domingo, 24 de junho de 2012

O japonês dos olhos redondos Zulmira Ribeiro Tavares



Meu amigo e informante almoça comigo aos domingos em minha casa.
Ele é desquitado, não tem filhos, eu, um solteirão. Ele vive de rendas, poucas, eu sou tradutor, tenho algumas economias além da casa própria.
Nada nos aflige em particular; nem a velhice um dia - já passamos os
quarenta, somos contemporâneos, a data exata de nosso nascimento vai mais
por conta da imaginação do que dos fatos; com isso mostro-me francamente
otimista, não acho que estamos nos saindo assim tão mal; fazemos o nosso
cooper na pista do parque Ibirapuera nas manhãs de domingo e depois do
chuveiro nos premiamos com um bom almoço comprado no restaurante da
rua de trás; a que sai da avenida larga, aquela avenida extensa onde um dia
existiu apenas o leito para as águas sujas do córrego do Sapateiro.
Digo que meu amigo além de amigo é informante porque é ele que aos
domingos reapresenta o mundo e as coisas para mim. Não que eu não tenha
idéias. Como não? E muitas! Mas ele, por assim dizer, é quem anuncia
primeiro, ele que primeiro assinala, descreve, interpreta. Eu me resguardo.
Quase sempre me calo. Mas quando a discordância é muita, respondo. Em
suma: ele que me informa verdadeiramente sobre as coisas, eu simplesmente
reajo. O que tenho e o que sei são em princípio para o meu uso. Deixo que
as impressões se acumulem, deixo que desçam fundo e formem um depósito.
É o meu amigo que faz nascer, por oposição, o meu mundo desse depósito,
tudo: uma espécie de vórtice ao contrário que se pusesse em movimento por
efeito de alguma palavra sua e, em margens circulares cada vez mais amplas,
fosse largando sucessivamente: minha casa, o bairro, suas ruas, enfim as
idéias, as cidades, fortificações concêntricas, perfeitamente estruturadas
que
ninguém diria pudessem brotar da natureza até certo ponto amorfa como
vem a ser a dos depósitos. Sendo esse o caso, eu dependendo da sua
informação para colocar a minha, tenho-me na conta e acertadamente, de
seu contra-informante. Não deve causar espécie a idéia de eu procurar definir
nossas manifestações recíprocas de amizade como atos de informação e
contra-informação. Afinal somos, como todos em quem esbarramos andando
por aí mais ou menos de pé, os transeuntes da contra-revolução de 64
(que meu amigo insiste em chamar de revolução).
Veios desgarrados e insubmissos do córrego do Sapateiro ou de algum
outro que eu nunca soube, fizeram - ajudados pelos aguaceiros de verão -
o seu trabalho de sapa no subsolo do meu terreno. Metade do muro da frente
desabou. Contratei dois pedreiros que amanhã tornam a erguê-lo, talvez
mova um processo contra a Prefeitura por perdas e danos, mas hoje:
Uma paisagem nova abre-se para mim e meu amigo. Defronte, a casa
do tintureiro torna-se próxima e animada. O tintureiro, coisa que nunca me
ocorreu, também não trabalha ao domingos. Anda de lá para cá na sua
propriedade, ergue-se, senta-se, almoça, cuida da sua cerca-viva de azaléias.
Sorri, cumprimenta:
Meu amigo, duríssimo e preciso, informa-me no ato:
- Dissimulado como todos os japoneses. Reparou no sorriso?
Calo-me como é de meu feitio.
- Reparou no sorriso?
De início acho mais prudente responder-lhe com outra pergunta para
ver se o distraio das vertentes sem volta onde usualmente sua retórica
imbatível o lança. Arrisco:
- Que sorriso?
- Pergunta estapafúrdia! E grosseira se me permite a franqueza! De
quem havia de ser o sorriso? O seu? Não gastaria um perdigoto para
descrevê-lo! O do muro caído? Sorriem os muros por acaso? E ainda que
assim fosse, teria esse muro em especial, razões particulares para sorrir?
Permaneço razoavelmente calmo. Mastigo minha lasanha, bebo um
gole do tinto, brinco com o guardanapo. Ouso mesmo a barbaridade do
lugar-comum:
- Parece que vai chover. Meu informante lambe o dedo indicador e o espeta para fora da janela
na mornidão do dia para ver de que lado vem o vento; não vem de nenhum.
Na casa defronte observa-o o vizinho tintureiro, o sorriso aumenta, quase
um riso. Meu amigo recolhe o dedo sobressaltado; volta à carga:
- Você tem ainda o desplante de me perguntar que sorriso?
Faz calor na sala, acho-me antecipadamente cansado e concedo:
- Suponho que queira se referir ao tintureiro meu vizinho, não?
- Japonês!
Sinto-me no direito de manifestar meu espanto jogando o guardanapo
com força sobre a mesa. Meu amigo o ignora e volta à carga:
- Reparou no sorriso? Se não reparou há pouco tem oportunidade
agora pois o dissimulado continua de boca aberta!
Apesar de ser impossível ao vizinho pegar o conteúdo das palavras de
meu informante, eu, como forma de compensação, cumprimento-o várias
vezes, aceno-lhe, agito aflitivamente o guardanapo como se fosse uma
bandeirinha de sinaleiro.
- Vai em frente, vai em frente - provoca meu amigo. - Só falta
você se jogar pela janela e ir lhe lamber os pés! Inocente útil! E se fosse
um
espião?
- Um espião!? - Confundo-me, interrompo-me, vejo que me deixei
apanhar numa armadilha. É preciso voltar atrás. Retomar o fio. Afasto o copo
de vinho, procuro ficar lúcido como um filamento aceso, falo escandindo as
sílabas:
- Meu caro, o que o leva a supor que estamos diante de um tintureiro
japonês?
Meu amigo e informante responde limpidament , os olhos postos no
outro lado da rua:
- Reparou na natureza do sorriso?
- Muito franco, muito aberto, se quer saber. Particularmente amigável.
- Perfeitamente, aí reside a completa dissimulação; aí também começa
a pista. Meu Deus, meu Deus! Você é mesmo um simples de coração! Um
sorriso dissimulado que se mostrasse francamente dissimulado, o seria? hein?
Sua lógica perfeita mantém minha boca fechada.
- Um sorriso dissimuladamente franco, por sua vez, teria alguma coisa
a ver com esse caso? Não, claro, porque um sorriso dessa espécie nada mais
é que o de um caráter franco que por pudor se oculta, disfarça por timidez
suas manifestações mais sinceras, está me seguindo?
Aprovo com a cabeça e tomo mais vinho.
- Agora, o que me diz de um sorriso francamente franco? Hum?
Aliso a toalha da mesa e me permito regurgitar de forma audível para
mostrar que não apenas estou na minha casa como estou muito à vontade na
minha casa. Mas meu amigo encontra-se surdo para tudo que não diga
respeito à sua cerrada argumentação; continua:
- É na manifestação absoluta de franqueza, no sorriso inteiramente
aberto sem qualquer hesitação que igualmente se manifesta a máxima
dissimulação é lógico! Sendo assim,
Irritado no limite da cólera eu o interrompo:
- Muito bem! E aonde está querendo chegar?
Meu amigo pede calma; repete a lasanha, está seguro como em raros
domingos eu o vi e particularmente satisfeito:
- Meu caro, não estou querendo chegar porque já cheguei. O sorriso
perfeitamente franco desse seu vizinho tintureiro naturalmente não faz mais
do que exprimir a capacidade para a perfeita dissimulação, própria da raça!
- Que raça?
- Recomeçamos como no caso do sorriso? Que raça, que raça!
Amarela, amarela! Japonesa, japonesa! Preciso ficar aqui repetindo como um disco quebrado? Amarela! Amarela! Japonesa! Japonesa!
Respiro fundo, enxugo o suor da testa com a ponta do guardanapo, um
gesto que reconheço desagradável e que nunca pensei fazer diante de
terceiros. Meu amigo desvia os olhos de mim com uma ponta de repugnância
em uma dessas manifestações espontâneas de rejeição pelo outro que mesmo
a maior amizade não consegue sempre ocultar. Pergunto, novamente destacando
as sílabas:
- O que o leva a supor que tenha diante dos olhos, ali defronte, um
cidadão japonês?
- Ora, ora! Não bastasse o sorriso, a profissão!
- E por que os tintureiros teriam que ser necessariamente japoneses?
- Meu caro, não necessariamente. Mas veja, sem querer chamá-lo de
ignorante, suponho que você conheça algo sobre imigração japonesa, as
diversas profissões ocupadas no Estado de S. Paulo no meio urbano depois
que os descendentes dos primeiros japoneses, deixando a lavoura...
- Basta!
- Pois bem, basta. Não pensei em ofendê-lo. Mas quando se junta a
essa característica ocupacional típica, outra característica também típica,
étnica ou cultural, como queira, o sorriso dissimulado, o que mais precisa
para formar um juízo?
Sinto que a minha jugular lateja. Nunca pensei até o dia de hoje na
minha jugular, nunca pensei em nomeá-la, tenho até dúvidas se é a jugular
mesmo, mas algo no meu pescoço pula de forma insistente como se fosse a
qualquer momento escapar do estojo da pele, minhas palavras se atropelam,
afasto o copo de vinho, digo respirando fundo:
- Se outros sinais não lhe foram suficientes, tenho o prazer aqui agora
de lhe afirmar que ali defronte acha-se um tintureiro brasileiro! Um tintureiro
brasileiro, nem mais nem menos!
- Um nisei, quer você dizer?
- Não, não é um nisei o que eu quero dizer. Trata-se de um tintureiro
brasileiro, brasileiro! Cujo pai porém, além de não ter sido um japonês,
também não foi um português! Ou africano, ou italiano!
- Ah, ah, e como então se chama esse senhor "brasileiro"? - Meu
amigo aspeia a palavra no ar com grande habilidade cênica.
- Marcus Czestochowska! não sei se pronuncio certo, o que não vem
ao caso.
- E como vem! Divina Providência! Czestochowska, Kurosawa! O
que quer mais?
- Como o que quero?
- Então, não conhece o diretor japonês de cinema, Akira Kurosawa?
Não percebe que se trata de nomes gêmeos, com o mesmo peso sonoro,
provindos do mesmo chão?
Estou farto e não o escondo:
- Não seja imbecil, é um nome polonês, aliás o nome de uma cidade
da Polônia. Nunca ouviu falar de Matka Boska Czestochowska, analfabeto?
É a Virgem Maria, é uma imagem da Virgem Maria que existe pendurada
numa igreja em Czestochowska! Provavelmente a idéia de adotar o nome da
cidade como nome de família vem de algum ascendente mais remoto que
simples pais ou avós, arrastado, quem sabe, por irresistível surto de
nacionalismo
exaltado ou catolicismo triunfalista, que sei eu?
Meu amigo balança a cabeça penalizado por mim e por meu empenho.
Não serão questiúnculas, ciscos como esses que o irão demover quando algo
verdadeiramente grande se acha à sua frente. Não ele! Enumera em voz alta
contando nos dedos:
- O sorriso, a profissão, a geminação sonora, três dados. Como não
bastassem, o quarto e que arrasta e confirma os outros três: a ocultação da nacionalidade (com ou sem adulteração de documentos o que aqui é
irrelevante). Oh, meu Deus, se fosse no tempo da guerra quando o Brasil
declarou guerra ao Eixo eu simplesmente denunciaria e mandaria prender
esse japonês!
mas as suponho coloridas, são varejeiras, mil, as asas irisadas, batem
na parte interna do crânio, as asas como mica ao sol, cintilam, fracionam-se
em mil outras, enchem-se a cabeça de som, cascalho e loucura. Agarro-me
aos fiapos de razão que sobram, procuro manter-me à tona, contra-argumento:
- Espere que o homem se vire para nós, olhe, vem vindo para mexer
de novo na cerca, aproveite agora que está bem de frente; observe: que cor
tem o seu rost ? é amarelo? pálido? negro?
Meu informante retruca sem medo:
- Rosado, não o nego. E não teria por quê.
Ganho forças paulatinamente, continuo:
- Bem, agora preste muita atenção. E os seus olhos, serão oblíquos?
amendoados? puxados? entrefechados?
Meu amigo dá um pequeno salto e sufoca um grito que me parece de
exultação e que talvez pela proximidade do assunto me lembra muito o sinal
de luta dos samurais como sempre vejo no cinema. Ele investe:
- Era por aqui que você queria me pegar? Oh, meu Deus mas a que
primarismo chegamos! Para você então o real é o imediatamente dado,
suponho? Na sua idade!
Não quero saber de conversa fiada; insisto:
- Seus olhos, seus olhos, responda-me!
- Com prazer, com muito prazer! Redondos, REDONDOS!
As moscas varejeiras retornam pelos ouvidos nas palavras de meu amigo,
entram e dançam dentro da cabeça. Mas eu quase mecanicamente vou em
frente:
-A cor?
Meu amigo informa-me com a segurança e a alegria de um colorista
nato:
- Azuis, azuis! Você duvida? Olhe lá em frente!
Do outro lado da rua, no jardim da casa oposta, os olhos de meu querido
vizinho Marcus Czestochowska reluzem como dois faroletes celestes, cintilam
em nossa direção curiosos. Já perceberam uma movimentação ativa
demais para uma simples mesa de almoço.
Meu amigo agora fará sua preleção final:
- Você talvez veja pouco televisão, talvez a julgue um divertimento
menor, um veículo plebeu. É pena. Se a visse com regularidade como eu,
talvez soubesse que durante muito tempo teve enorme sucesso aqui no país
um seriado japonês, um desenho animado em episódios chamado "Taro
Kid". Pois bem, o herói desse seriado japonês tinha que tipo de olhos?
Puxados, por acaso? Redondos, absolutamente redondos! Mesmo hoje se
você ligar a televisão para ver desenho japonês não vai ver coisa diferente.
Mas o "Taro Kid" é que chamou primeiro atenção para o fato, por isso eu
cito. Se você além disso deixasse essa inércia, descolasse o traseiro aí de
Vila
Nova e fosse dar uma volta pela Liberdade, veria muitos outros desenhos
japoneses onde os heróis sempre, com raríssimas exceções, têm os olhos?
- Absolutamente redondos - respondo com um fio de voz.
- Você em sua cegueira dirá que isso acontece por motivos de
aculturação, exportação, etc. etc. Invocará (pois passei a conhecê-lo bem de
64 para cá) mil fatores heterogêneos, indústria, capital, alteridade,
interculturalidade,
com a maior sem-cerimônia. E botará esse equipamento todo em
cena, para quê? Para complicá-la. E tudo isso com que finalidade? Recusar
mais uma vez teimosamente, - A perfeita dissimulação!
- Própria da raça!
-Amarela!
Mas meu amigo ainda não terminou:
- E a coisa não fica só ao nível da imagem cinematográfica, não senhor,
irradia-se para o humano, lá chega, penetra a carne, o conteúdo mesmo dessa
imagem de cinema! Você naturalmente (ou pelo menos assim espero) já leu
alguma coisa sobre imigração japonesa nos Estados Unidos?
- Não tive a oportunidade.
- É pena, é pena. Pois bem, informo-lhe; não irá perder a informação,
não por mim. A coisa é a seguinte: mesmo sem nenhum casamento misto,
sem nenhum fator de miscigenação, alguns traços físicos desses imigrantes
começam a mudar, inicialmente constatou-se a alteração na altura média,
devida provavelmente à alimentação diversa, ao clima etc. Agora ouça.
Acho-me imóvel com a cabeça ligeiramente estendida para meu amigo
de forma que o sol quente da tarde se abate sobre minhas orelhas, elas ardem
fundo como duas línguas de fogo, duas labaredas apertando-me o crânio,
para todos os efeitos sou mesmo "todo ouvidos".
- Ouça -, insiste mais uma vez meu amigo, não satisfeito com minha
docilidade acesa e visível. - Ouça, ouça que tudo é ganho. Você (e não se
é cientista, mesmo de domingo aqui como eu, se não se tem muito de
imaginação criadora, se não se lança um grão de audácia dentro do rigor
lógico!), você já pensou a que níveis extensos de dissimulação, a apropriação
e controle dessa possibilidade de modificação dos caracteres físicos pode
chegar? A miscigenação, e que seria à primeira vista a dissimulação mais
evidente, fácil e completa, é bem outra coisa, na verdade a nega e por isso
deve ser posta de lado nessa ordem de raciocínio. Pois no caso da miscigenação,
a desaparição de características raciais se irá dar não por sua ocultação
- o que aqui nos interessa - mas pela sua "confusão", pela sua "imersão"
ou "solubilidade" em contato com outros genes, seria portanto na verdade
a extinção da própria dissimulação, marca distintiva do biótipo em pauta
(-e nessa altura meu informante faz uma pequena pausa, dá uma piscadela
e aponta de forma significativa com o queixo, a casa defronte -). Já pensou
como o controle e desenvolvimento dessa possibilidade de alteração física
sem cruzamento vem a ser tão mais grave exatamente na medida em que
ocorre por assim dizer, na superfície, permanece externa, manipula o
fisionômico
para fazê-lo funcionar como cortina de fumaça? Permita-me a
veleidade agora de passar de cientista a poeta! Pense, ao pensar nessa espécie
de disfarce, na natureza dissimulada dos biombos, dos gestos rituais para o
preparo de um cachimbo de ópio (resvalei para os chineses, não importa),
nas engenhosas silenciosas portas (ou paredes!) corrediças de papel de arroz
(volto aos japoneses com sua arquitetura escancaradamente dissimulada) , em
suma: pense em tudo isso e pense mais; pense em como irão funcionar essas
possibilidades ainda em aberto: como uma máscara de infinitos recursos
onde por trás se há de esconder sempre, em quaisquer circunstâncias...
Completo porque não há mesmo outra coisa a fazer:
- O japonês, o amarelo, o oriental.
- Isso - reforça satisfeito meu informante e encerra a preleção com
uma exortação carinhosa:
- Assim, não se deixe perturbar pelo fato dos olhinhos de seu vizinho
serem azuis, muito menos se abale com o fato de serem redondos! Indo por
essa ordem de raciocínio, por que haveria de espantá-lo a circunstância de
estarem tais olhos embutidos numa face rosada e provavelmente (daqui de longe não posso afirmar com segurança) pintalgada de sardas? e (veja que a
nada temo, que nada evito em minha descrição), circundada por cabelos
vermelhos encaracolados e, vou mais longe, vou mais longe, tudo isso
sustentado por uma coluna vertebral e mais duas pernas que, somadas,
totalizam um conjunto de pelo menos metro e noventa e lá vai pedrada? E
se eu nada temo, por que iria você se perturbar? Siga o meu exemplo, olhe
em frente, no sentido literal e figurado do termo porque ambos se ajustam
à situação. Olhe em frente e fique alerta: alerta sim, mas para o significado
oculto de tudo isso, a significação subjacente. Em suma, analise com isenção
e livre de paixões esse curioso espaço que proveitosamente se abre à nossa
frente para o nosso mútuo regozijo intelectual. Observe nele a rigorosa
não-coincidência entre a imagem média do japonês comum e a rica e
complicada configuração de variegadas cores que se movimenta para lá da
cerca-viva de azaléias! E garanto que se você estiver descansado e livre de
preconceito, se o tinto não lhe tiver subido à cabeça, saberá sem dúvida chegar
à conclusão correta.
Uma pausa se dependura no ar parado como bicho preguiça. Migalhas
de pão e salpicos de molho e vinho sujaram a toalha. Meu amigo e informante
não teme a interrupção de nossa amizade. É antiga como o bairro, tem seus
hábitos, seus desacordos que sempre voltam, alguns mais profundos e
definitivos do que esse, como a estória da contra-revolução à qual meu
parceiro de mesa sempre tira o aposto com a teatralidade de quem desembainha
a espada e separa de golpe uma cabeça do tronco. Ele sem dúvida foi
talhado para as situações absolutas e o que irá permanecer é a sua lógica de
ferro, sua lógica fechada de algemas, perfeita como a circunferência do olho
azul que distingo entre uma azaléia e outra, saltando espantado no puro
amarelo do verão.
Disse que minha qualidade de contra-informante nascia e se desenvolvia a partir
da informação, prestada pelo meu companheiro de almoço de
domingo. Isso é verdade. Todavia não disse que ultrapassada a primeira fase,
do diálogo audível, a outra desenvolve-se sempre resistente mas invisível.
Minha contra-informação como o subsolo de meu terreno tem um tipo de
porosidade que a permite se mover perpetuamente e mover aquilo que
sustenta. O bairro, o município e o mundo, as fortificações em que me apóio
vogam docemente, talvez não resistam, mas disso eu gosto. Isso é a razão.
Isso é comigo. Me abro reflexivamente sem forças, cedo porque minha
formação é como essa terra preta do bairro, não presta, não edificará cidades
ou códigos.
Não ficará.

