sábado, 23 de junho de 2012
A nova dimensão do escritor Jeffrey Curtam Marina Colasanti
Quando o coágulo de sangue explodiu na cabeça de Jeffrey Curtam, algo
nele foi cortado, como uma mangueira ou um caule. E o seu pensamento
viu-se subitamente decepado do corpo.
Sem espanto, porque a dor lancinante não teve sequer o tempo de
traduzir-se em grito antes que aquela estranha guilhotina o truncasse na boca.
Passado isso, nada mais havia a não ser a nova dimensão.
- O Dr. Jewett acha que não há esperança - repetia a enfermeira em
voz baixa, aos eventuais visitantes. - O Sr. Curtam poderá viver
indefinidamente, mas não tornará a ver. Nem se mexerá, nem pensará. Apenas
respirará.
De fato, Jeffrey respirava. Os pulmões, egoisticamente alheios à situação
do restante do corpo, continuavam exercendo sua tarefa com a mesma
fiel regularidade com que durante tantos anos lhe haviam fornecido aquele
ar indispensável para que se levantasse a cada manhã, e a cada manhã se
barbeasse dando a partida para mais um dia, que haveria de catapultá-lo da
mesa de refeições para a mesa de trabalho, diante da máquina de escrever e
dos contos que produzia para alimentar o próprio corpo, e com ele os
próprios pulmões encarregados de fornecer aquele ar indispensável para.
Jeffrey teria ficado orgulhoso dos seus pulmões, se apenas se desse conta
de que funcionavam, ou sequer de que os tinha. Mas, apesar do corpo de
Jeffrey continuar possuindo pulmões e outros órgãos em perfeito estado
de
funcionamento, seu cérebro os desconhecia e comportava-se como se deles
não necessitasse. Assim como não necessitava da visão ou da audição.
Cortadas as ligações que o haviam ancorado ao resto do corpo, o cérebro
de Jeffrey Curtam não dava mais ordens. E os médicos, enganados pelo
silêncio dessa voz de comando, haviam decretado sua morte, entretanto,
emparedado na caixa craniana cujos orifícios a ruptura havia vedado com
sangue espesso como chumbo, o cérebro pensava.
Talvez fosse mais correto dizer que luzia. Pois nada do que havia vivido
até então se assemelhava à luz límpida e pura por ele agora gerada na óssea
escuridão da sua caverna. Jeffrey Curtam havia-se livrado para sempre da
escravidão da coerência. Sua mente, solta, tudo se permitia, tudo realizava.
Aos poucos, a camada de pintura branca que cobria a casa de Jeffrey
entrou em entendimento definitivo com o sol e com a chuva, fundindo sua
obediência a ambos numa única tonalidade cinzenta, que somente sob as
calhas permitia-se escurecer. Começou a descascar. Enormes escamas
quebradiças abriam-se feito conchas na velha superfície, entregando a madeira
ao tempo, sem que pérola rolasse.
Crescia a grama ao redor, manchada aqui e acolá pelas lascas mais frágeis
que em constante outono desprendiam-se das paredes e caíam volteando,
enquanto na imobilidade do corpo de Jeffrey, outro movimento se processava.
Vinda dos pés - ou seria da nuca? - a paralisia que já lhe havia tomado
os membros rastejava por dentro, buscando alcançar-lhe o coração.
Na cidadezinha, todos se referiam a ele como se já estivesse morto.
E todas as manhãs, sua mulher o barbeava e lavava, mudando-o, ela
mesma, da cama para a cadeira e da cadeira para a cama, falando-lhe como
se fala a um cão amigo, embora sem ter sequer a esperança da resposta ou
reconhecimento de que um cão é capaz. Nada lhe vinha daquele corpo, além
do hábito.
Mas Roxanne falava sem esforço, com a mesma doçura dos primeiros
dias, evitando perguntar-se se o fazia para evitar seu próprio silêncio ou
se
para preencher com suas palavras o silêncio que dele parecia emanar.
Sem que ela pudesse ouvir, por trás dos cabelos ralos e quase brancos,
por trás da pele apergaminhada, por trás da espessa barreira dos ossos, um
silêncio cheio de sons e palavras tecia sua sinfonia no cérebro de Jeffrey.
Nunca mais ele havia precisado se expressar de forma audível ou legível.
Nunca mais ele havia pensado para outros. Pensando só para si, seguia o fio
sinuoso e inquebrável dos seus desejos, deixando-se escorrer por ele como
em água, sem saltos ou fraturas. A fabulação, que havia sido sua forma de
viver, tornava-se sua vida. E ali deitado, imóvel, Jeffrey criava e costurava,
uma após a outra, as imagens da longa narrativa.
Um neurologista - fama convocada para validar o que vários outros
já haviam afirmado - tentou convencer Roxanne de que era inútil dispensar
tamanho cuidado ao enfermo. "Se Jeffrey tivesse consciência do seu estado",
disse em voz autoritariamente piedosa, "desejaria morrer. Desejaria
libertar-se
da prisão do próprio corpo.
Mas Jeffrey não desejava morrer. Assim como não desejava livrar-se do
próprio corpo. Esse corpo que, sem movimentos, atrofiava-se aos poucos
sobre a cama, não lhe era prisão. Nem lhe fazia falta. Antes, havia sido
necessário ocupar-se dele, vigiar seus alarmas, suas dores, seus sintomas,
lutar
diariamente para atender sua fome inesgotável, protegê-lo. Antes havia sido
imperioso servi-lo, e às suas exigências. Talvez então lhe fosse mais prisão
do
que agora, quando, impedido o contato entre o pensamento e suas carnes,
eram elas que o serviam.
De alguma forma, poderia-se dizer que Jeffrey não tinha consciência
do seu estado. Mas isso, não porque estivesse impedido de percebê-lo. E sim
porque, na longa travessia na qual seu pensamento estava empenhado, o fato
de não falar ou mover-se parecia tão menor que se via excluído.
Jamais, olhando o vivo cadáver do marido, suspeitaria Roxanne da
intensa movimentação que o habitava. Sem gesto que o cansasse, Jeffrey não
dormia, seu estado era um só. E nesse estado, de absoluta entrega e absoluta
atenção, ele mudava de tempo e de país, dialogava com os vivos e agia com
os mortos, dançava como nunca havia dançado, cavalgava, respirava no
fundo da água, e voava, voava.
Longas vezes, enfastiado talvez da tanta agitação, o cérebro de Jeffrey
deixava-se ficar, girando apenas ao redor de um pensamento, envolvendo-o
nos fios prateados das suas idéias, aprumando-lhe as formas e o sentido, até
ve-lo crescer, tão intenso como se a vida não lhe tivesse sido dada ali, mas apenas explodisse naquele momento, carga milenar que desde sempre trazia
consigo. Erguiam-se então na pálida atmosfera do quarto as invisíveis torres,
e os sinos badalavam ensurdecedores no cérebro de Jeffrey. Sem que seu som
cortasse o ar pesado do cheiro de remédios.
