzil, metralhadora, canhão, tanque, morteiro, tudo isso.
Morteiro? Uai, essa eu não tinha ouvido falar não, é arma também? Como ela é?
A senhora anda curiosa hem Mamãe; pra que que a senhora quer saber? È arma de matar, destruir; é um cano, a gente joga a bomba dentro e o cano joga a bomba pra longe e ela explode, morteiro é isso.

Tomou uma chamada, bem feito, quem mandou ficar perguntando? Sabe que eles não gostam de explicar, já tomou várias chamadas e não aprende; mas é que dá um comichão e quando vê – ainda bem que tem hora que segura e não fala: melhor deixar para quando estiver sozinha no quarto, de noite, no escuro, antes de deitar; aí vai pensando devagarinho e repetindo o que leu ou falaram pra ela: mas quanto mais pensa, mais fica tudo embaralhado na sua cabeça. Às vezes reza a Deus pedindo que Ele ajude seu entendimento, mas o que se sente é que as coisas no mundo ficaram tão complicadas que nem mesmo Deus pode mais entender direito; sente como se Ele também estivesse numa confusão e num medo igual a ela, aquele medo que agora estava dia e noite com ela: era como se de uma hora para outra uma coisa terrível fosse acontecer e acabar com tudo o que havia de bom na terra. De manhã, ao acordar, lembrava-se de sua hortinha, suas couves, alfaces, tomates, cebolas, moranguinhos: estariam lá ainda, no mesmo lugar, do mesmo jeito, ou encontraria apenas um montão de cinzas cheio de braços e pernas gente, cabeças, orelhas, olhos esbugalhados, como vira no sonho?
Ontem, Cidinho, o netinho maior, na hora que ela estava aguando, entrou na horta com um estranho objeto na mão, uma arma que ele falou o nome mas ela não entendeu e que bastava puxar o gatilho que ela e a horta desapareceriam na mesma hora; ele falou que ia puxar ; ela pediu pelo amor de Deus que não fizesse isso; ele puxou e então houve um estalo, mas nada aconteceu, e ele ficou rindo dela e dizendo “Vovó boba, Vovó boba”, e depois saiu de afasta continuando a rir dela e a dar tiros. Ela ficou parada entre dois canteiros, o coração ainda batendo forte do susto, as pernas trêmulas, e ao olhar para as suas couves, verdinhas e viçosas, começou a chorar - era boba mesmo era boba.


Luiz Vilela. Para gostar de ler. Volume 8. São Paulo: Ática,1983. Pp. 73, 74, 75 e 76.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Solfieri/texto de Álvares de Azevedo, autor ultraromântico


Álvares de Azevedo

Solfieri

...Yet one kiss on your pale clay
And those lips once so warm - my heart! My heart.
Byron, Cain..

Sabeis-lo. Roma é a cidade do fanatismo e da perdição: na alcova do sacerdote dorme a gosto a amásia; no leito da vendida se pendura o crucifixo lívido. É um requintar de gozo blasfemo que mescla o sacrilégio à convulsão do amor, o beijo lascivo à embriaguez da crença

Era em Roma. Uma noite, a lua ia bela como vai ela no verão por aquele céu morno. O fresco das águas se exalava como um suspiro do leito do Tibre. A noite ia bela. Eu passeava a sós pela ponte de ***. As luzes se apagaram uma por uma nos palácios, as ruas se faziam ermas e a lua de sonolenta, se escondia no leito das nuvens. Uma sombra de mulher apareceu numa janela solitária e escura. Era uma forma branca. - A face daquela mulher era como de uma estátua pálida à lua. Pelas faces dela, como gotas de uma taça caída, rolavam fios de lágrimas.

Eu me encostei à aresta de um palácio. A visão desapareceu no escuro da janela... e daí um canto se derramava. Não era só uma voz melodiosa: havia naquele cantar um como choro de frenesi, um como gemer de insânia: aquela voz era sombria como a do vento à noite nos cemitérios cantando a nênia das flores murchas da morte.