sábado, 23 de junho de 2012

A nova dimensão do escritor Jeffrey Curtam Marina Colasanti



Quando o coágulo de sangue explodiu na cabeça de Jeffrey Curtam, algo
nele foi cortado, como uma mangueira ou um caule. E o seu pensamento
viu-se subitamente decepado do corpo.
Sem espanto, porque a dor lancinante não teve sequer o tempo de
traduzir-se em grito antes que aquela estranha guilhotina o truncasse na boca.
Passado isso, nada mais havia a não ser a nova dimensão.
- O Dr. Jewett acha que não há esperança - repetia a enfermeira em
voz baixa, aos eventuais visitantes. - O Sr. Curtam poderá viver
indefinidamente, mas não tornará a ver. Nem se mexerá, nem pensará. Apenas
respirará.
De fato, Jeffrey respirava. Os pulmões, egoisticamente alheios à situação
do restante do corpo, continuavam exercendo sua tarefa com a mesma
fiel regularidade com que durante tantos anos lhe haviam fornecido aquele
ar indispensável para que se levantasse a cada manhã, e a cada manhã se
barbeasse dando a partida para mais um dia, que haveria de catapultá-lo da
mesa de refeições para a mesa de trabalho, diante da máquina de escrever e
dos contos que produzia para alimentar o próprio corpo, e com ele os
próprios pulmões encarregados de fornecer aquele ar indispensável para.
Jeffrey teria ficado orgulhoso dos seus pulmões, se apenas se desse conta
de que funcionavam, ou sequer de que os tinha. Mas, apesar do corpo de
Jeffrey continuar possuindo pulmões e outros órgãos em perfeito estado
de
funcionamento, seu cérebro os desconhecia e comportava-se como se deles
não necessitasse. Assim como não necessitava da visão ou da audição.
Cortadas as ligações que o haviam ancorado ao resto do corpo, o cérebro
de Jeffrey Curtam não dava mais ordens. E os médicos, enganados pelo
silêncio dessa voz de comando, haviam decretado sua morte, entretanto,
emparedado na caixa craniana cujos orifícios a ruptura havia vedado com
sangue espesso como chumbo, o cérebro pensava.
Talvez fosse mais correto dizer que luzia. Pois nada do que havia vivido
até então se assemelhava à luz límpida e pura por ele agora gerada na óssea
escuridão da sua caverna. Jeffrey Curtam havia-se livrado para sempre da
escravidão da coerência. Sua mente, solta, tudo se permitia, tudo realizava.
Aos poucos, a camada de pintura branca que cobria a casa de Jeffrey
entrou em entendimento definitivo com o sol e com a chuva, fundindo sua
obediência a ambos numa única tonalidade cinzenta, que somente sob as
calhas permitia-se escurecer. Começou a descascar. Enormes escamas
quebradiças abriam-se feito conchas na velha superfície, entregando a madeira
ao tempo, sem que pérola rolasse.
Crescia a grama ao redor, manchada aqui e acolá pelas lascas mais frágeis
que em constante outono desprendiam-se das paredes e caíam volteando,
enquanto na imobilidade do corpo de Jeffrey, outro movimento se processava.
Vinda dos pés - ou seria da nuca? - a paralisia que já lhe havia tomado
os membros rastejava por dentro, buscando alcançar-lhe o coração.
Na cidadezinha, todos se referiam a ele como se já estivesse morto.
E todas as manhãs, sua mulher o barbeava e lavava, mudando-o, ela
mesma, da cama para a cadeira e da cadeira para a cama, falando-lhe como
se fala a um cão amigo, embora sem ter sequer a esperança da resposta ou
reconhecimento de que um cão é capaz. Nada lhe vinha daquele corpo, além
do hábito.
Mas Roxanne falava sem esforço, com a mesma doçura dos primeiros
dias, evitando perguntar-se se o fazia para evitar seu próprio silêncio ou
se
para preencher com suas palavras o silêncio que dele parecia emanar.
Sem que ela pudesse ouvir, por trás dos cabelos ralos e quase brancos,
por trás da pele apergaminhada, por trás da espessa barreira dos ossos, um
silêncio cheio de sons e palavras tecia sua sinfonia no cérebro de Jeffrey.
Nunca mais ele havia precisado se expressar de forma audível ou legível.
Nunca mais ele havia pensado para outros. Pensando só para si, seguia o fio
sinuoso e inquebrável dos seus desejos, deixando-se escorrer por ele como
em água, sem saltos ou fraturas. A fabulação, que havia sido sua forma de
viver, tornava-se sua vida. E ali deitado, imóvel, Jeffrey criava e costurava,
uma após a outra, as imagens da longa narrativa.
Um neurologista - fama convocada para validar o que vários outros
já haviam afirmado - tentou convencer Roxanne de que era inútil dispensar
tamanho cuidado ao enfermo. "Se Jeffrey tivesse consciência do seu estado",
disse em voz autoritariamente piedosa, "desejaria morrer. Desejaria
libertar-se
da prisão do próprio corpo.
Mas Jeffrey não desejava morrer. Assim como não desejava livrar-se do
próprio corpo. Esse corpo que, sem movimentos, atrofiava-se aos poucos
sobre a cama, não lhe era prisão. Nem lhe fazia falta. Antes, havia sido
necessário ocupar-se dele, vigiar seus alarmas, suas dores, seus sintomas,
lutar
diariamente para atender sua fome inesgotável, protegê-lo. Antes havia sido
imperioso servi-lo, e às suas exigências. Talvez então lhe fosse mais prisão
do
que agora, quando, impedido o contato entre o pensamento e suas carnes,
eram elas que o serviam.
De alguma forma, poderia-se dizer que Jeffrey não tinha consciência
do seu estado. Mas isso, não porque estivesse impedido de percebê-lo. E sim
porque, na longa travessia na qual seu pensamento estava empenhado, o fato
de não falar ou mover-se parecia tão menor que se via excluído.
Jamais, olhando o vivo cadáver do marido, suspeitaria Roxanne da
intensa movimentação que o habitava. Sem gesto que o cansasse, Jeffrey não
dormia, seu estado era um só. E nesse estado, de absoluta entrega e absoluta
atenção, ele mudava de tempo e de país, dialogava com os vivos e agia com
os mortos, dançava como nunca havia dançado, cavalgava, respirava no
fundo da água, e voava, voava.
Longas vezes, enfastiado talvez da tanta agitação, o cérebro de Jeffrey
deixava-se ficar, girando apenas ao redor de um pensamento, envolvendo-o
nos fios prateados das suas idéias, aprumando-lhe as formas e o sentido, até
ve-lo crescer, tão intenso como se a vida não lhe tivesse sido dada ali, mas apenas explodisse naquele momento, carga milenar que desde sempre trazia
consigo. Erguiam-se então na pálida atmosfera do quarto as invisíveis torres,
e os sinos badalavam ensurdecedores no cérebro de Jeffrey. Sem que seu som
cortasse o ar pesado do cheiro de remédios.
Os anos haviam devorado o seguro de Jeffrey. Roxanne fora obrigada
a vender uma parte da terra atrás da casa, depois a abrir mão de uma faixa
de jardim à direita. Uma hipoteca tornara-se inevitável.
E no entanto, como nos primeiros dias, quando a doença se manifestara
e ainda parecia possível reverter o destino, ela continuava a amar o marido.
Amava, em verdade, aquele homem que havia antes, e que ela teimava
em sobrepor a esta pálida coisa cada dia menor e mais leve, coisa quase
humana que ainda transportava da cama para a cadeira e da cadeira para a
cama, como se carregasse um fardo ou um feto.
- Que mais posso eu fazer? - perguntava-se puxando de leve as
cortinas, não fosse o sol bater sobre o pobre rosto que, único movimento
perceptível, parecia voltar-se sempre em direção à luz.
Uma luz quente derramava-se sobre as imagens dos pensamentos de
Jeffrey, naquela tarde em que, pela primeira vez depois de tanto tempo, sentiu
que seu corpo o chamava. Desobstruíam-se os ouvidos, sons alheios aos seus
lhe chegavam como ruído de cachoeira, ou vento, ou cantoria. As placas
ósseas da sua fronte, as maçãs do seu rosto abriam-se como batentes
empurrados por dentro e o sol, com intensidade nunca antes alcançada, vinha
expulsá-lo da caverna.
O fio do pensamento de Jeffrey lançou-se para aquela luz.
Roxanne, que cochilava na cadeira ao pé da cama, acordou sobressaltada.
Estendeu a mão para tocar o marido. Não foi preciso. Antes mesmo
de olhá-lo, soube que estava sozinha na casa. Recolheu a mão ao colo,
segurou-a com a outra, e deixou-se ficar. O sol se pôs. O perfume dos lilases
pareceu enlouquecer as cigarras, o coaxar das rãs pairou sobre o peitoril da
janela.
Só então Roxanne levantou-se.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Crítica da razão pura Wander Piroli