Os anos haviam devorado o seguro de Jeffrey. Roxanne fora obrigada
a vender uma parte da terra atrás da casa, depois a abrir mão de uma faixa
de jardim à direita. Uma hipoteca tornara-se inevitável.
E no entanto, como nos primeiros dias, quando a doença se manifestara
e ainda parecia possível reverter o destino, ela continuava a amar o marido.
Amava, em verdade, aquele homem que havia antes, e que ela teimava
em sobrepor a esta pálida coisa cada dia menor e mais leve, coisa quase
humana que ainda transportava da cama para a cadeira e da cadeira para a
cama, como se carregasse um fardo ou um feto.
- Que mais posso eu fazer? - perguntava-se puxando de leve as
cortinas, não fosse o sol bater sobre o pobre rosto que, único movimento
perceptível, parecia voltar-se sempre em direção à luz.
Uma luz quente derramava-se sobre as imagens dos pensamentos de
Jeffrey, naquela tarde em que, pela primeira vez depois de tanto tempo, sentiu
que seu corpo o chamava. Desobstruíam-se os ouvidos, sons alheios aos seus
lhe chegavam como ruído de cachoeira, ou vento, ou cantoria. As placas
ósseas da sua fronte, as maçãs do seu rosto abriam-se como batentes
empurrados por dentro e o sol, com intensidade nunca antes alcançada, vinha
expulsá-lo da caverna.
O fio do pensamento de Jeffrey lançou-se para aquela luz.
Roxanne, que cochilava na cadeira ao pé da cama, acordou sobressaltada.
Estendeu a mão para tocar o marido. Não foi preciso. Antes mesmo
de olhá-lo, soube que estava sozinha na casa. Recolheu a mão ao colo,
segurou-a com a outra, e deixou-se ficar. O sol se pôs. O perfume dos lilases
pareceu enlouquecer as cigarras, o coaxar das rãs pairou sobre o peitoril da
janela.
Só então Roxanne levantou-se.
terça-feira, 19 de junho de 2012
Crítica da razão pura Wander Piroli
Ouvi primeiro o ruído de cascos pisando a grama, mas continuei deitado
de bruços na esteira que havia estendido ao lado da barraca. Senti
nitidamente o cheiro acre, muito próximo. Virei-me devagar, abri os
olhos. O cavalo erguia-se interminável à minha frente. Em cima dele
havia uma espingarda apontada para mim e atrás da espingarda um
velhinho de chapéu de palha, que disse logo o seguinte:
— Filhos de uma puta.
Pois não — tentei eu, ainda entorpecido pela bebida do almoço.O velho
encaminhou o cavalo até o fogão, abaixou-se na sela e inspecionou o que
restava na lenha.
— Filhos de uma puta.
Os moirões — pensei, pondo-me de pé. E andando de costas, sem tirar os
olhos do velho, fui até a entrada da barraca e chamei pelo Dr. Fontes.
— Fale, querida — disse ele lá de dentro.
— Depressa, doutor — pedi.
— Filhos de uma puta — repetiu o velho emputecido, agora examinando a
cerca destruída.
— São os moirões — expliquei para o Dr. Fontes, que saía da barraca com
o óculos torto na cara amarrotada, os cabelos em desordem.
— Calma — ponderou Dr. Fontes.
— Filhos de uma puta — insistiu o velho de pele vermelha curtida,
ossudo.
Cainca apareceu fora da barraca, nu, com o calção na mão:
— Mas que porra é essa?
— Chega pra lá — ameaçou o velho lá de cima do cavalo.
Cainca enfiou o calção.
— Bem — disse eu — se é por causa dos moirões.
— E o senhor tem dúvida? Olha lá o que vocês fizeram com a cerca. Será
que algum filho da puta ainda tem alguma dúvida?
— Filho da puta, não senhor — disse Cainca.
— Filho da puta, sim — confirmou o velho brandindo a espingarda.
— Filho da puta é a buceta da mãe.
O velho apontou a espingarda.
— Atira não — gritei, segurando Cainca pelas costas.
— Nada de violência — propôs o Dr. Fontes, colocando-se a meio caminho
entre o velho e Cainca. — O senhor desculpe.
— Desculpar uma merda — intrometeu-se Cainca
— Cala essa boca podre, animal.
— Mas, doutor.
— Cala a boca.
— Cala a boca — disse eu também.
— Mas ele tá chamando a gente de filho da puta.
— Isso agora é secundário — disse o Dr. Fontes, tecnicamente.
— Pra mim não é.
— Sua mãe é uma santa — afiançou o Dr. Fontes. — Agora, cale-se.
Cainca acalmou-se. Soltei-o. Dr. Fontes dirigiu-se ao velho:
— Abaixe a arma, por favor.
—O quê?
— A espingarda, meu bravo. Olha — Dr. Fontes ergueu a mão forense —
quanto aos moirões.
— Não quero conversa — cortou o velho.
— E o que é que o senhor quer então? — Cainca quis saber.
— Muita calma. — Dr. Fontes repetiu o mesmo gesto amistoso. — Eu quero
dizer que retiramos os moirões, mas não vamos dar prejuízo a ninguém.
Pelo amor de Deus.
O pessoal aqui é gente boa — observei eu modestamente.
— Gente boa? — O velho fez uma careta em cima do cavalo mantendo a
espingarda firme na mão direita, enquanto a esquerda segurava a rédea
de couro.
— O senhor está vendo — entornei. — Tudo aqui é gente boa. Viemos só
dar uma pescada. E ninguém quer dar problema pra ninguém.
O velho relaxou-se um pouco, os olhos muito azuis no rosto fino e
curtido de sol. Estávamos os três à sua frente, a cinco passos do
cavalo acaboclado que assistia tudo em omisso silêncio.
— Tá certo — Cainca procurou ajudar, esforçando-se para imprimir à voz
um tom sordidamente ameno e fraudulentamente conciliador. Tiramos os
moiróes. A gente errou, mas a gente paga.
Dr. Fontes meteu rápido a mão no bolso do macacão:
— É só o senhor falar quanto é, nós pagamos, pedimos desculpa se o
senhor quiser — e pronto.
— Pagar? — rosnou o velho. — Pagar o quê?
— Os moirões, é evidente.
— Os moirões. Eu quero eles de volta.
Lá estavam os moirões, ou melhor, o resto dos moirões, metidos no fogáo
cavado na terra e de onde ainda saía uma pífia fumaça. A dez metros da
Rural, passava a cerca dividindo o campo imenso e montanhoso que se
estendia verde pelo horizonte a fora, sem uma única árvore. Nada.
— Por favor — tornou o Dr. Fontes. — É só o senhor ter a bondade de
dizer o valor dos moirões, nós pagamos.
— Quero os paus onde eles estavam — retrucou o velho. — Quero a cerca
no mesmo lugar.