Depois, o canto calou-se. A mulher apareceu na porta. Parecia espreitar se havia alguém nas ruas. Não viu ninguém: saiu. Eu segui-a.

A noite ia cada vez mais alta: a lua sumira-se no céu e a chuva caía às gotas pesadas: apenas eu sentia nas faces caírem grossas lágrimas de água, como sobre um túmulo prantos do órfão.

Andamos longo tempo pelo labirinto das ruas: enfim, ela parou; estávamos num campo.

Aqui, ali, além, eram cruzes que se erguiam entre o ervaçal. Ela ajoelhou-se. Parecia soluçar: em torno dela passavam as aves da noite.

Não sei se adormeci: sei, apenas, que quando amanheceu achei-me a sós no cemitério. Contudo, a criatura pálida não fora uma ilusão: as urzes, as cicutas do campo-santo estavam quebradas junto a uma cruz.

O frio da noite, aquele sono dormido à chuva, causaram-me uma febre. No meu delírio passava e repassava aquela brancura de mulher, gemiam aqueles soluços e todo aquele devaneio se perdia num canto suavíssimo...

Um ano depois voltei a Roma. Nos beijos das mulheres, nada me saciava; no sono da saciedade me vinha aquela visão...

Uma noite e após uma orgia, eu deixara dormida no leito a bela condessa Barbora. Dei um último olhar àquela forma nua e adormecida com a febre nas faces e a lascívia nos lábios úmidos, gemendo ainda nos sonhos como na agonia voluptuosa do amor. Saí. Não sei se a noite era límpida ou negra; sei apenas que a cabeça me escaldava de embriaguez. As taças tinham ficado vazias na mesa: aos lábios daquela criatura eu bebera até à última gota do vinho do deleite...

Quando dei acordo de mim, estava num lugar escuro: as estrelas passavam seus raios brancos entre as vidraças de um templo. As luzes de quatro círios batiam num caixão entreaberto. Abri-o. Era o de uma moça. Aquele branco da mortalha, as grinaldas da morte na fronte dela, naquela tez lívida e embaçada, o vidrento dos olhos mal-apertados... Era uma defunta! E aqueles traços todos me lembraram uma idéia perdida... Era o anjo do cemitério! Cerrei as portas da igreja que, ignoro porque, eu achara abertas. Tomei o cadáver nos meus braços para fora do caixão. Pesava como chumbo...

Sabeis a história de Maria Stuart degolada e do algoz, "do cadáver sem cabeça e do homem sem coração", como a conta Brantôme? - Foi uma idéia singular, a que eu tive. Tomei-a no colo. Preguei-lhe mil beijos nos lábios. Ela era bela assim. Rasguei-lhe o sudário, despi-lhe o véu e a capela, como o noivo os despe à noiva. Era mesmo uma estátua: tão branca era ela. A luz dos tocheiros dava-lhe aquela palidez de âmbar que lustra os mármores antigos. O gozo foi fervoroso - cevei-lhe em perdição aquela vigília. A madrugada passava já frouxa nas janelas. Àquele calor de meu peito, à febre de meus lábios, à convulsão de meu amor, a donzela pálida parecia reanimar-se. Súbito, abriu os olhos empanados. Luz sombria alumiou-os como a de uma estrela entre névoa, apertou-me em seus braços, um suspiro ondeou-lhe nos beiços azulados... Não era já a morte: era um desmaio. No aperto daquele abraço havia, contudo, alguma coisa de horrível. O leito de lajes, onde eu passara uma hora de embriaguez, me resfriava. Pude, a custo, soltar-me naquele aperto do peito dela... Nesse instante, ela acordou...

Nunca ouvistes falar de catalepsia? É um pesadelo horrível aquele que gira ao acordado que emparedam num sepulcro; sonho gelado em que sentem-se os membros tolhidos e as faces banhadas de lágrimas alheias, sem poder revelar a vida!