Ouvi primeiro o ruído de cascos pisando a grama, mas continuei deitado

de bruços na esteira que havia estendido ao lado da barraca. Senti

nitidamente o cheiro acre, muito próximo. Virei-me devagar, abri os

olhos. O cavalo erguia-se interminável à minha frente. Em cima dele

havia uma espingarda apontada para mim e atrás da espingarda um

velhinho de chapéu de palha, que disse logo o seguinte:

— Filhos de uma puta.

Pois não — tentei eu, ainda entorpecido pela bebida do almoço.O velho

encaminhou o cavalo até o fogão, abaixou-se na sela e inspecionou o que

restava na lenha.

— Filhos de uma puta.

Os moirões — pensei, pondo-me de pé. E andando de costas, sem tirar os

olhos do velho, fui até a entrada da barraca e chamei pelo Dr. Fontes.

— Fale, querida — disse ele lá de dentro.

— Depressa, doutor — pedi.

— Filhos de uma puta — repetiu o velho emputecido, agora examinando a

cerca destruída.

— São os moirões — expliquei para o Dr. Fontes, que saía da barraca com

o óculos torto na cara amarrotada, os cabelos em desordem.

— Calma — ponderou Dr. Fontes.

— Filhos de uma puta — insistiu o velho de pele vermelha curtida,

ossudo.

Cainca apareceu fora da barraca, nu, com o calção na mão:

— Mas que porra é essa?

— Chega pra lá — ameaçou o velho lá de cima do cavalo.

Cainca enfiou o calção.

— Bem — disse eu — se é por causa dos moirões.

— E o senhor tem dúvida? Olha lá o que vocês fizeram com a cerca. Será

que algum filho da puta ainda tem alguma dúvida?

— Filho da puta, não senhor — disse Cainca.

— Filho da puta, sim — confirmou o velho brandindo a espingarda.

— Filho da puta é a buceta da mãe.

O velho apontou a espingarda.

— Atira não — gritei, segurando Cainca pelas costas.

— Nada de violência — propôs o Dr. Fontes, colocando-se a meio caminho

entre o velho e Cainca. — O senhor desculpe.

— Desculpar uma merda — intrometeu-se Cainca

— Cala essa boca podre, animal.

— Mas, doutor.

— Cala a boca.

— Cala a boca — disse eu também.

— Mas ele tá chamando a gente de filho da puta.

— Isso agora é secundário — disse o Dr. Fontes, tecnicamente.

— Pra mim não é.

— Sua mãe é uma santa — afiançou o Dr. Fontes. — Agora, cale-se.

Cainca acalmou-se. Soltei-o. Dr. Fontes dirigiu-se ao velho:

— Abaixe a arma, por favor.

—O quê?

— A espingarda, meu bravo. Olha — Dr. Fontes ergueu a mão forense —

quanto aos moirões.

— Não quero conversa — cortou o velho.

— E o que é que o senhor quer então? — Cainca quis saber.

— Muita calma. — Dr. Fontes repetiu o mesmo gesto amistoso. — Eu quero

dizer que retiramos os moirões, mas não vamos dar prejuízo a ninguém.

Pelo amor de Deus.

O pessoal aqui é gente boa — observei eu modestamente.

— Gente boa? — O velho fez uma careta em cima do cavalo mantendo a

espingarda firme na mão direita, enquanto a esquerda segurava a rédea

de couro.

— O senhor está vendo — entornei. — Tudo aqui é gente boa. Viemos só

dar uma pescada. E ninguém quer dar problema pra ninguém.

O velho relaxou-se um pouco, os olhos muito azuis no rosto fino e

curtido de sol. Estávamos os três à sua frente, a cinco passos do

cavalo acaboclado que assistia tudo em omisso silêncio.

— Tá certo — Cainca procurou ajudar, esforçando-se para imprimir à voz

um tom sordidamente ameno e fraudulentamente conciliador. Tiramos os

moiróes. A gente errou, mas a gente paga.

Dr. Fontes meteu rápido a mão no bolso do macacão:

— É só o senhor falar quanto é, nós pagamos, pedimos desculpa se o

senhor quiser — e pronto.

— Pagar? — rosnou o velho. — Pagar o quê?

— Os moirões, é evidente.

— Os moirões. Eu quero eles de volta.

Lá estavam os moirões, ou melhor, o resto dos moirões, metidos no fogáo

cavado na terra e de onde ainda saía uma pífia fumaça. A dez metros da

Rural, passava a cerca dividindo o campo imenso e montanhoso que se

estendia verde pelo horizonte a fora, sem uma única árvore. Nada.

— Por favor — tornou o Dr. Fontes. — É só o senhor ter a bondade de

dizer o valor dos moirões, nós pagamos.

— Quero os paus onde eles estavam — retrucou o velho. — Quero a cerca

no mesmo lugar.

Mesmo assim, Dr. Fontes tirou um maço de notas da carteira. Mas não

conseguiu sensibilizar o velho homem.

— Não quero saber de dinheiro — disse ele. — E só dar o dinheiro e está

tudo resolvido? Invadir o terreno dos outros, arrebentar cerca, é?

— Nós estamos propondo um negócio correto — argumentou o Dr. Fontes. —

Estamos propondo uma indenização. E o mesmo que refazer a cerca. E a

gente paga até a mais, por causa do aborrecimento.

O velho encostou o cano da arma no pescoço imóvel do cavalo e ficou

avaliando o Dr. Fontes com os seus enrugados olhos azuis.

— Certo? É só o senhor falar quanto é. — Dr. Fontes animou-se, exibindo

a dinheirama aberta nas mãos.

— Quero a cerca como estava — redargüiu o velho — do mesmo jeito, no

mesmo lugar.

— Puta que os bunda — disse Cainca.

— Assim é pior — observei.

— Porra, mas não tem jeito de conversar com ele.

— Deixe ficar — pedi, e depois me dirigi ao velho: — olha, o Dr. Fontes

é advogado. Ele entende dessas coisas.

— Adevogado? corrigiu o velho, medindo o Dr. Fontes, cuja elegância de

bota e macacão desbotado não endossava sua jurídica condição.

— Advogado — entusiasmei-me e dos melhores, O que ele está propondo é o

que está na lei. Se alguém dá um prejuízo tem que indenizar a outra

parte.

Esperei que o velho reagisse. Ele se inclinou um pouco para a frente.

Tive a impressão, sondando sua cara toda sulcada e curtida, que ele

agora não estava se sentindo bem. Continuei:

— Nós destruímos sua cerca sem má intenção. Agora temos que pagar, que

indenizar o senhor. Assim o assunto fica encerrado, O senhor fala é

tanto, e nós pagamos.

— Quero a minha cerca — respondeu o velho. Ao mesmo tempo em que levava

a mão à barriga murcha. Seu rosto estava começando a suar

— Pra mim este papo tá furado — disse Cainca; foi até a Rural e apanhou

a sacola que estava dependurada na porta aberta.

— Larga isso aí — ordenou o velho

— Largar, é? — Cainca enfiou a alça no pescoço.

Um momento — pediu o Dr. Fontes, e encaminhou-se para Cainca

— Cainca, você está piorando a situação.

— Desculpe, doutor, mas estou puto da vida.

— Eu sei, rapaz. Deixe a sacola aí até a gente chegar a um acordo.

— Dr. Fontes, por favor: o senhor e o Moacir conversam com ele. Eu vou

só conferir as linhas.

Cainca ajeitou a sacola, deu as costas para o velho, desceu o pequeno

barranco até alcançar a margem do Paraopeba. Começava a entardecer, e

os últimos raios de sol reverberavam na água encachoeirada. Olhei para

o Dr. Fontes e vi que tínhamos pensado a mesma coisa.

— Bem—disse ele para o velho. — Vamos dar uma pescada enquanto o senhor

decide.

— Pescada? — O velho estava tenso, com o rosto um pouco mais pálido e

molhado de suor.

— Olha— explicou o Dr. Fontes apanhando o molinete encostado à barraca.

— O que nós podemos fazer é isso: pagar a cerca. Não podemos fazer mais

nada. Queira desculpar.

Apanhei o caixotinho de minhocuçu e segui o Dr. Fontes, que já se

encaminhava para o rio.

— Pára ai— gritou o velho, com o cavalo virado em nossa direção e a

espingarda à altura do ombro.

Paramos no topo do barranco.

— O senhor não vai fazer uma bobagem — disse o Dr. Fontes.

— Pare — ordenou novamente, embora já estivéssemos parados. A

espingarda tremia em suas mãos e seu rosto estava incrivelmente

desbotado.