Mesmo assim, Dr. Fontes tirou um maço de notas da carteira. Mas não
conseguiu sensibilizar o velho homem.
— Não quero saber de dinheiro — disse ele. — E só dar o dinheiro e está
tudo resolvido? Invadir o terreno dos outros, arrebentar cerca, é?
— Nós estamos propondo um negócio correto — argumentou o Dr. Fontes. —
Estamos propondo uma indenização. E o mesmo que refazer a cerca. E a
gente paga até a mais, por causa do aborrecimento.
O velho encostou o cano da arma no pescoço imóvel do cavalo e ficou
avaliando o Dr. Fontes com os seus enrugados olhos azuis.
— Certo? É só o senhor falar quanto é. — Dr. Fontes animou-se, exibindo
a dinheirama aberta nas mãos.
— Quero a cerca como estava — redargüiu o velho — do mesmo jeito, no
mesmo lugar.
— Puta que os bunda — disse Cainca.
— Assim é pior — observei.
— Porra, mas não tem jeito de conversar com ele.
— Deixe ficar — pedi, e depois me dirigi ao velho: — olha, o Dr. Fontes
é advogado. Ele entende dessas coisas.
— Adevogado? corrigiu o velho, medindo o Dr. Fontes, cuja elegância de
bota e macacão desbotado não endossava sua jurídica condição.
— Advogado — entusiasmei-me e dos melhores, O que ele está propondo é o
que está na lei. Se alguém dá um prejuízo tem que indenizar a outra
parte.
Esperei que o velho reagisse. Ele se inclinou um pouco para a frente.
Tive a impressão, sondando sua cara toda sulcada e curtida, que ele
agora não estava se sentindo bem. Continuei:
— Nós destruímos sua cerca sem má intenção. Agora temos que pagar, que
indenizar o senhor. Assim o assunto fica encerrado, O senhor fala é
tanto, e nós pagamos.
— Quero a minha cerca — respondeu o velho. Ao mesmo tempo em que levava
a mão à barriga murcha. Seu rosto estava começando a suar
— Pra mim este papo tá furado — disse Cainca; foi até a Rural e apanhou
a sacola que estava dependurada na porta aberta.
— Larga isso aí — ordenou o velho
— Largar, é? — Cainca enfiou a alça no pescoço.
Um momento — pediu o Dr. Fontes, e encaminhou-se para Cainca
— Cainca, você está piorando a situação.
— Desculpe, doutor, mas estou puto da vida.
— Eu sei, rapaz. Deixe a sacola aí até a gente chegar a um acordo.
— Dr. Fontes, por favor: o senhor e o Moacir conversam com ele. Eu vou
só conferir as linhas.
Cainca ajeitou a sacola, deu as costas para o velho, desceu o pequeno
barranco até alcançar a margem do Paraopeba. Começava a entardecer, e
os últimos raios de sol reverberavam na água encachoeirada. Olhei para
o Dr. Fontes e vi que tínhamos pensado a mesma coisa.
— Bem—disse ele para o velho. — Vamos dar uma pescada enquanto o senhor
decide.
— Pescada? — O velho estava tenso, com o rosto um pouco mais pálido e
molhado de suor.
— Olha— explicou o Dr. Fontes apanhando o molinete encostado à barraca.
— O que nós podemos fazer é isso: pagar a cerca. Não podemos fazer mais
nada. Queira desculpar.
Apanhei o caixotinho de minhocuçu e segui o Dr. Fontes, que já se
encaminhava para o rio.
— Pára ai— gritou o velho, com o cavalo virado em nossa direção e a
espingarda à altura do ombro.
Paramos no topo do barranco.
— O senhor não vai fazer uma bobagem — disse o Dr. Fontes.
— Pare — ordenou novamente, embora já estivéssemos parados. A
espingarda tremia em suas mãos e seu rosto estava incrivelmente
desbotado.
— Calma — Dr. Fontes ergueu a mão. — O senhor não vai atirar na gente
por causa de três pedaços de pau.
Caínca subiu o barranco e veio para o nosso lado:
— Porra, será que o velho ai querendo foder a gente?
— Fica quieto — disse eu.
—Acho que nós temos — ia dizendo o Dr. Fontes, quando vimos a
espingarda cair e, logo em seguida, o velho levantar os braços
espasmódicos altura do peito, desprender-se do cavalo, tombar de cabeça
no chão, Ficando com um dos pés agarrado no estribo.
Cainca precipitou-se para o cavalo e segurou as rédeas. Dr. Fontes
amparou o corpo do velho, que agora estava sem chapéu, enquanto eu
retirava sua botina do estribo. Dr. Fontes estendeu-o no chão, O corpo
do velho tremia e, dentro da bocarra, de dentes podres e poucos, a
língua parecia que estava dando um nó. Quietou-se em seguida, os olhos
esbugalhados.
Dr. Fontes sentiu o pulso e depois pôs o ouvido no peito do velho e
procurou escutar. Ergueu-se contrariado.
— Puta merda — disse ele.
— Por Deus — disse eu. — Tem certeza?
— Puta merda, se tenho.
— Olha de novo, doutor.
— Não há mais nada para olhar — disse o Dr. Fontes.
Cainca largou as rédeas do cavalo e foi logo juntando as nossas coisas
que andavam pelo chão.
— Sacanagem — disse o Dr. Fontes, dirigindo-se pata a barraca.
Enquanto Cainca recolhia as varas na beira do rio, ajudei o Dr. Fontes
a desmanchar a barraca e dobrar a lona. Pusemos tudo dentro da Rural.
Olhamos para o cavalo de cabeça baixa, omisso. Olhamos para o velho
esparramado no chão, com os olhos fixos no céu todo azul, sem uma única
nuvem. Olhamos em volta para ver se havia mais alguma coisa para
recolher. Estava tudo certo.
— E agora, doutor? — disse eu.
— Agora?
— O que é que vamos fazer?
— Foda-se — disse o Dr. Fontes entrando na Rural.
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segunda-feira, 18 de junho de 2012
O burguês e o crime Carlos Heitor Cony
O burguês
Foi durante a noite que, de repente, ele se fez a pergunta:
— Por que não?
A pergunta finalizava a série de pensamentos que haviam começado horas
antes, quando estava no teatro. Fora com a mulher assistir a uma peça
de sucesso, com artistas de sucesso, estréia recente e também de
sucesso. As duas primeiras noites haviam sido dedicadas à alta
sociedade, às classes produtoras, ao Corpo Diplomático, às autoridades
constituídas e a penetras de diferentes origens e feitios. Na altura da
terceira apresentação, ele chegara em casa e a mulher o intimara:
— É o fim, Figueiredo! Todo mundo já viu a peça, menos nós. Tem de ser
hoje.