A moça revivia a pouco e pouco. Ao acordar, desmaiara. Embucei-me na capa e tomei-a nos braços coberta com seu sudário, como uma criança. Ao aproximar-me da porta, topei num corpo. Abaixei-me e olhei: era algum coveiro do cemitério da igreja, que aí dormira de ébrio, esquecido de fechar a porta...

Saí. Ao passar a praça encontrei uma patrulha.

- Que levas aí?

A noite era muito alta: talvez me cressem um ladrão.

- É minha mulher, que vai desmaiada...

- Uma mulher? Mas, essa roupa branca e longa? Serás, acaso, roubador de cadáveres?

Um guarda aproximou-se. Tocou-lhe a fronte: era fria.

- É uma defunta

Cheguei meus lábios aos dela. Senti um bafejo morno. - Era a vida, ainda.

- Vede - disse eu.

O guarda chegou-lhe os lábios: os beiços ásperos roçaram pelos da moça. Se eu sentisse o estalar de um beijo... o punhal já estava nu em minhas mãos frias...

- Boa-noite, moço. Podes seguir - disse ele.

Caminhei. - Estava cansado. Custava a carregar o meu fardo e eu sentia que a moça ia despertar. Temeroso de que ouvissem-na gritar e acudissem, corri com mais esforço...

Quando eu passei a porta, ela acordou. O primeiro som que lhe saiu da boca foi um grito de medo...

Mal eu fechara a porta, bateram nela. Era um bando de libertinos, meus companheiros, que voltavam da orgia. Reclamaram que abrisse.

Fechei a moça no meu quarto e abri.

Meia hora depois eu os deixava na sala, bebendo ainda. A turvação da embriaguez fez que não notassem a minha ausência.

Quando entrei no quarto da moça, vi-a erguida. Ria de um rir convulso, como a insânia, e frio como a folha de uma espada. Trespassava de dor ouvi-la.

Dois dias e duas noites levou ela de febre, assim.

Não houve sanar-lhe aquele delírio, nem o rir do frenesi. Morreu depois de duas noites e dois dias de delírio.

À noite, saí. Fui ter com um estatuário que trabalhava perfeitamente em cera e paguei-lhe uma estátua dessa virgem.

Quando o escultor saiu, levantei os tijolos de mármore do meu quarto e, com as mãos, cavei aí um túmulo. Tomei-a, então, pela última vez nos braços, apertei-a a meu peito, muda e fria, beijei-a e cobri-a, adormecida no sono eterno, com o lençol de seu leito. Fechei-a no seu túmulo e estendi meu leito sobre ele,

Um ano, - noite a noite - dormi sobre as lajes que a cobriam... Um dia, o estatuário me trouxe a sua obra. Paguei-lha e paguei o segredo...

- Não te lembras, Bertram, de uma forma branca de mulher que entreviste pelo véu do meu cortinado? Não te lembras que eu te disse que era uma virgem que dormia?

- E quem era essa mulher, Solfieri?

- Quem era? Seu nome?

- Quem se importa com uma palavra quando sente

que o vinho queima assaz os lábios? Quem pergunta o nome da prostituta com quem dormiu e sentiu morrer a seus beijos, quando nem há dele mister por escrever-lho na lousa?

Solfieri encheu uma taça e bebeu-a. Ia erguer-se da mesa, quando um dos convivas tomou-o pelo braço.

- Solfieri, não é um conto, isso tudo?

- Pelo inferno, que não! Por meu pai, que era conde e bandido! Por minha mãe que era a bela Messalina das ruas! Pela perdição que não! Desde que eu próprio calquei aquela mulher com meus pés na sua cova de terra, eu vo-lo juro! - guardei-lhe como amuleto a capela de defunta. Ei-la!

Abriu a camisa e viram-lhe ao pescoço uma grinalda de flores mirradas.

- Vedes-la? Murcha e seca, como o crânio dela.

Extraído de Biblio.com.br