— Calma — Dr. Fontes ergueu a mão. — O senhor não vai atirar na gente

por causa de três pedaços de pau.

Caínca subiu o barranco e veio para o nosso lado:

— Porra, será que o velho ai querendo foder a gente?

— Fica quieto — disse eu.

—Acho que nós temos — ia dizendo o Dr. Fontes, quando vimos a

espingarda cair e, logo em seguida, o velho levantar os braços

espasmódicos altura do peito, desprender-se do cavalo, tombar de cabeça

no chão, Ficando com um dos pés agarrado no estribo.

Cainca precipitou-se para o cavalo e segurou as rédeas. Dr. Fontes

amparou o corpo do velho, que agora estava sem chapéu, enquanto eu

retirava sua botina do estribo. Dr. Fontes estendeu-o no chão, O corpo

do velho tremia e, dentro da bocarra, de dentes podres e poucos, a

língua parecia que estava dando um nó. Quietou-se em seguida, os olhos

esbugalhados.

Dr. Fontes sentiu o pulso e depois pôs o ouvido no peito do velho e

procurou escutar. Ergueu-se contrariado.

— Puta merda — disse ele.

— Por Deus — disse eu. — Tem certeza?

— Puta merda, se tenho.

— Olha de novo, doutor.

— Não há mais nada para olhar — disse o Dr. Fontes.

Cainca largou as rédeas do cavalo e foi logo juntando as nossas coisas

que andavam pelo chão.

— Sacanagem — disse o Dr. Fontes, dirigindo-se pata a barraca.

Enquanto Cainca recolhia as varas na beira do rio, ajudei o Dr. Fontes

a desmanchar a barraca e dobrar a lona. Pusemos tudo dentro da Rural.

Olhamos para o cavalo de cabeça baixa, omisso. Olhamos para o velho

esparramado no chão, com os olhos fixos no céu todo azul, sem uma única

nuvem. Olhamos em volta para ver se havia mais alguma coisa para

recolher. Estava tudo certo.

— E agora, doutor? — disse eu.

— Agora?

— O que é que vamos fazer?

— Foda-se — disse o Dr. Fontes entrando na Rural.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

O burguês e o crime Carlos Heitor Cony




O burguês

Foi durante a noite que, de repente, ele se fez a pergunta:

— Por que não?

A pergunta finalizava a série de pensamentos que haviam começado horas

antes, quando estava no teatro. Fora com a mulher assistir a uma peça

de sucesso, com artistas de sucesso, estréia recente e também de

sucesso. As duas primeiras noites haviam sido dedicadas à alta

sociedade, às classes produtoras, ao Corpo Diplomático, às autoridades

constituídas e a penetras de diferentes origens e feitios. Na altura da

terceira apresentação, ele chegara em casa e a mulher o intimara:

— É o fim, Figueiredo! Todo mundo já viu a peça, menos nós. Tem de ser

hoje.

Uma semana depois, a peça seria suspensa por falta de público, mas

naquela terceira noite ele teve de se acotovelar na entrada, discutir

com os bilheteiros e terminar sendo explorado por um cambista que lhe

vendeu duas péssimas poltronas com ágio pesado e imerecido.

Suportou, lá dentro — e estoicamente — os primeiros momentos da peça,

mas ainda em meio ao primeiro ato desanimou de procurar entender o que

se passava no palco. Era um drama complicado e palavroso, uma jovem que

tinha neurose e amantes, um analista, uma enfermeira lésbica e,

presidindo a tudo, um pai severo e asmático. Em suma: um conflito acima

de suas possibilidades e de seu interesse.

Quando ia ao cinema, sempre podia dormir quando o filme seguia um rumo

surpreendente assim. No escuro o cochilo ficava impune, a mulher nem

suspeitava. À saída, ele concordava com a opinião da mulher e

conseguiam chegar em casa sãos e salvos. Mas no teatro era difícil o

cochilo. Havia luz, e pior que a luz, havia sempre a iminência de algo

espantoso, o cenário despencar, a roupa da atriz cair, um ator ter

enfarte ou esquecer o texto, um fósforo botar fogo no pano de boca.

Tais e tantos atrativos impediam-no de dormir, mas propiciavam discreta

dormência, o pensamento solicitado ora pelo calor, ora pela peça, ora

ainda pelo pigarro de um velho na platéia, ou pelo sapato um pouco

apertado que Ema — a mulher — o obrigara a usar.

Tivera um dia calmo, calmos eram todos os seus dias. A firma, apesar do

sócio que era uma toupeira, prosperava. Saúde boa, perspectivas boas.

Não tinha motivos para pensar no futuro ou no passado. Sobravam-lhe

motivos para dormir no presente, a peça já era um motivo.

A frase, dita por alguém no palco, chamou-o de volta. Ele já contara as

pregas do lado direito da cortina que compunha o fundo do cenário, e

preparava-se, resignado, pra contar as pregas do lado esquerdo, quando

ouviu alguém falar em morte.

Não, não ameaçavam ninguém de morte. O drama do palco era existencial,

não continha mortes nem ameaças de. Fora uma frase convencional, assim

como "não devemos matar a velha de susto", ou "se a velha souber disso

pode morrer".

Matar ou morrer? Não chegava a ser uma opção, nem no palco, nem em sua

vida, mas uma série de pensamentos que tinham, ora a sua lógica, ora o

seu absurdo, e em ambos os casos, a sua conveniência. Evidente, não

pensava nunca em sua própria morte, mas sabia que havia gente que

morria e gente que matava. Os que morriam eram os doentes, os suicidas,

os atropelados, os assassinos, os passageiros de avião ou da Central do

Brasil. Os que matavam eram os criminosos, os ladrões noturnos, os

tiranos, os motoristas de ônibus.

Não era agradável pensar em morrer. Logo retirou este elemento de sua

opção e ficou apenas com o matar.

Matar o quê? Matar para quê? Na peça, falavam em matar uma velha de

susto. Ele não tinha velha nenhuma à vista. A mãe já morrera, as

parentas de velhice mais agressiva também já haviam morrido. Havia a

sogra, ainda, mas não chegava a ser uma velha, e, além do mais, era uma

excelente pessoa.

Se não adiantava matar uma velha, matar o quê?

Matar por matar, amor à arte, eis a questão. Matar para experimentar os

nervos, ou para provar a si mesmo do que era capaz. Sim, isso

justificava um crime. Mas para provar do que era capaz, não bastaria

matar — isso qualquer idiota poderia fazer. Tinha de matar e permanecer

impune — para poder se olhar no espelho e se sentir redimido,

confiante: sou um caráter!

Foi então que surgiu o problema — que seria, nos próximos dias, o seu

problema, o único problema realmente sério de sua vida — como obter o

crime perfeito? Matar o porteiro de seu edifício, por exemplo, nunca

seria um crime perfeito. Mais cedo ou mais tarde a polícia apertaria os

moradores do prédio e ele acabaria confessando. Para matar impunemente

teria de escolher um comerciário de Brás de Pina, uma funcionária

subalterna que voltasse, tarde da noite, para o Leblon.

Mas seria estúpido matar sem motivo, embora matasse perfeitamente. O

crime perfeito, sem lucro pessoal, não lhe interessava, aliás, pensando

bem, agora que o primeiro ato terminava, nenhum crime lhe interessava.

Teve coragem para o comentário.

— Uma peça muito profunda!

A mulher não concordou nem discordou. Apenas disse:

— Vamos esperar pelo resto. Acho que vai sair um escândalo!

Foi a vez de ele concordar, embora não suspeitasse que tipo de

escândalo estava prestes a estourar. Saiu para o hall circulou entre

estranhos, bebeu um gole d'água gelada, sem sede mesmo, só para passar

o tempo.

Durante o segundo ato os pensamentos seguiram outro rumo. Surgiu no

palco um pastor protestante. Surgiu também um militar reformado que era

mudo — e ele começou a pensar em como seria sua vida — e como seria ele

mesmo — se não tivesse voz.

Chegou à conclusão e ao fim da peça: poderia manter o mesmo padrão de

vida se, por acaso, ficasse sem voz. Era-lhe coisa inútil, espécie de

adorno. Para ganhar dinheiro e dormir com a mulher — a voz era

dispensável, uma responsabilidade incômoda.

Ao saírem, cumprimentou com a cabeça alguns conhecidos e fez a viagem

de volta imaginando-se mudo. Conseguiu chegar em casa sem ter

pronunciado uma só palavra — o que não era uma vantagem especial,

sempre que iam ou que voltavam de algum lugar, a mulher é quem falava,

ele apenas ouvia.

A grande oportunidade para testar a sua disciplina interior foi ao

guardar o carro na garagem. Todas as vezes tinha de pedir à mulher que

suspendesse o vidro da porta:

— Suspenda o seu vidro, Ema.
Àquela noite, engoliu em seco e esperou que a mulher saísse para, então

inclinar-se no banco, com algum esforço para sua espinha já bombardeado

por sedimentações calcáreas que prenunciavam um respeitável bico-de-

papagaio, e rodar a manivelinha até fechar o vidro.

Na cama, preparado para dormir, a palavra primeiramente, e o conceito

depois, retornaram à sua cabeça e às suas preocupações: matar. Há muito

não tinha insônia. A firma prosperava, vendia material de escritório

aos ministérios militares, era pago em dia, e não faltavam encomendas,

tanto Marinha como o Exército e a Aeronáutica — felizmente para ele e

para Pátria — gastavam mais em papel timbrado do que em pólvora.

Geralmente, caía duro em cima da cama. De quinze em quinze dias ou de

vinte em vinte dias, procurava a mulher para um amor apressado e quase

sempre incompleto da parte dela.

Quando percebeu as horas, viu que gastara a noite toda pensando. Tinha

disciplina interior feroz e eficiente. Se dormisse até as 9, estaria

salvo. Virou para o lado e antes de escorregar definitivamente no sono,

teve um pensamento também definitivo:

— "Se não fosse a polícia, eu matava!"


O crime

A firma era próspera e prosperava, apesar do sócio: um belo homem

excelente caráter, pai amantíssimo, esposo exemplar, amigo

irreprochável foi o mínimo que um orador, à beira do túmulo, disse

dele, no dia do enterro: "Colhidos pela brutalidade de tua morte, aqui

estamos, Anselmo, para prantearmos o excelente caráter, o pai

amantíssimo, o esposo exemplar, o amigo irreprochável que acabamos de

perder!".

No mesmo cemitério, à beira de outro túmulo, e mais ou menos mesma

hora, Ema foi sepultada e chorada quase que solitariamente: quatro

coveiros a sepultaram, com suas correntes e más vontades, e o marido

chorou, apesar de tudo, segundo afirmaram alguns poucos presentes que

ouviram os soluços de um enterro e o discurso do outro.

À noite, apareceram-lhe em casa alguns amigos compenetrados. Conforme

afirmaram mais tarde, foram à casa dele unicamente para que Figueiredo

"não fizesse uma besteira".

Apesar da presença dos amigos, Figueiredo conteve-se e não cometeu

besteira nenhuma. Tomou apenas um porre, como lhe convinha, e disse

obscenidades a respeito da vida e de si mesmo, chamando a vida de merda

e chamando-se a si mesmo de corno. O que ia de encontro aos pensamentos

gerais, embora os amigos protestassem, deixa disso, Figueiredo, deixa

disso!

No dia seguinte ao do enterro, apareceu mal vestido e barbado para

iniciar as providências legais das sucessões, pois sucedia ao sócio no

controle da firma e sucedia à mulher nos bens do casal que eram muitos,

o sogro lhe havia deixado apólices e casas em Vila Isabel.

Estava rico e livre agora da chatice do sócio e da chatice da mulher. E

para ficar livre dos amigos, começou a cultivar mau hálito, o que

impedia que os mais importunos se acercassem dele para dar conselhos,

principalmente quando, após o escândalo da dupla morte, revelou-se o

outro escândalo, o da fortuna que lhe chegava às mãos através de tão

rudes eventos.

Rosnavam que, se não fossem as trágicas e patentes circunstâncias, a

polícia deveria investigar melhor aquilo tudo. Mas a suspeita não tinha

consistência — apesar do ódio que Figueiredo passou a provocar pela

fortuna, pelo mau hálito, e pela liberdade que lhe chegara à vida. Ele

mesmo, com o tempo, começou a esquecer, a duvidar do passado, e um dia,

vendo no fundo do armário uma peça íntima de Ema, suspirou e sentiu

saudades. Logo se aprumou, afugentou o pensamento macabro que lhe

surgiu, e embora não houvesse ninguém à volta, disse em voz alta, como

convinha a um homem que sofrera tanto:

— "Aquela cachorra!"

Porém já cinco anos eram passados da morte da cachorra e do cachorro.