Uma semana depois, a peça seria suspensa por falta de público, mas
naquela terceira noite ele teve de se acotovelar na entrada, discutir
com os bilheteiros e terminar sendo explorado por um cambista que lhe
vendeu duas péssimas poltronas com ágio pesado e imerecido.
Suportou, lá dentro — e estoicamente — os primeiros momentos da peça,
mas ainda em meio ao primeiro ato desanimou de procurar entender o que
se passava no palco. Era um drama complicado e palavroso, uma jovem que
tinha neurose e amantes, um analista, uma enfermeira lésbica e,
presidindo a tudo, um pai severo e asmático. Em suma: um conflito acima
de suas possibilidades e de seu interesse.
Quando ia ao cinema, sempre podia dormir quando o filme seguia um rumo
surpreendente assim. No escuro o cochilo ficava impune, a mulher nem
suspeitava. À saída, ele concordava com a opinião da mulher e
conseguiam chegar em casa sãos e salvos. Mas no teatro era difícil o
cochilo. Havia luz, e pior que a luz, havia sempre a iminência de algo
espantoso, o cenário despencar, a roupa da atriz cair, um ator ter
enfarte ou esquecer o texto, um fósforo botar fogo no pano de boca.
Tais e tantos atrativos impediam-no de dormir, mas propiciavam discreta
dormência, o pensamento solicitado ora pelo calor, ora pela peça, ora
ainda pelo pigarro de um velho na platéia, ou pelo sapato um pouco
apertado que Ema — a mulher — o obrigara a usar.
Tivera um dia calmo, calmos eram todos os seus dias. A firma, apesar do
sócio que era uma toupeira, prosperava. Saúde boa, perspectivas boas.
Não tinha motivos para pensar no futuro ou no passado. Sobravam-lhe
motivos para dormir no presente, a peça já era um motivo.
A frase, dita por alguém no palco, chamou-o de volta. Ele já contara as
pregas do lado direito da cortina que compunha o fundo do cenário, e
preparava-se, resignado, pra contar as pregas do lado esquerdo, quando
ouviu alguém falar em morte.
Não, não ameaçavam ninguém de morte. O drama do palco era existencial,
não continha mortes nem ameaças de. Fora uma frase convencional, assim
como "não devemos matar a velha de susto", ou "se a velha souber disso
pode morrer".
Matar ou morrer? Não chegava a ser uma opção, nem no palco, nem em sua
vida, mas uma série de pensamentos que tinham, ora a sua lógica, ora o
seu absurdo, e em ambos os casos, a sua conveniência. Evidente, não
pensava nunca em sua própria morte, mas sabia que havia gente que
morria e gente que matava. Os que morriam eram os doentes, os suicidas,
os atropelados, os assassinos, os passageiros de avião ou da Central do
Brasil. Os que matavam eram os criminosos, os ladrões noturnos, os
tiranos, os motoristas de ônibus.
Não era agradável pensar em morrer. Logo retirou este elemento de sua
opção e ficou apenas com o matar.
Matar o quê? Matar para quê? Na peça, falavam em matar uma velha de
susto. Ele não tinha velha nenhuma à vista. A mãe já morrera, as
parentas de velhice mais agressiva também já haviam morrido. Havia a
sogra, ainda, mas não chegava a ser uma velha, e, além do mais, era uma
excelente pessoa.
Se não adiantava matar uma velha, matar o quê?
Matar por matar, amor à arte, eis a questão. Matar para experimentar os
nervos, ou para provar a si mesmo do que era capaz. Sim, isso
justificava um crime. Mas para provar do que era capaz, não bastaria
matar — isso qualquer idiota poderia fazer. Tinha de matar e permanecer
impune — para poder se olhar no espelho e se sentir redimido,
confiante: sou um caráter!
Foi então que surgiu o problema — que seria, nos próximos dias, o seu
problema, o único problema realmente sério de sua vida — como obter o
crime perfeito? Matar o porteiro de seu edifício, por exemplo, nunca
seria um crime perfeito. Mais cedo ou mais tarde a polícia apertaria os
moradores do prédio e ele acabaria confessando. Para matar impunemente
teria de escolher um comerciário de Brás de Pina, uma funcionária
subalterna que voltasse, tarde da noite, para o Leblon.
Mas seria estúpido matar sem motivo, embora matasse perfeitamente. O
crime perfeito, sem lucro pessoal, não lhe interessava, aliás, pensando
bem, agora que o primeiro ato terminava, nenhum crime lhe interessava.
Teve coragem para o comentário.
— Uma peça muito profunda!
A mulher não concordou nem discordou. Apenas disse:
— Vamos esperar pelo resto. Acho que vai sair um escândalo!
Foi a vez de ele concordar, embora não suspeitasse que tipo de
escândalo estava prestes a estourar. Saiu para o hall circulou entre
estranhos, bebeu um gole d'água gelada, sem sede mesmo, só para passar
o tempo.
Durante o segundo ato os pensamentos seguiram outro rumo. Surgiu no
palco um pastor protestante. Surgiu também um militar reformado que era
mudo — e ele começou a pensar em como seria sua vida — e como seria ele
mesmo — se não tivesse voz.
Chegou à conclusão e ao fim da peça: poderia manter o mesmo padrão de
vida se, por acaso, ficasse sem voz. Era-lhe coisa inútil, espécie de
adorno. Para ganhar dinheiro e dormir com a mulher — a voz era
dispensável, uma responsabilidade incômoda.
Ao saírem, cumprimentou com a cabeça alguns conhecidos e fez a viagem
de volta imaginando-se mudo. Conseguiu chegar em casa sem ter
pronunciado uma só palavra — o que não era uma vantagem especial,
sempre que iam ou que voltavam de algum lugar, a mulher é quem falava,
ele apenas ouvia.
A grande oportunidade para testar a sua disciplina interior foi ao
guardar o carro na garagem. Todas as vezes tinha de pedir à mulher que
suspendesse o vidro da porta:
— Suspenda o seu vidro, Ema.
Àquela noite, engoliu em seco e esperou que a mulher saísse para, então
inclinar-se no banco, com algum esforço para sua espinha já bombardeado
por sedimentações calcáreas que prenunciavam um respeitável bico-de-
papagaio, e rodar a manivelinha até fechar o vidro.
Na cama, preparado para dormir, a palavra primeiramente, e o conceito
depois, retornaram à sua cabeça e às suas preocupações: matar. Há muito
não tinha insônia. A firma prosperava, vendia material de escritório
aos ministérios militares, era pago em dia, e não faltavam encomendas,
tanto Marinha como o Exército e a Aeronáutica — felizmente para ele e
para Pátria — gastavam mais em papel timbrado do que em pólvora.
Geralmente, caía duro em cima da cama. De quinze em quinze dias ou de
vinte em vinte dias, procurava a mulher para um amor apressado e quase
sempre incompleto da parte dela.
Quando percebeu as horas, viu que gastara a noite toda pensando. Tinha
disciplina interior feroz e eficiente. Se dormisse até as 9, estaria
salvo. Virou para o lado e antes de escorregar definitivamente no sono,
teve um pensamento também definitivo:
— "Se não fosse a polícia, eu matava!"
O crime
A firma era próspera e prosperava, apesar do sócio: um belo homem
excelente caráter, pai amantíssimo, esposo exemplar, amigo
irreprochável foi o mínimo que um orador, à beira do túmulo, disse
dele, no dia do enterro: "Colhidos pela brutalidade de tua morte, aqui
estamos, Anselmo, para prantearmos o excelente caráter, o pai
amantíssimo, o esposo exemplar, o amigo irreprochável que acabamos de
perder!".
No mesmo cemitério, à beira de outro túmulo, e mais ou menos mesma
hora, Ema foi sepultada e chorada quase que solitariamente: quatro
coveiros a sepultaram, com suas correntes e más vontades, e o marido
chorou, apesar de tudo, segundo afirmaram alguns poucos presentes que
ouviram os soluços de um enterro e o discurso do outro.
À noite, apareceram-lhe em casa alguns amigos compenetrados. Conforme
afirmaram mais tarde, foram à casa dele unicamente para que Figueiredo
"não fizesse uma besteira".
Apesar da presença dos amigos, Figueiredo conteve-se e não cometeu
besteira nenhuma. Tomou apenas um porre, como lhe convinha, e disse
obscenidades a respeito da vida e de si mesmo, chamando a vida de merda
e chamando-se a si mesmo de corno. O que ia de encontro aos pensamentos
gerais, embora os amigos protestassem, deixa disso, Figueiredo, deixa
disso!
No dia seguinte ao do enterro, apareceu mal vestido e barbado para
iniciar as providências legais das sucessões, pois sucedia ao sócio no
controle da firma e sucedia à mulher nos bens do casal que eram muitos,
o sogro lhe havia deixado apólices e casas em Vila Isabel.
Estava rico e livre agora da chatice do sócio e da chatice da mulher. E
para ficar livre dos amigos, começou a cultivar mau hálito, o que
impedia que os mais importunos se acercassem dele para dar conselhos,
principalmente quando, após o escândalo da dupla morte, revelou-se o
outro escândalo, o da fortuna que lhe chegava às mãos através de tão
rudes eventos.
Rosnavam que, se não fossem as trágicas e patentes circunstâncias, a
polícia deveria investigar melhor aquilo tudo. Mas a suspeita não tinha
consistência — apesar do ódio que Figueiredo passou a provocar pela
fortuna, pelo mau hálito, e pela liberdade que lhe chegara à vida. Ele
mesmo, com o tempo, começou a esquecer, a duvidar do passado, e um dia,
vendo no fundo do armário uma peça íntima de Ema, suspirou e sentiu
saudades. Logo se aprumou, afugentou o pensamento macabro que lhe
surgiu, e embora não houvesse ninguém à volta, disse em voz alta, como
convinha a um homem que sofrera tanto:
— "Aquela cachorra!"
Porém já cinco anos eram passados da morte da cachorra e do cachorro.
Cinco anos daquela tragédia que enlutou a família cristã, rudemente
golpeada pelo escândalo daquele pacto de morte. Cronistas sem assunto
escreveram sobre o pacto de morte tão romanticamente previsto e
executado, foram ouvidas opiniões de sociólogos, de pedagogos e de
sacerdotes sobre o caso. Cinco dias depois já ninguém falava no assunto
e cinco anos depois, só mesmo ele, e às vezes, pensava em tudo,
detalhadamente, como num passo heróico de sua vida.
Chegara àquela noite em casa, de uma viagem rápida a São Paulo, e
baqueara ao entrar em seu quarto: caídos e nus, em cima da cama, a sua
mulher e o sócio. Próximo do sócio, o copo partido, cujos resíduos
foram examinados pelo Instituto de Criminalística e cuja malignidade
foi devidamente provada.
A perícia, com a ajuda dele, reconstituiu os acontecimentos. Ele
viajara a São Paulo, voltaria na noite seguinte. Tão logo se mandou
pela estrada, Ema chamara o amante. A perícia examinou a vagina de Ema
e encontrou sinais evidentes do coito recente. O imperscrutável
aconteceu — e aqui o relatório policial foi respeitoso, ao afirmar que,
"após manterem relações de fundo sexual, os dois amantes decidiram pôr
fim à vida através de um pacto de morte que foi imediatamente
cumprido".
Anselmo preparou o veneno, Ema bebeu estoicamente, sem repugnância pela
morte ou pelo gosto de amêndoas que saía do copo. E Anselmo, logo em
seguida, ingeriu o restante. Contorceram-se pouco, e logo se
imobilizaram — e foi assim que, à noite, Figueiredo e mais tarde a
polícia os encontraram.
No 18° Distrito Policial o pacto de morte foi classificado como
"Ocorrência nº. 53.697" e arquivado após despacho do delegado-auxiliar,
cumpridas as formalidades legais e pagas as taxas do costume.
O crime e o burguês
— "Se não fosse a polícia eu matava!".
Com essa frase ele adormecera, uma semana antes da tragédia que abalou
a sociedade cristã e a sua vida. Viera do teatro e ficara pensando em
matar, mas não sabia nem como, nem a quem matar. Não tinha nenhum
problema importante na vida, tudo lhe ia bem, e essa inexistência de um
problema dava-lhe a sensação de burrice, de imprestabilidade.
Desde que pensara em matar, sentiu que iniciava uma nova vida, fugia à
rotina, à qual sempre se submetera. Era o seu problema, embora não
fosse, ainda, a sua vontade. No trabalho, em casa, andando pelas ruas,
tinha agora uma ordem fixa de pensamentos e de energias.
Certa tarde, regressando da cidade, parou no Flamengo. Entrou num
prédio, tomou o elevador, fechou os olhos e apertou um botão: qualquer
andar em que o elevador parasse, serviria. Parou no sétimo andar. Havia
duas portas à frente, apertou a campainha do 701. A velhinha veio abrir
e ele quase chegou ao crime: levou as duas mãos para a frente em
direção ao gasganete da velha. Mas deu-lhe uma tremedeira nas pernas e
ele recuou. O elevador ficara parado no andar e ele pôde fugir. Poderia
ter deixado a velha morta, ninguém teria visto nada. Mas deixou a velha
apenas surpreendida e irritada.
Passou uma noite de cão, reprovando-se a covardia. Tivera tudo à mão, a
velha, o elevador, não esbarrara com ninguém, nunca entrara naquele
prédio. A polícia procuraria pelos parentes da velha, os desafetos, os
fornecedores, as ex-empregadas, os vizinhos. Não tivera ao alcance das
mãos apenas o gasganete da velha: tivera nas mãos o crime perfeito — e
o desperdiçara, sem lucro algum.