Cinco anos daquela tragédia que enlutou a família cristã, rudemente

golpeada pelo escândalo daquele pacto de morte. Cronistas sem assunto

escreveram sobre o pacto de morte tão romanticamente previsto e

executado, foram ouvidas opiniões de sociólogos, de pedagogos e de

sacerdotes sobre o caso. Cinco dias depois já ninguém falava no assunto

e cinco anos depois, só mesmo ele, e às vezes, pensava em tudo,

detalhadamente, como num passo heróico de sua vida.

Chegara àquela noite em casa, de uma viagem rápida a São Paulo, e

baqueara ao entrar em seu quarto: caídos e nus, em cima da cama, a sua

mulher e o sócio. Próximo do sócio, o copo partido, cujos resíduos

foram examinados pelo Instituto de Criminalística e cuja malignidade

foi devidamente provada.
A perícia, com a ajuda dele, reconstituiu os acontecimentos. Ele

viajara a São Paulo, voltaria na noite seguinte. Tão logo se mandou

pela estrada, Ema chamara o amante. A perícia examinou a vagina de Ema

e encontrou sinais evidentes do coito recente. O imperscrutável

aconteceu — e aqui o relatório policial foi respeitoso, ao afirmar que,

"após manterem relações de fundo sexual, os dois amantes decidiram pôr

fim à vida através de um pacto de morte que foi imediatamente

cumprido".

Anselmo preparou o veneno, Ema bebeu estoicamente, sem repugnância pela

morte ou pelo gosto de amêndoas que saía do copo. E Anselmo, logo em

seguida, ingeriu o restante. Contorceram-se pouco, e logo se

imobilizaram — e foi assim que, à noite, Figueiredo e mais tarde a

polícia os encontraram.

No 18° Distrito Policial o pacto de morte foi classificado como

"Ocorrência nº. 53.697" e arquivado após despacho do delegado-auxiliar,

cumpridas as formalidades legais e pagas as taxas do costume.


O crime e o burguês

— "Se não fosse a polícia eu matava!".

Com essa frase ele adormecera, uma semana antes da tragédia que abalou

a sociedade cristã e a sua vida. Viera do teatro e ficara pensando em

matar, mas não sabia nem como, nem a quem matar. Não tinha nenhum

problema importante na vida, tudo lhe ia bem, e essa inexistência de um

problema dava-lhe a sensação de burrice, de imprestabilidade.

Desde que pensara em matar, sentiu que iniciava uma nova vida, fugia à

rotina, à qual sempre se submetera. Era o seu problema, embora não

fosse, ainda, a sua vontade. No trabalho, em casa, andando pelas ruas,

tinha agora uma ordem fixa de pensamentos e de energias.

Certa tarde, regressando da cidade, parou no Flamengo. Entrou num

prédio, tomou o elevador, fechou os olhos e apertou um botão: qualquer

andar em que o elevador parasse, serviria. Parou no sétimo andar. Havia

duas portas à frente, apertou a campainha do 701. A velhinha veio abrir

e ele quase chegou ao crime: levou as duas mãos para a frente em

direção ao gasganete da velha. Mas deu-lhe uma tremedeira nas pernas e

ele recuou. O elevador ficara parado no andar e ele pôde fugir. Poderia

ter deixado a velha morta, ninguém teria visto nada. Mas deixou a velha

apenas surpreendida e irritada.

Passou uma noite de cão, reprovando-se a covardia. Tivera tudo à mão, a

velha, o elevador, não esbarrara com ninguém, nunca entrara naquele

prédio. A polícia procuraria pelos parentes da velha, os desafetos, os

fornecedores, as ex-empregadas, os vizinhos. Não tivera ao alcance das

mãos apenas o gasganete da velha: tivera nas mãos o crime perfeito — e

o desperdiçara, sem lucro algum.

E então tremeu, emocionado e surpreso: acabara de descobrir o crime

verdadeiramente perfeito: O LUCRO. Matar sem lucro, como no caso da

velha, seria uma brincadeira idiota. Tinha de matar com muito lucro,

com tanto lucro que ficasse óbvia a lucrabilidade do crime. E para

tornar patente essa lucrabilidade, tinha de escolher uma vítima que

fosse patentemente próxima de seus interesses. Viu a mulher dormindo a

seu lado.

— "Se mato esta mulher — a minha mulher — o primeiro e necessário

suspeito serei eu mesmo".

Riu, com a facilidade do problema. Tão fácil era o problema que

resolveu exagerar. Não mataria apenas uma pessoa, mas duas. E, na

escala de importância e de lucro, a segunda pessoa que lhe apareceu foi

o sócio, o qual hipotecara, há tempos, a parte dele, para levar a

mulher aos Estados Unidos, curar um tumor no colo do útero. Ele

emprestara o dinheiro e ficara com as hipotecas do sócio. Se matasse o

sócio, a firma ficaria inteiramente em suas mãos, era um lucro

evidente, agressivo.

Dois dias depois, avisou à mulher que ia a São Paulo, viagem rápida.

Saiu à noite, subiu em direção a Teresópolis. Deixou o carro numa rua

que lhe pareceu deserta, tomou um ônibus e antes da meia-noite estava

novamente em casa. Entrou pela garagem, como o fazia todas as noites,

mas sem o carro, e por causa disso, não teve necessidade de acordar o

garagista.

Surpreendeu a esposa:

— Uê? Você já voltou?

— Você está vendo.

Explicou que o carro enguiçara no quilômetro 97 da Rio — São Paulo,

tomara um ônibus, amanhã voltaria ao local, com um mecânico. Foram

dormir e ele procurou a mulher. Dessa vez, pela primeira vez em muitos

anos, concentrou-se no esforço de fazê-la gozar — era parte do plano.

Depois que ela estremeceu e gritou coisas indecentes — sinal que

finalmente gozara — ele conseguiu, também, um escasso prazer. Mas logo

levou a mão ao peito:

— Ema, o enfarte!

Caiu para o lado, olhos arregalados, bufando grosso. Ema deu um pulo da

cama, nua.

— Vou buscar a coramina!

— Não! Chame o Anselmo, preciso falar com ele, é urgente, mas diga a

ele para não contar a ninguém, para vir já! As hipotecas dele! Ele pode

perder tudo!

Ema foi ao telefone, acordou Anselmo:

— O Figueiredo teve um enfarte. Venha correndo, mas não diga nada a

ninguém. As hipotecas!

A mulher de Anselmo perguntou quem chamava o marido dela àquela hora da

noite, mas Anselmo, apesar de esposo exemplar e pai amantíssimo, deu um

grito:

— Vá à merda, mulher. Depois eu explico!

Ema foi à cozinha, apanhou um copo d'água. Quando voltou ao quarto,

pingando gotas de coramina no copo, encontrou o marido em pé, com um

copo na mão.

— Uê? Já ficou bom?

Figueiredo avançou para ela.

— Beba isso!

— Mas...

— Beba, sua idiota!

Era a primeira vez, em dezenove anos de casados, que se dava o nome ao

boi naquela casa. Ema apanhou o copo, sentiu um cheiro estranho. Bebeu

um gole e ainda teve tempo de perguntar:

— Para que é isso?

— É um afrodisíaco. Faz a gente gozar mais ainda.

Mas Ema não ouviu que ia gozar mais ainda. Caiu próximo à cama e

Figueiredo arrumou-a o melhor que pôde. Mais alguns minutos, foi à

porta da frente, esperar pelo sócio. Viu o elevador subir, a luzinha

crescendo, crescendo. Anselmo saiu do elevador e deu com ele na porta.

— E o enfarte?

— Entre depressa!

Anselmo não gostou. A mulher dele ia falar o resto da vida contra

aquela saída abrupta, misteriosa, ia ser o diabo explicar.

— Brincadeira tem hora! Cadê o enfarte?

Figueiredo estendeu-lhe o copo.

— Prove essa droga! Veja que gosto tem e se concorda comigo.

Anselmo provou, sentiu um gosto adocicado de amêndoas, mas não teve

tempo de concordar. Figueiredo arrastou-o ao quarto, tirou-lhe a roupa,

deitou-o ao lado de Ema, a mão estendida para fora do leito. Pegou no

copo, colocou-o na mão de Anselmo, deixou que o copo se partisse no

chão.

Apagou as luzes, deixando apenas um pequeno abajur aceso. Ganhou a rua,

atravessando a garagem do prédio, o garagista tinha sono de pedra,

quando chegava tarde, com o carro, tinha de esmurrar a campainha para

que o homem lhe abrisse a porta dos carros.

Andou pela cidade, esperando o primeiro ônibus para Teresópolis.

Deixara impressões no copo, nas roupas, em todos os lugares. Mas o

lucro era tão dele que invalidava a suspeita. Deixara atrás de si um

crime que se explicava por si mesmo.

Tomou o ônibus para Teresópolis. Com o sereno da noite, o carro ficara

melado como um bicho. Antes de ligar o motor, abriu o painel de

instrumentos e desligou o cabo do velocímetro. Desceu a serra, almoçou

um frango assado à beira da estrada, atingiu a Avenida Brasil e cortou

em direção oposta à cidade. Andou mais alguns quilômetros e pegou a Rio

— São Paulo. Enfrentou as retas iniciais, atingiu a serra mas logo fez

um contorno e embicou de volta ao Rio. Parou no posto de gasolina para

abastecer o carro.

— Tem mecânico aí?

O mulato de maus dentes surgiu das entranhas de uma camioneta.

— É o cabo do velocímetro. Acho que houve alguma coisa com ele.

Deu boa gorjeta ao mecânico e ao homem do posto que lhe enchera o

tanque,

tinha agora duas pessoas que atestariam que ele regressava de São

Paulo.

Quando arrancou, os dois homens o chamaram de doutor:

— Boa viagem, doutor!

Chegou em casa, após uma boa viagem, e viu o quadro que logo os

policiais examinaram, os jornais noticiaram e com o qual ele lucrou.


Moral

O crime, para o burguês, só não compensa quando a polícia está contra.
FONTE:http://www.releituras.com/cony_menu.asp

sexta-feira, 15 de junho de 2012

AQUELES DOIS Caio Fernando Abreu



(História de aparente mediocridade e repressão)


Para Rofran Fernandes:
"I announce adhesiveness,
I say it shall be limitless,
unloosen il.
I say you shall yet find the
friend youwere looking for."
(Walt Whitman: So Long!)

A verdade é que não havia mais ninguém em volta. Meses depois, não no começo, um deles diria que a repartição era como "um deserto de almas". O outro concordou sorrindo, orgulhoso, sabendo-se excluído. E longamente, entre cervejas, trocaram então ácidos comentários sobre as mulheres mal-amadas e vorazes, os papos de futebol, amigo secreto, lista de presente, bookmaker, bicho, endereço de cartomante, clips no relógio de ponto, vezenquando salgadinhos no fim do expediente, champanha nacional em copo de plástico. Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra — talvez por isso, quem sabe? Mas nenhum se perguntou.

Não chegaram a usar palavras como "especial", "diferente" ou qualquer coisa assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las. Não que fossem muito jovens, incultos demais ou mesmo um pouco burros. Raul tinha um ano mais que trinta; Saul, um menos. Mas as diferenças entre eles não se limitavam a esse tempo, a essas letras. Raul vinha de um casamento fracassado, três anos e nenhum filho. Saul, de um noivado tão interminável que terminara um dia, e um curso frustrado de Arquitetura. Talvez por isso, desenhava. Só rostos, com enormes olhos sem íris nem pupilas. Raul ouvia música e, às vezes, de porre, pegava o violão e cantava, principalmente velhos boleros em espanhol. E cinema, os dois gostavam.

Passaram no mesmo concurso para a mesma firma, mas não se encontraram durante os testes. Foram apresentados no primeiro dia de trabalho de cada um. Disseram prazer, Raul, prazer, Saul, depois como é mesmo o seu nome? sorrindo divertidos da coincidência. Mas discretos, porque eram novos na firma e a gente, afinal, nunca sabe onde está pisando. Tentaram afastar-se quase imediatamente, deliberando limitarem-se a um cotidiano oi, tudo bem ou, no máximo, às sextas, um cordial bom fim de semana, então. Mas desde o princípio alguma coisa — fados, astros, sinas, quem saberá? conspirava contra (ou a favor, por que não?) aqueles dois.

Suas mesas ficavam lado a lado. Nove horas diárias, com intervalo de uma para o almoço. E perdidos no meio daquilo que Raul (ou teria sido Saul?) chamaria, meses depois, exatamente de "um deserto de almas", para não sentirem tanto frio, tanta sede, ou simplesmente por serem humanos, sem querer justificá-los — ou, ao contrário, justificando-os plena e profundamente, enfim: que mais restava àqueles dois senão, pouco a pouco, se aproximarem, se conhecerem, se misturarem? Pois foi o que aconteceu. Tão lentamente que mal perceberam.