E então tremeu, emocionado e surpreso: acabara de descobrir o crime
verdadeiramente perfeito: O LUCRO. Matar sem lucro, como no caso da
velha, seria uma brincadeira idiota. Tinha de matar com muito lucro,
com tanto lucro que ficasse óbvia a lucrabilidade do crime. E para
tornar patente essa lucrabilidade, tinha de escolher uma vítima que
fosse patentemente próxima de seus interesses. Viu a mulher dormindo a
seu lado.
— "Se mato esta mulher — a minha mulher — o primeiro e necessário
suspeito serei eu mesmo".
Riu, com a facilidade do problema. Tão fácil era o problema que
resolveu exagerar. Não mataria apenas uma pessoa, mas duas. E, na
escala de importância e de lucro, a segunda pessoa que lhe apareceu foi
o sócio, o qual hipotecara, há tempos, a parte dele, para levar a
mulher aos Estados Unidos, curar um tumor no colo do útero. Ele
emprestara o dinheiro e ficara com as hipotecas do sócio. Se matasse o
sócio, a firma ficaria inteiramente em suas mãos, era um lucro
evidente, agressivo.
Dois dias depois, avisou à mulher que ia a São Paulo, viagem rápida.
Saiu à noite, subiu em direção a Teresópolis. Deixou o carro numa rua
que lhe pareceu deserta, tomou um ônibus e antes da meia-noite estava
novamente em casa. Entrou pela garagem, como o fazia todas as noites,
mas sem o carro, e por causa disso, não teve necessidade de acordar o
garagista.
Surpreendeu a esposa:
— Uê? Você já voltou?
— Você está vendo.
Explicou que o carro enguiçara no quilômetro 97 da Rio — São Paulo,
tomara um ônibus, amanhã voltaria ao local, com um mecânico. Foram
dormir e ele procurou a mulher. Dessa vez, pela primeira vez em muitos
anos, concentrou-se no esforço de fazê-la gozar — era parte do plano.
Depois que ela estremeceu e gritou coisas indecentes — sinal que
finalmente gozara — ele conseguiu, também, um escasso prazer. Mas logo
levou a mão ao peito:
— Ema, o enfarte!
Caiu para o lado, olhos arregalados, bufando grosso. Ema deu um pulo da
cama, nua.
— Vou buscar a coramina!
— Não! Chame o Anselmo, preciso falar com ele, é urgente, mas diga a
ele para não contar a ninguém, para vir já! As hipotecas dele! Ele pode
perder tudo!
Ema foi ao telefone, acordou Anselmo:
— O Figueiredo teve um enfarte. Venha correndo, mas não diga nada a
ninguém. As hipotecas!
A mulher de Anselmo perguntou quem chamava o marido dela àquela hora da
noite, mas Anselmo, apesar de esposo exemplar e pai amantíssimo, deu um
grito:
— Vá à merda, mulher. Depois eu explico!
Ema foi à cozinha, apanhou um copo d'água. Quando voltou ao quarto,
pingando gotas de coramina no copo, encontrou o marido em pé, com um
copo na mão.
— Uê? Já ficou bom?
Figueiredo avançou para ela.
— Beba isso!
— Mas...
— Beba, sua idiota!
Era a primeira vez, em dezenove anos de casados, que se dava o nome ao
boi naquela casa. Ema apanhou o copo, sentiu um cheiro estranho. Bebeu
um gole e ainda teve tempo de perguntar:
— Para que é isso?
— É um afrodisíaco. Faz a gente gozar mais ainda.
Mas Ema não ouviu que ia gozar mais ainda. Caiu próximo à cama e
Figueiredo arrumou-a o melhor que pôde. Mais alguns minutos, foi à
porta da frente, esperar pelo sócio. Viu o elevador subir, a luzinha
crescendo, crescendo. Anselmo saiu do elevador e deu com ele na porta.
— E o enfarte?
— Entre depressa!
Anselmo não gostou. A mulher dele ia falar o resto da vida contra
aquela saída abrupta, misteriosa, ia ser o diabo explicar.
— Brincadeira tem hora! Cadê o enfarte?
Figueiredo estendeu-lhe o copo.
— Prove essa droga! Veja que gosto tem e se concorda comigo.
Anselmo provou, sentiu um gosto adocicado de amêndoas, mas não teve
tempo de concordar. Figueiredo arrastou-o ao quarto, tirou-lhe a roupa,
deitou-o ao lado de Ema, a mão estendida para fora do leito. Pegou no
copo, colocou-o na mão de Anselmo, deixou que o copo se partisse no
chão.
Apagou as luzes, deixando apenas um pequeno abajur aceso. Ganhou a rua,
atravessando a garagem do prédio, o garagista tinha sono de pedra,
quando chegava tarde, com o carro, tinha de esmurrar a campainha para
que o homem lhe abrisse a porta dos carros.
Andou pela cidade, esperando o primeiro ônibus para Teresópolis.
Deixara impressões no copo, nas roupas, em todos os lugares. Mas o
lucro era tão dele que invalidava a suspeita. Deixara atrás de si um
crime que se explicava por si mesmo.
Tomou o ônibus para Teresópolis. Com o sereno da noite, o carro ficara
melado como um bicho. Antes de ligar o motor, abriu o painel de
instrumentos e desligou o cabo do velocímetro. Desceu a serra, almoçou
um frango assado à beira da estrada, atingiu a Avenida Brasil e cortou
em direção oposta à cidade. Andou mais alguns quilômetros e pegou a Rio
— São Paulo. Enfrentou as retas iniciais, atingiu a serra mas logo fez
um contorno e embicou de volta ao Rio. Parou no posto de gasolina para
abastecer o carro.
— Tem mecânico aí?
O mulato de maus dentes surgiu das entranhas de uma camioneta.
— É o cabo do velocímetro. Acho que houve alguma coisa com ele.
Deu boa gorjeta ao mecânico e ao homem do posto que lhe enchera o
tanque,
tinha agora duas pessoas que atestariam que ele regressava de São
Paulo.
Quando arrancou, os dois homens o chamaram de doutor:
— Boa viagem, doutor!
Chegou em casa, após uma boa viagem, e viu o quadro que logo os
policiais examinaram, os jornais noticiaram e com o qual ele lucrou.
Moral
O crime, para o burguês, só não compensa quando a polícia está contra.
FONTE:http://www.releituras.com/cony_menu.asp
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sexta-feira, 15 de junho de 2012
AQUELES DOIS Caio Fernando Abreu
(História de aparente mediocridade e repressão)
Para Rofran Fernandes:"I announce adhesiveness,
I say it shall be limitless,
unloosen il.
I say you shall yet find the
friend youwere looking for."
(Walt Whitman: So Long!)