II

Eram dois moços sozinhos. Raul tinha vindo do norte, Saul tinha vindo do sul. Naquela cidade, todos vinham do norte, do sul, do centro, do leste — e com isso quero dizer que esse detalhe não os tornaria especialmente diferentes. Mas no deserto em volta, todos os outros tinham referenciais, uma mulher, um tio, uma mãe, um amante. Eles não tinham ninguém naquela cidade — de certa forma, também em nenhuma outra —, a não ser a si próprios. Diria também que não tinham nada, mas não seria inteiramente verdadeiro.

Além do violão, Raul tinha um telefone alugado, um toca-discos com rádio e um sabiá na gaiola, chamado Carlos Gardel. Saul, uma televisão colorida com imagem fantasma, cadernos de desenho, vidros de tinta nanquim e um livro com reproduções de Van Gogh. Na parede do quarto de pensão, uma outra reprodução de Van Gogh: aquele quarto com a cadeira de palhinha parecendo torta, a cama estreita, as tábuas do assoalho, colocado na parede em frente à cama. Deitado, Saul tinha às vezes a impressão de que o quadro era um espelho refletindo, quase fotograficamente, o próprio quarto, ausente apenas ele mesmo. Quase sempre, era nessas ocasiões que desenhava.

Eram dois moços bonitos também, todos achavam. As mulheres da repartição, casadas, solteiras, ficaram nervosas quando eles surgiram, tão altos e altivos, comentou, olhos arregalados, uma das secretárias. Ao contrário dos outros homens, alguns até mais jovens, nenhum tinha barriga ou aquela postura desalentada de quem carimba ou datilografa papéis oito horas por dia.

Moreno de barba forte azulando o rosto, Raul era um pouco mais definido, com sua voz de baixo profundo, tão adequada aos boleros amargos que gostava de cantar. Tinham a mesma altura, o mesmo porte, mas Saul parecia um pouco menor, mais frágil, talvez pelos cabelos claros, cheios de caracóis miúdos, olhos assustadiços, azul desmaiado. Eram bonitos juntos, diziam as moças. Um doce de olhar. Sem terem exatamente consciência disso, quando juntos os dois aprumavam ainda mais o porte e, por assim dizer, quase cintilavam, o bonito de dentro de um estimulando o bonito de fora do outro, e vice-versa. Como se houvesse entre aqueles dois, uma estranha e secreta harmonia.

III

Cruzavam-se, silenciosos mas cordiais, junto à garrafa térmica do cafezinho, comentando o tempo ou a chatice do trabalho, depois voltavam às suas mesas. Muito de vez em quando, um pedia um cigarro ao outro, e quase sempre trocavam frases como tanta vontade de parar, mas nunca tentei, ou já tentei tanto, agora desisti. Durou tempo, aquilo. E teria durado muito mais, porque serem assim fechados, quase remotos, era um jeito que traziam de longe. Do norte, do sul.

Até um dia em que Saul chegou atrasado e, respondendo a um vago que que houve, contou que tinha ficado até tarde assistindo a um velho filme na televisão. Por educação, ou cumprindo um ritual, ou apenas para que o outro não se sentisse mal chegando quase às onze, apressado, barba por fazer, Raul deteve os dedos sobre o teclado da máquina e perguntoü: que filme? Infâmia, Saul contou baixo, Audrey Hepburn, Shirley MacLayne, um filme muito antigo, ninguém conhece. Raul olhou-o devagar, e mais atento, como ninguém conhece? eu conheço e gosto muito. Abalado, convidou Saul para um café e, no que restava daquela manhã muito fria de junho, o prédio feio mais que nunca parecendo uma prisão ou uma clínica psiquiátrica, falaram sem parar sobre o filme.

Outros filmes viriam, nos dias seguintes, e tão naturalmente como se de alguma forma fosse inevitável, também vieram histórias pessoais, passados, alguns sonhos, pequenas esperança e sobretudo queixas. Daquela firma, daquela vida, daquele nó, confessaram uma tarde cinza de sexta, apertado no fundo do peito. Durante aquele fim de semana obscuramente desejaram, pela primeira vez, um em sua quitinete, outro na pensão, que o sábado e o domingo caminhassem depressa para dobrar a curva da meia-noite e novamente desaguar na manhã de segunda-feira quando, outra vez, se encontrariam para: um café. Assim foi, e contaram um que tinha bebido além da conta, outro que dormira quase o tempo todo. De muitas coisas falaram aqueles dois nessa manhã, menos da falta que sequer sabiam claramente ter sentido.

Atentas, as moças em volta providenciavam esticadas aos bares depois do expediente, gafieiras, discotecas, festinhas na casa de uma, na casa de outra. A princípio esquivos, acabaram cedendo, mas quase sempre enfiavam-se pelos cantos e sacadas para contar suas histórias intermináveis. Uma noite, Raul pegou o violão e cantou Tú Me Acostumbraste. Nessa mesma festa, Saul bebeu demais e vomitou no banheiro. No caminho até os táxis separados, Raul falou pela primeira vez no casamento desfeito. Passo incerto, Saul contou do noivado antigo. E concordaram, bêbados, que estavam ambos cansados de todas as mulheres do mundo, suas tramas complicadas, suas exigências mesquinhas. Que gostavam de estar assim, agora, sós, donos de suas próprias vidas. Embora, isso não disseram, não soubessem o que fazer com elas.

Dia seguinte, de ressaca, Saul não foi trabalhar nem telefonou. Inquieto, Raul vagou o dia inteiro pelos corredores subitamente desertos, gelados, cantando baixinho Tú Me Acostumbraste, entre inúmeros cafés e meio maço de cigarros a mais que o habitual.

IV

Os fins de semana tornaram-se tão longos que um dia, no meio de um papo qualquer, Raul deu a Saul o número de seu telefone, alguma coisa que você precisar, se ficar doente, a gente nunca sabe. Domingo depois do almoço, Saul telefonou só para saber o que o outro estava fazendo, e visitou-o, e jantaram juntos a comidinha mineira que a empregada deixara pronta sábado. Foi dessa vez que, ácidos e unidos, falaram no tal deserto, nas tais almas. Há quase seis meses se conheciam. Saul deu-se bem com Carlos Gardel, que ensaiou um canto tímido ao cair da noite. Mas quem cantou foi Raul: Perfídia,La Barca e, a pedido de Saul, outra vez, duas vezes, Tú Me Acostumbraste. Saul gostava principalmente daquele pedacinho assim sutil llegaste a mí como una tentación llenando de inquietud mi corazón. Jogaram algumas partidas de buraco e, por volta das nove, Saul se foi.

Na segunda, não trocaram uma palavra sobre o dia anterior. Mas falaram mais que nunca, e muitas vezes foram ao café. As moças em volta espiavam, às vezes cochichando sem que eles percebessem. Nessa semana, pela primeira vez almoçaram juntos na pensão de Saul, que quis subir ao quarto para mostrar os desenhos, visitas proibidas à noite, mas faltavam cinco para as duas e o relógio de ponto era implacável. Saíam e voltavam juntos, desde então, geralmente muito alegres. Pouco tempo depois, com pretexto de assistir a Vagas Estrelas da Ursa na televisão de Saul, Raul entrou escondido na pensão, uma garrafa de conhaque no bolso interno do paletó. Sentados no chão, costas apoiadas na cama estreita, quase não prestaram atenção no filme. Não paravam de falar. Cantarolando Io Che Non Vivo, Raul viu os desenhos, olhando longamente a reprodução de Van Gogh, depois perguntou como Saul conseguia viver naquele quartinho tão pequeno. Parecia sinceramente preocupado. Não é triste? perguntou. Saul sorriu forte: a gente acostuma.

Aos domingos, agora, Saul sempre telefonava. E vinha. Almoçavam ou jantavam, bebiam, fumavam, falavam o tempo todo. Enquanto Raul cantava — vezenquando El Día Que Me Quieras, vezenquando Noche de Ronda —, Saul fazia carinhos lentos na cabecinha de Carlos Gardel, pousado no seu dedo indicador. Às vezes olhavam-se. E sempre sorriam. Uma noite, porque chovia, Saul acabou dormindo no sofá. Dia seguinte, chegaram juntos à repartição, cabelos molhados do chuveiro. As moças não falaram com eles. Os funcionários barrigudos e desalentados trocaram alguns olhares que os dois não saberiam compreender, se percebessem. Mas nada perceberam, nem os olhares nem duas ou três piadas. Quando faltavam dez minutos para as seis, saíram juntos, altos e altivos, para assistir ao último filme de Jane Fonda.

V

Quando começava a primavera, Saul fez aniversário. Porque achava seu amigo muito solitário, ou por outra razão assim, Raul deu a ele a gaiola com Carlos Gardel. No começo do verão, foi a vez de Raul fazer aniversário. E porque estava sem dinheiro, porque seu amigo não tinha nada nas paredes da quitinete, Saul deu a ele a reprodução de Van Gogh. Mas entre esses dois aniversários, aconteceu alguma coisa.

No norte, quando começava dezembro, a mãe de Raul morreu e ele precisou passar uma semana fora. Desorientado, Saul vagava pelos corredores da firma esperando um telefonema que não vinha, tentando em vão concentrar-se nos despachos, processos, protocolos. Á noite, em seu quarto, ligava a televisão gastando tempo em novelas vadias ou desenhando olhos cada vez mais enormes, enquanto acariciava Carlos Gardel. Bebeu bastante, nessa semana. E teve um sonho: caminhava entre as pessoas da repartição, todas de preto, acusadoras. À exceção de Raul, todo de branco, abrindo os braços para ele. Abraçados fortemente, e tão próximos que um podia sentir o cheiro do outro. Acordou pensando mas ele é que devia estar de luto.

Raul voltou sem luto. Numa sexta de tardezinha, telefonou para a repartição pedindo a Saul que fosse vê-lo. A voz de baixo profundo parecia ainda mais baixa, mais profunda. Saul foi. Raul tinha deixado a barba crescer. Estranhamente, ao invés de parecer mais velho ou mais duro, tinha um rosto quase de menino. Beberam muito nessa noite. Raul falou longamente da mãe — eu podia ter sido mais legal com ela, disse, e não cantou. Quando Saul estava indo embora, começou a chorar. Sem saber ao certo o que fazia, Saul estendeu a mão e, quando percebeu, seus dedos tinham tocado a barba crescida de Raul. Sem tempo para compreenderem, abraçaram-se fortemente. E tão próximos que um podia sentir o cheiro do outro: o de Raul, flor murcha, gaveta fechada; o de Saul, colônia de barba, talco. Durou muito tempo. A mão de Saul tocava a barba de Raul, que passava os dedos pelos caracóis miúdos do cabelo do outro. Não diziam nada. No silêncio era possível ouvir uma torneira pingando longe. Tanto tempo durou que, quando Saul levou a mão ao cinzeiro, o cigarro era apenas uma longa cinza que ele esmagou sem compreender.

Afastaram-se, então. Raul disse qualquer coisa como eu não tenho mais ninguém no mundo, e Saul outra coisa qualquer como você tem a mim agora, e para sempre. Usavam palavras grandes — ninguém, mundo, sempre — e apertavam-se as duas mãos ao mesmo tempo, olhando-se nos olhos injetados de fumo e álcool. Embora fosse sexta e não precisassem ir à repartição na manhã seguinte, Saul despediu-se. Caminhou durante horas pelas ruas desertas, cheias apenas de gatos e putas. Em casa; acariciou Carlos Gardel até que os dois dormissem. Mas um pouco antes, sem saber por quê, começou a chorar sentindo-se só e pobre e feio e infeliz e confuso e abandonado e bêbado e triste, triste, triste. Pensou em ligar para Raul, mas não tinha fichas e era muito tarde.

Depois, chegou o Natal, o Ano-Novo que passaram juntos, recusando convites dos colegas de repartição. Raul deu a Saul uma reprodução do Nascimento de Vênus, que ele colocou na parede exatamente onde estivera o quarto de Van Gogh. Saul deu a Raul um disco chamado Os Grandes Sucessos de Dalva de Oliveira. O que mais ouviram foi Nossas Vidas, prestando atenção no pedacinho que dizia até nossos beijos parecem beijos de quem nunca amou.

Foi na noite de trinta e um, aberta a champanhe na quitinete de Raul, que Saul ergueu a taça e brindou à nossa amizade que nunca nunca vai terminar. Beberam até quase cair. Na hora de deitar, trocando a roupa no banheiro, muito bêbado, Saul falou que ia dormir nu. Raul olhou para ele e disse você tem um corpo bonito. Você também, disse Saul, e baixou os olhos. Deitaram ambos nus, um na cama atrás do guarda-roupa, outro no sofá. Quase a noite inteira, um conseguia ver a brasa acesa do cigarro do outro, furando o escuro feito um demônio de olhos incendiados. Pela manhã, Saul foi embora sem se despedir para que Raul não percebesse suas fundas olheiras.