A verdade é que não havia mais ninguém em volta. Meses depois, não no começo, um deles diria que a repartição era como "um deserto de almas". O outro concordou sorrindo, orgulhoso, sabendo-se excluído. E longamente, entre cervejas, trocaram então ácidos comentários sobre as mulheres mal-amadas e vorazes, os papos de futebol, amigo secreto, lista de presente, bookmaker, bicho, endereço de cartomante, clips no relógio de ponto, vezenquando salgadinhos no fim do expediente, champanha nacional em copo de plástico. Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra — talvez por isso, quem sabe? Mas nenhum se perguntou.
Não chegaram a usar palavras como "especial", "diferente" ou qualquer coisa assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las. Não que fossem muito jovens, incultos demais ou mesmo um pouco burros. Raul tinha um ano mais que trinta; Saul, um menos. Mas as diferenças entre eles não se limitavam a esse tempo, a essas letras. Raul vinha de um casamento fracassado, três anos e nenhum filho. Saul, de um noivado tão interminável que terminara um dia, e um curso frustrado de Arquitetura. Talvez por isso, desenhava. Só rostos, com enormes olhos sem íris nem pupilas. Raul ouvia música e, às vezes, de porre, pegava o violão e cantava, principalmente velhos boleros em espanhol. E cinema, os dois gostavam.
Passaram no mesmo concurso para a mesma firma, mas não se encontraram durante os testes. Foram apresentados no primeiro dia de trabalho de cada um. Disseram prazer, Raul, prazer, Saul, depois como é mesmo o seu nome? sorrindo divertidos da coincidência. Mas discretos, porque eram novos na firma e a gente, afinal, nunca sabe onde está pisando. Tentaram afastar-se quase imediatamente, deliberando limitarem-se a um cotidiano oi, tudo bem ou, no máximo, às sextas, um cordial bom fim de semana, então. Mas desde o princípio alguma coisa — fados, astros, sinas, quem saberá? conspirava contra (ou a favor, por que não?) aqueles dois.
Suas mesas ficavam lado a lado. Nove horas diárias, com intervalo de uma para o almoço. E perdidos no meio daquilo que Raul (ou teria sido Saul?) chamaria, meses depois, exatamente de "um deserto de almas", para não sentirem tanto frio, tanta sede, ou simplesmente por serem humanos, sem querer justificá-los — ou, ao contrário, justificando-os plena e profundamente, enfim: que mais restava àqueles dois senão, pouco a pouco, se aproximarem, se conhecerem, se misturarem? Pois foi o que aconteceu. Tão lentamente que mal perceberam.
II
Eram dois moços sozinhos. Raul tinha vindo do norte, Saul tinha vindo do sul. Naquela cidade, todos vinham do norte, do sul, do centro, do leste — e com isso quero dizer que esse detalhe não os tornaria especialmente diferentes. Mas no deserto em volta, todos os outros tinham referenciais, uma mulher, um tio, uma mãe, um amante. Eles não tinham ninguém naquela cidade — de certa forma, também em nenhuma outra —, a não ser a si próprios. Diria também que não tinham nada, mas não seria inteiramente verdadeiro.
Além do violão, Raul tinha um telefone alugado, um toca-discos com rádio e um sabiá na gaiola, chamado Carlos Gardel. Saul, uma televisão colorida com imagem fantasma, cadernos de desenho, vidros de tinta nanquim e um livro com reproduções de Van Gogh. Na parede do quarto de pensão, uma outra reprodução de Van Gogh: aquele quarto com a cadeira de palhinha parecendo torta, a cama estreita, as tábuas do assoalho, colocado na parede em frente à cama. Deitado, Saul tinha às vezes a impressão de que o quadro era um espelho refletindo, quase fotograficamente, o próprio quarto, ausente apenas ele mesmo. Quase sempre, era nessas ocasiões que desenhava.
Eram dois moços bonitos também, todos achavam. As mulheres da repartição, casadas, solteiras, ficaram nervosas quando eles surgiram, tão altos e altivos, comentou, olhos arregalados, uma das secretárias. Ao contrário dos outros homens, alguns até mais jovens, nenhum tinha barriga ou aquela postura desalentada de quem carimba ou datilografa papéis oito horas por dia.
Moreno de barba forte azulando o rosto, Raul era um pouco mais definido, com sua voz de baixo profundo, tão adequada aos boleros amargos que gostava de cantar. Tinham a mesma altura, o mesmo porte, mas Saul parecia um pouco menor, mais frágil, talvez pelos cabelos claros, cheios de caracóis miúdos, olhos assustadiços, azul desmaiado. Eram bonitos juntos, diziam as moças. Um doce de olhar. Sem terem exatamente consciência disso, quando juntos os dois aprumavam ainda mais o porte e, por assim dizer, quase cintilavam, o bonito de dentro de um estimulando o bonito de fora do outro, e vice-versa. Como se houvesse entre aqueles dois, uma estranha e secreta harmonia.
III
Cruzavam-se, silenciosos mas cordiais, junto à garrafa térmica do cafezinho, comentando o tempo ou a chatice do trabalho, depois voltavam às suas mesas. Muito de vez em quando, um pedia um cigarro ao outro, e quase sempre trocavam frases como tanta vontade de parar, mas nunca tentei, ou já tentei tanto, agora desisti. Durou tempo, aquilo. E teria durado muito mais, porque serem assim fechados, quase remotos, era um jeito que traziam de longe. Do norte, do sul.
Até um dia em que Saul chegou atrasado e, respondendo a um vago que que houve, contou que tinha ficado até tarde assistindo a um velho filme na televisão. Por educação, ou cumprindo um ritual, ou apenas para que o outro não se sentisse mal chegando quase às onze, apressado, barba por fazer, Raul deteve os dedos sobre o teclado da máquina e perguntoü: que filme? Infâmia, Saul contou baixo, Audrey Hepburn, Shirley MacLayne, um filme muito antigo, ninguém conhece. Raul olhou-o devagar, e mais atento, como ninguém conhece? eu conheço e gosto muito. Abalado, convidou Saul para um café e, no que restava daquela manhã muito fria de junho, o prédio feio mais que nunca parecendo uma prisão ou uma clínica psiquiátrica, falaram sem parar sobre o filme.
Outros filmes viriam, nos dias seguintes, e tão naturalmente como se de alguma forma fosse inevitável, também vieram histórias pessoais, passados, alguns sonhos, pequenas esperança e sobretudo queixas. Daquela firma, daquela vida, daquele nó, confessaram uma tarde cinza de sexta, apertado no fundo do peito. Durante aquele fim de semana obscuramente desejaram, pela primeira vez, um em sua quitinete, outro na pensão, que o sábado e o domingo caminhassem depressa para dobrar a curva da meia-noite e novamente desaguar na manhã de segunda-feira quando, outra vez, se encontrariam para: um café. Assim foi, e contaram um que tinha bebido além da conta, outro que dormira quase o tempo todo. De muitas coisas falaram aqueles dois nessa manhã, menos da falta que sequer sabiam claramente ter sentido.