Quando janeiro começou, quase na época de tirarem férias — e tinham planejado, juntos, quem sabe Parati, Ouro Preto, Porto Seguro — ficaram surpresos naquela manhã em que o chefe de seção os chamou, perto do meio-dia. Fazia muito calor. Suarento, o chefe foi direto ao assunto. Tinha recebido algumas cartas anônimas. Recusou-se a mostrá-las. Pálidos, ouviram expressões como "relação anormal e ostensiva", "desavergonhada aberração", "comportamento doentio", "psicologia deformada", sempre assinadas por Um Atento Guardião da Moral. Saul baixou os olhos desmaiados, mas Raul colocou-se em pé. Parecia muito alto quando, com uma das mãos apoiadas no ombro do amigo e a outra erguendo-se atrevida no ar, conseguiu ainda dizer a palavra nunca, antes que o chefe, entre coisas como a-reputação-de-nossa-firma, declarasse frio: os senhores estão despedidos.

Esvaziaram lentamente cada um a sua gaveta, a sala deserta na hora do almoço, sem se olharem nos olhos. O sol de verão escaldava o tampo de metal das mesas. Raul guardou no grande envelope pardo um par de olhos enormes, sem íris nem pupilas, presente de Saul, que guardou no seu grande envelope pardo, com algumas manchas de café, a letra de Tú Me Acostumbraste, escrita à mão por Raul numa tarde qualquer de agosto. Desceram juntos pelo elevador, em silêncio.

Mas quando saíram pela porta daquele prédio grande e antigo, parecido com uma clínica ou uma penitenciária, vistos de cima pelos colegas todos postos na janela, a camisa branca de um, a azul do outro, estavam ainda mais altos e mais altivos. Demoraram alguns minutos na frente do edifício. Depois apanharam o mesmo táxi, Raul abrindo a porta para que Saul entrasse. Ai-ai, alguém gritou da janela. Mas eles não ouviram. O táxi já tinha dobrado a esquina.

Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens no céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.
FONTE:http://www.releituras.com/caioabreu_dois.asp

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Idolatria Sérgio Faraco

Eu olhava para a estrada e tinha a impressão de que jamais na vida chegaríamos a Nhuporã. Que pedaço brabo. O camaleão se esfregava no chassi e o pai praguejava: — Caminho do diabo! Nosso Chevrolet era um trinta e oito de carroceria verde-oliva e cabina da mesma cor, só um nadinha mais escura. No pára-choque havia uma frase sobre amor de mãe e em cima da cabina uma placa onde o pai anunciava que fazia carreto na cidade, fora dela e ele garantia, de boca, que até fora do estado, pois o Chevrolet não se acanhava nas estradas desse mundo de Deus. Mas o caminho era do diabo, ele mesmo tinha dito. A pouco mais de légua de Nhuporã o caminhão derrapou, deu um solavanco e tombou de ré na valeta. O pai acelerou, a cabina estremeceu. Ouvíamos os estalos da lataria e o gemido das correntes no barro e na água, mas o caminhão não saiu do lugar. Ele deu um murro no guidom. — Puta merda. Quis abrir a porta, ela trancou no barranco. — Abre a tua. A minha também trancava e ele se arreliou: — Como é, ô Moleza! Empurrou-a com violência. — Me traz aquelas pedras. E vê se arranca um feixe de alecrim, anda. Agachou-se junto às rodas e começou a fuçar, jogando grandes porções de barro para os lados. Mal ele tirava, novas porções vinham abaixo, afogando as rodas. Com a testa molhada, escavava sem parar, suspirando, praguejando, merda isso e merda aquilo, e de vez em quando, com raiva, mostrava o punho para o caminhão. O pai era alto, forte, tinha o cabelo preto e o bigode espesso. Não era raro ele ficar mais de mês em viagem e nem assim a gente se esquecia da cara dele, por causa do nariz, chato como o de um lutador. Bastava lembrar o nariz e o resto se desenhava no pensamento. — Vamos com essas pedras! Por que falava assim comigo, tão danado? As pedras, eu as sentia dentro do peito, inamovíveis. — Não posso, estão enterradas. — Ah, Moleza. Meteu as mãos na terra e as arrancou uma a uma. Carreguei-as até o caminhão, enquanto ele se embrenhava no capinzal para pegar o alecrim. — Pai, pai, o caminhão tá afundando! A cabeça dele apareceu entre as ervas. — Não vê que é a água que tá subindo, ô pedaço de mula? E riu. Ficava bonito quando ria, os dentes bem parelhos e branquinhos. — Tá com fome? — Não. — Vem cá. Tirou do bolso uma fatia de pão. — Toma. — Não quero. — Toma logo, anda. — E tu? — Eu o quê? Come isso. Trinquei o pão endurecido. Estava bom e minha boca se encheu de saliva. — Acho que não vamos conseguir nada por hoje. De manhãzinha passa a patrola do DAER*, eles puxam a gente. Atirou a erva longe e entrou na cabina. — Ô Moleza, vamos tomar um chimarrão? Fiz que sim. Ao me aproximar, ele me jogou sua japona. — Veste isso, vai esfriar. A japona me dava nos joelhos e ele riu de novo, mostrando os dentes. — Que bela figura. A cara dele era tão boa e tão amiga que eu tinha uma vontade enorme de me atirar nos seus braços, de lhe dar um beijo. Mas receava que dissesse: como é, Moleza, tá ficando dengoso? Então agüentei firme ali no barro, com as abas da japona me batendo nas pernas, até que ele me chamou outra vez: — Como é, vens ou não? Aí eu fui. *Sigla do departamento responsável pela conservação das estradas estaduais.
FONTE:http://www.releituras.com/sfaraco_menu.asp

quarta-feira, 13 de junho de 2012

O Anti-Natal de 1951 Carlos Sussekind

No documento emitido pelo Juizado de Menores lê-se o seguinte: "Requisito-vos" (ao agente da Estação D. Pedro II, no Rio de Janeiro) "duas passagens de ida e volta em 1ª classe dessa estação até a Estação Presidente Franklin Roosevelt, em São Paulo, para o Dr. Lourenço Laurentis, Curador de Menores do Distrito Federal, e um menor, que viajam a serviço deste Juízo". Muito atencioso, o agente-ajudante que me atende na Central. Não me faz esperar. Mas, depois de carimbar a requisição, objeta-me que só amanhã poderá dar as passagens, pois o regulamento ferroviário exige antecedência de três dias, não de quatro. Adiantei-me, pois. Evito discutir, para que não surjam obstáculos futuros. A idéia de fazer essa viagem na companhia unicamente de meu filho, tendo eu me comprometido a não desviá-lo de suas leituras nem durante o percurso nem durante o dia inteiro (25 de dezembro) que passaremos em São Paulo, corresponde satisfatoriamente à nossa concepção (minha e dele) do anti-Natal. Atravessaremos a véspera natalina dentro do trem, sem desejar mal nem bem a quem quer que seja, ele lendo, eu nos meus devaneios. Dia 26 estaremos de volta. Não daremos nem receberemos presentes. O único presente tolerado é essa viagem de graça, que, a bem dizer, não é um presente, é um direito que me dá o cargo de Curador de menores. Doutor Lourenço e o filósofo Lourencinho estarão na deles, numa boa. Verifico que, se fosse de noturno, com leito de luxo, no "Santa Cruz", em cabine individual de dois passageiros, a viagem de ida e volta custaria ao Estado o triplo do preço desse trajeto feito em poltrona comum. Sairíamos do Rio às 22:30 do dia 24 e chegaríamos a São Paulo às 9 da manhã de 25. Magnífico, sem dúvida. Mas repugna à minha consciência abusar da requisição, proporcionando-nos esse luxo nababesco que ficaria documentado para sempre. Basta a fraude de dizer que eu e o Lourencinho vamos "a serviço do Juízo". Tentarei, em todo caso, combinar ida em noturno e volta em diurno, numa última homenagem ao meu escrúpulo. O abuso já não será tanto, nem deixarei de proporcionar a meu filho uma viagem repousada. Se tiver de ir e vir de diurno — o que seria a hipótese mais econômica —, a consciência ficará mais leve, mas não sei como se comportariam o fígado dele e os meus rins. Enfim, veremos. Precipitado no meu otimismo, faço, depois do jantar, uma descrição para a família toda reunida de como é o trem encantado em que viajaremos os dois. Vagões de aço inoxidável. As poltronas forradas de camurça. Giratórias. Ninguém em pé, todos acomodados, de fisionomias risonhas. A composição move-se deslizando, sem nenhuma trepidação, nenhum ruído, não entra pó, o ar que circula é como o do cinema Metro, trem de cinema, primeiro você pensa que é por causa do dia chuvoso, mas deixe chegar uma estação, abrir-se a porta e verá que é como se se abrisse uma fornalha. É a temperatura que faz lá fora. Dentro do carro, no entanto, a mesma inalterável e suavíssima ambiência! Moças e rapazes falam-se aos beijos. Quando não se beijam, cantam. Um sonho! Diante da minha expansão, Lourencinho tem o comentário desalentador de que só vai a São Paulo para me acompanhar, e que não sabe, afinal, se isso de anti-Natal funcionará mesmo. Se nem o anti-Natal o seduz, meu Deus, que se pode esperar desse rapaz? Deve ser a perspectiva da viagem fatigante. Mas não é só isso, não. Quando lhe falo no que faremos para conhecer a cidade, onde não piso desde 1920 — há mais de 30 anos, portanto —, adverte logo: — Desista disso de querer mostrar parques e avenidas e monumentos e pessoas! Iremos cada qual para seu lado. Vou buscar as passagens na estação. Outro subagente. Atencioso, como o de ontem. Entretanto, fez-me esperar 25 minutos para verificar se a assinatura era mesmo do juiz de menores, um desaforo. Conclui dizendo, amabilíssimo, que só amanhã, 22, poderá me dar os bilhetes, pois o regulamento fala em "três dias antes da viagem": sendo esta no dia 24, os três dias contam-se 22, 23 e 24. Considera 24 como sendo ao mesmo tempo o dia da viagem e a véspera! Evito discutir etc. Risadas do homenzinho quando lhe falo em "noturno" e "Santa Cruz". A requisição menciona apenas "passagem de 1ª". Sem especificar "noturno", só se pode subentender "diurno". A fim de não dificultar a interpretação favorável em São Paulo, para a volta, escreve "tarifa noturna", o que permitirá que eu cogite de noturno de lá para cá. Mas, noturno em "trem de madeira", sem leito de qualquer espécie. Nem, sequer, poltrona. A poltrona, mesmo para o diurno, tem de ser paga à parte. São 60 para a ida e outros 60 para a volta. Quer dizer que a requisição do Juízo de Menores só me deu o direito de andar dentro do trem até São Paulo e de São Paulo aqui. Custará isso ao Estado 568 cruzeiros redondos. Acho infinita graça, agora, na minha ingenuidade de falar em "escrúpulo" de pleitear coisa melhor. . . O Governo sabe com quem lida. As bandalheiras não se fazem assim, com recibo. Elas se aninham noutras dobras. Volto no dia seguinte, o guichê das passagens está se abrindo, sou o primeiro passageiro atendido. Entretanto, não posso ter os assentos que peço, na sombra. "Nós aqui desconhecemos os lugares que são no sol e os que ficam na sombra. As ordens são para destacá-los automaticamente, sem intervenção de quem quer que seja".Conformo-me. Ele lê a requisição. O outro funcionário, ao datá-la, pôs certo 21.12.1951; mas, quando se referiu ao dia da viagem, escreveu, sabe-se lá por que, 24.12.1952, equívoco palpável, evidente. Mas S. Exa. o bilheteiro do guichê nº 1 acha que deve ser retificado. Atendo-o, ainda nisto. No guichê n° 5 já está outro funcionário, diverso do "amabilíssimo" com quem falei ontem. Objeta-me que a retificação não é da sua competência, e que o funcionário que poderia fazê-la só começará a trabalhar às 4 da tarde. Não posso tolerar semelhante absurdo. Volto então ao agente substituto. Ouve-me em silêncio. Manda chamar o bilheteiro. Fala-lhe. E se volta para mim, austeramente: — O funcionário tem razão. Ele não pode retificar um erro que não cometeu. Mas o senhor, também, não vai pagar pelo que se fez sem sua culpa. Atenda-o, portanto, Sr. Freitas. Se o algarismo puder ser modificado, modifique-o. Se não puder, extraia outro passe. E dá-me as costas. O algarismo não pôde ser modificado. Depois de ajustar pachorrentamente os carbonos e de "experimentar" noutro papel, de rascunho, Freitas pega solenemente o lápis, calca-o, descobre o carbono e diz: — Não deu certo. — Espero, pois, 15 minutos para que ele extraia novo passe. Seria justo que minha odisséia terminasse aí. Mas não terminou. Vou para o bilheteiro do guichê n° 1. Examina os novos passes, pede-me a carteira funcional e me diz secamente: 60 cruzeiros pelas duas poltronas. Dou-lhe o dinheiro, mas pergunto: — Que é que essas poltronas têm de mais? Ele não demora na resposta: — Nada. — Então por que se paga à parte? Se eu não pagasse, iria em pé? O homem ajusta os óculos ao nariz, fita-me serenamente, reflete no que vai dizer. Responde-me: — Iria. Quer dizer: um funcionário, viajando a serviço do Estado, tendo sua passagem requisitada pelo Juízo de Menores, em nome do Ministro da Justiça, não tem direito sequer a viajar sentado nas 11 horas do percurso. Mas ainda há mais. Pergunto, delicadamente, ao ditador que tenho pela frente, se as poltronas 37 e 38 do carro "B" ficam, ou não, na sombra. Com uma irritação mal disfarçada em calma "superior", responde-me: — Meu caro senhor, quer um conselho? Peça a Deus que sejam na sombra, porque só Ele pode decidir. Ali a justiça divina já está feita de antemão. Qualquer dos lugares é igual nos benefícios e nas desvantagens. Em 11 horas de viagem, de 7:25 às 18:25, quem tiver sol pela manhã não o terá mais à tarde, e quem, pela manhã, gozar da sombra, escaldará com o sol de depois do meio-dia. Rimo-nos, ambos, para descarregar os nervos, evidentemente tensos, tensíssimos. Desejo-lhe Feliz Natal com toda a sinceridade. Posso respirar, enfim. As providências que tinha de tomar para garantir nosso anti-Natal, meu e do meu filho, já estão tomadas. FONTE:http://www.releituras.com/csussekind_menu.asp

quarta-feira, 6 de junho de 2012

BALEIA – Graciliano Ramos

A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pêlo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida. Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de roscas, semelhante a uma cauda de cascavel. Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o sacatrapo e fez tenção de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito. Sinhá Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta: - Vão bulir com a Baleia? Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano afligiam-nos, davam-lhes a suspeita de que Baleia corria perigo. Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se diferençavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameaçava cobrir o chiqueiro das cabras. Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas Sinhá Vitória levou-os para a cama de varas, deitou-os e esforçou-se por tapar-lhes os ouvidos: prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e espalmou as mãos nas orelhas do segundo. Como os pequenos resistissem, aperreou-se e tratou de subjugá-los, resmungando com energia. Fia também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia. Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma, as pancadas surdas da vareta na bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia. Os meninos começaram a gritar e a espernear. E como Sinhá Vitória tinha relaxado os músculos, deixou escapar o mais taludo e soltou uma praga: - Capeta excomungado. Na luta que travou para segurar de novo o filho rebelde, zangou-se de verdade. Safadinho. Atirou um cocorote ao crânio enrolado na coberta vermelha e na saia de ramagens. Pouco a pouco a cólera diminuiu, e Sinhá Vitória, embalando as crianças, enjoou-se da cadela achacada, gargarejou muxoxos e nomes feios. Bicho nojento, babão. Inconveniência deixar cachorro doido solto em casa. Mas compreendia que estava sendo severa demais, achava difícil Baleia endoidecer e lamentava que o marido não houvesse esperado mais um dia para ver se realmente a execução era indispensável. Nesse momento Fabiano andava no copiar, batendo castanholas com os dedos. Sinhá Vitória encolheu o pescoço e tentou encostar os ombros às orelhas. Como isso era impossível, levantou os braços e, sem largar o filho, conseguiu ocultar um pedaço da cabeça. Fabiano percorreu o alpendre, olhando a baraúna e as porteiras, açulando um cão invisível contra animais invisíveis: - Ecô! ecô! Em seguida entrou na sala, atravessou o corredor e chegou à janela baixa da cozinha. Examinou o terreiro, viu Baleia coçando-se a esfregar as peladuras no pé de turco, levou a espingarda ao rosto. A cachorra espiou o dono desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando, até ficar no outro lado da árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido com esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca do curral, deteve-se no mourão do canto e levou de novo a arma ao rosto. Como o animal estivesse de frente e não apresentasse bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar às catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga alcançou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de Baleia, que se pôs a latir desesperadamente. Ouvindo o tiro e os latidos, Sinhá Vitória pegou-se à Virgem Maria e os meninos rolaram na cama, chorando alto. Fabiano recolheu-se. E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho da esquerda, passou rente aos craveiros e às panelas de losna, meteu-se por um buraco da cerca e ganhou o pátio, correndo em três pés. Dirigiu-se ao copiar, mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das cabras. Demorou-se aí um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino, aos pulos. Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo. Quis recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve medo da roda. Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um deles havia uma barroca macia e funda. Gostava de espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava as moscas e os mosquitos, e quando se levantava, tinha folhas secas e gravetos colados às feridas, era um bicho diferente dos outros. Caiu antes de alcançar essa cova arredada. Tentou erguer-se, endireitou a cabeça e estirou as pernas dianteiras, mas o resto do corpo ficou deitado de banda. Nesta posição torcida, mexeu-se a custo, ralando as patas, cravando as unhas no chão, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal esmoreceu e aquietou-se junto às pedras onde os meninos jogavam cobras mortas. Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente não latia: uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo, tornavam-se quase imperceptíveis. Como o sol a encandeasse, conseguiu adiantar-se umas polegadas e escondeu-se numa nesga de sombra que ladeava a pedra. Olhou-se de novo, aflita. Que lhe estaria acontecendo? O nevoeiro engrossava e aproximava-se. Sentiu o cheiro bom dos preás que desciam do morro, mas o cheiro vinha fraco e havia nele partículas de outros viventes. Parecia que o morro se tinha distanciado muito. Arregaçou o focinho, aspirou o ar lentamente, com vontade de subir a ladeira e perseguir os preás, que pulavam e corriam em liberdade. Começou a arquejar penosamente, fingindo ladrar. Passou a língua pelos beiços torrados e não experimentou nenhum prazer. O olfato cada vez mais se embotava: certamente os preás tinham fugido. Esqueceu-os e de novo lhe veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos meio vidrados, com um objeto esquisito na mão. Não conhecia o objeto, mas pôs-se a tremer, convencida de que ele encerrava surpresas desagradáveis. Fez um esforço para desviar-se daquilo e encolher o rabo. Cerrou as pálpebras pesadas e julgou que o rabo estava encolhido. Não poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa camarinha, sob a cama de varas, e consumira a existência em submissão, ladrando para juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas. O objeto desconhecido continuava a ameaçá-la. Conteve a respiração, cobriu os dentes, espiou o inimigo por baixo das pestanas caídas. Ficou assim algum tempo, depois sossegou. Fabiano e a coisa perigosa tinham-se sumido. Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escuridão, com certeza o sol desaparecera. Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do chiqueiro espalhou-se pela vizinhança. Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A obrigação dela era levantar- se, conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procurando distinguir os meninos. Estranhou a ausência deles. Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia não atribuía a esse desastre a impotência em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades. Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar as cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar as moitas afastadas. Felizmente os meninos dormiam na esteira, por baixo do caritó onde Sinhá Vitória guardava o cachimbo. Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio completo, nenhum sinal de vida nos arredores. O galo velho não cantava no poleiro, nem Fabiano roncava na cama de varas. Estes sons não interessavam Baleia, mas quando o galo batia as asas e Fabiano se virava, emanações familiares revelavam-lhe a presença deles. Agora parecia que a fazenda se tinha despovoado. Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a língua pendente e insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto, e a viagem difícil do barreiro ao fim do pátio desvaneciam-se no seu espírito. Provavelmente estava na cozinha, entre as pedras que serviam de trempe. Antes de se deitar, Sinhá Vitória retirava dali os carvões e a cinza, varria com um molho de vassourinha o chão queimado, e aquilo ficava um bom lugar para cachorro descansar. O calor afugentava as pulgas, a terra se amaciava. E, findos os cochilos, numerosos preás corriam e saltavam, um formigueiro de preás invadia a cozinha. A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do peito para trás era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava, espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela doença. Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente Sinhá Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo. Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes. FONTE:http://mscamp.wordpress.com/2009/02/17/baleia-graciliano-ramos/

terça-feira, 5 de junho de 2012

DOIS CORPOS QUE CAEM – João Silvério Trevisan

Por simples acaso, dois desconhecidos encontraram-se despencando juntos do alto do Edifício Itália, no centro de São Paulo. - Oi – disse o primeiro, no alvoroçado início da queda. – Eu me chamo João. E você? - Antônio – gritou o segundo, perfurando furiosamente o espaço. E, só pra matar o tempo do mergulho, começaram a conversar. - O que você faz aqui? – perguntou Antônio. - Estou me matando – respondeu João. – E você? - Que coincidência! Eu também. Espero que desta vez dê certo, porque é minha décima tentativa. anos venho tentando. Mas tem sempre um amigo, um desconhecido e até bombeiro que impede. Você afinal está se matando por quê? - Por amor – respondeu João, sentindo o vento frio no rosto. – Eu, que amava tanto, fui trocado por um homem de olhos azuis. Infelizmente só tenho estes corriqueiros olhos castanhos… - E não lhe parece insensato destruir a vida por algo tão efêmero como o amor? – ponderou Antônio, sentindo a zoada que o acompanhava à morte. - Justamente. Trata-se de uma vingança da insensatez contra a lógica - gritou João num tom quase triunfante. – Em geral é a vida que destrói o amor. Desta vez, decidi que o amor acertaria contas com a vida! - Poxa – exclamou Antônio – você fez do amor uma panacéia! - Antes fosse – replicou João, com um suspiro. – Duvidoso como é, o amor me provocou dores horríveis. Nunca se sabe se o que chamamos amor é desamparo, solidão doentia ou desejo incontrolável de dominação. O que na verdade me seduz é que o amor destrói certezas com a mesma incomparável transparência com que o caos significante enfrenta a insignificância da ordem. Não, o amor não é solução para a vida. Mas é culminância. Morrer por ele me trouxe paz. Ante o vertiginoso discurso, ambos tentaram sorrir contra a gravidade. - E você, como se sente? – perguntou João a Antônio. - Oh, agora estou plenamente satisfeito. - Então por que busca a morte? - Bom – respondeu Antônio – me assustou descobrir um fiasco primordial: que a razão tem demônios que a própria razão desconhece. Daí, preferi mergulhar de vez no mistério. - Sim, da razão conheço demasiados horrores. Mas que mistério é esse tão importante a ponto de merecer sua vida? - Não sei – respondeu Antônio. – Mistério é mistério. - Mas morto você não desvendará o mistério! – protestou João. - Por isso mesmo. O fundamental no mistério é aguçar contradições, e não desvendar. Matar-me, por exemplo, é bom na medida que me torna parte do enigma e, de certo modo, o agudiza. Tem a ver com a fé, que gera energias para a vida. Ou para a história, quem sabe… - Taí um negócio que perdi: a fé. Deus para mim… – e João engasgou. - Ora – revidou Antônio vivamente. – A fé nada tem a ver com Deus, que se reduziu a uma pobre estrela anã de energias tão concentradas que já nem sai do lugar. Deus desistiu de entender os homems, e virou também indagador. Sem Deus nem Razão, a única fé possível é mergulhar neste abismo do mistério total. - Mas para isso é preciso ao menos saber onde está o mistério – insistiu João com os cabelos drapejando ao vento. - Ué, o mistério está em mim, por exemplo, que me mato para coincidir comigo mesmo. Mas há mistério também em você: seu morrer de amor é o mais impossível ato de fé. Graças a ele, você participa do mistério. Porque se apaixonou pelos abismos. João olhou com olhos estatelados, ao compreender. E Antônio, que já faiscava na semi-realidade da vertigem, gritou com todas as forças: - Há sobretudo este mistério maior de estarmos, na mesma hora e local, cometendo o mesmo gesto absurdo e despencando para a mesma incerteza, por puro acaso. Além de cúmplices, a intensidade deste mergulho nos tornou visionários. Você não vê diante de si o desconhecido? É que já estamos perfurando a treva. E como tudo de fato reluzia, João também ergueu a voz: - Sim, sim. É espantoso o brilho do absurdo. - E agora – disse Antônio bem diante do rosto de João – falemos um pouco da permanência. Você gosta dos meus olhos azuis? Foi quando os dois corpos se estatelaram na Avenida São Luiz. FONTE:http://mscamp.wordpress.com/2008/11/27/dois-corpos-que-caem-joao-silverio-trevisan/