Atentas, as moças em volta providenciavam esticadas aos bares depois do expediente, gafieiras, discotecas, festinhas na casa de uma, na casa de outra. A princípio esquivos, acabaram cedendo, mas quase sempre enfiavam-se pelos cantos e sacadas para contar suas histórias intermináveis. Uma noite, Raul pegou o violão e cantou Tú Me Acostumbraste. Nessa mesma festa, Saul bebeu demais e vomitou no banheiro. No caminho até os táxis separados, Raul falou pela primeira vez no casamento desfeito. Passo incerto, Saul contou do noivado antigo. E concordaram, bêbados, que estavam ambos cansados de todas as mulheres do mundo, suas tramas complicadas, suas exigências mesquinhas. Que gostavam de estar assim, agora, sós, donos de suas próprias vidas. Embora, isso não disseram, não soubessem o que fazer com elas.
Dia seguinte, de ressaca, Saul não foi trabalhar nem telefonou. Inquieto, Raul vagou o dia inteiro pelos corredores subitamente desertos, gelados, cantando baixinho Tú Me Acostumbraste, entre inúmeros cafés e meio maço de cigarros a mais que o habitual.
IV
Os fins de semana tornaram-se tão longos que um dia, no meio de um papo qualquer, Raul deu a Saul o número de seu telefone, alguma coisa que você precisar, se ficar doente, a gente nunca sabe. Domingo depois do almoço, Saul telefonou só para saber o que o outro estava fazendo, e visitou-o, e jantaram juntos a comidinha mineira que a empregada deixara pronta sábado. Foi dessa vez que, ácidos e unidos, falaram no tal deserto, nas tais almas. Há quase seis meses se conheciam. Saul deu-se bem com Carlos Gardel, que ensaiou um canto tímido ao cair da noite. Mas quem cantou foi Raul: Perfídia,La Barca e, a pedido de Saul, outra vez, duas vezes, Tú Me Acostumbraste. Saul gostava principalmente daquele pedacinho assim sutil llegaste a mí como una tentación llenando de inquietud mi corazón. Jogaram algumas partidas de buraco e, por volta das nove, Saul se foi.
Na segunda, não trocaram uma palavra sobre o dia anterior. Mas falaram mais que nunca, e muitas vezes foram ao café. As moças em volta espiavam, às vezes cochichando sem que eles percebessem. Nessa semana, pela primeira vez almoçaram juntos na pensão de Saul, que quis subir ao quarto para mostrar os desenhos, visitas proibidas à noite, mas faltavam cinco para as duas e o relógio de ponto era implacável. Saíam e voltavam juntos, desde então, geralmente muito alegres. Pouco tempo depois, com pretexto de assistir a Vagas Estrelas da Ursa na televisão de Saul, Raul entrou escondido na pensão, uma garrafa de conhaque no bolso interno do paletó. Sentados no chão, costas apoiadas na cama estreita, quase não prestaram atenção no filme. Não paravam de falar. Cantarolando Io Che Non Vivo, Raul viu os desenhos, olhando longamente a reprodução de Van Gogh, depois perguntou como Saul conseguia viver naquele quartinho tão pequeno. Parecia sinceramente preocupado. Não é triste? perguntou. Saul sorriu forte: a gente acostuma.
Aos domingos, agora, Saul sempre telefonava. E vinha. Almoçavam ou jantavam, bebiam, fumavam, falavam o tempo todo. Enquanto Raul cantava — vezenquando El Día Que Me Quieras, vezenquando Noche de Ronda —, Saul fazia carinhos lentos na cabecinha de Carlos Gardel, pousado no seu dedo indicador. Às vezes olhavam-se. E sempre sorriam. Uma noite, porque chovia, Saul acabou dormindo no sofá. Dia seguinte, chegaram juntos à repartição, cabelos molhados do chuveiro. As moças não falaram com eles. Os funcionários barrigudos e desalentados trocaram alguns olhares que os dois não saberiam compreender, se percebessem. Mas nada perceberam, nem os olhares nem duas ou três piadas. Quando faltavam dez minutos para as seis, saíram juntos, altos e altivos, para assistir ao último filme de Jane Fonda.
V
Quando começava a primavera, Saul fez aniversário. Porque achava seu amigo muito solitário, ou por outra razão assim, Raul deu a ele a gaiola com Carlos Gardel. No começo do verão, foi a vez de Raul fazer aniversário. E porque estava sem dinheiro, porque seu amigo não tinha nada nas paredes da quitinete, Saul deu a ele a reprodução de Van Gogh. Mas entre esses dois aniversários, aconteceu alguma coisa.
No norte, quando começava dezembro, a mãe de Raul morreu e ele precisou passar uma semana fora. Desorientado, Saul vagava pelos corredores da firma esperando um telefonema que não vinha, tentando em vão concentrar-se nos despachos, processos, protocolos. Á noite, em seu quarto, ligava a televisão gastando tempo em novelas vadias ou desenhando olhos cada vez mais enormes, enquanto acariciava Carlos Gardel. Bebeu bastante, nessa semana. E teve um sonho: caminhava entre as pessoas da repartição, todas de preto, acusadoras. À exceção de Raul, todo de branco, abrindo os braços para ele. Abraçados fortemente, e tão próximos que um podia sentir o cheiro do outro. Acordou pensando mas ele é que devia estar de luto.
Raul voltou sem luto. Numa sexta de tardezinha, telefonou para a repartição pedindo a Saul que fosse vê-lo. A voz de baixo profundo parecia ainda mais baixa, mais profunda. Saul foi. Raul tinha deixado a barba crescer. Estranhamente, ao invés de parecer mais velho ou mais duro, tinha um rosto quase de menino. Beberam muito nessa noite. Raul falou longamente da mãe — eu podia ter sido mais legal com ela, disse, e não cantou. Quando Saul estava indo embora, começou a chorar. Sem saber ao certo o que fazia, Saul estendeu a mão e, quando percebeu, seus dedos tinham tocado a barba crescida de Raul. Sem tempo para compreenderem, abraçaram-se fortemente. E tão próximos que um podia sentir o cheiro do outro: o de Raul, flor murcha, gaveta fechada; o de Saul, colônia de barba, talco. Durou muito tempo. A mão de Saul tocava a barba de Raul, que passava os dedos pelos caracóis miúdos do cabelo do outro. Não diziam nada. No silêncio era possível ouvir uma torneira pingando longe. Tanto tempo durou que, quando Saul levou a mão ao cinzeiro, o cigarro era apenas uma longa cinza que ele esmagou sem compreender.
Afastaram-se, então. Raul disse qualquer coisa como eu não tenho mais ninguém no mundo, e Saul outra coisa qualquer como você tem a mim agora, e para sempre. Usavam palavras grandes — ninguém, mundo, sempre — e apertavam-se as duas mãos ao mesmo tempo, olhando-se nos olhos injetados de fumo e álcool. Embora fosse sexta e não precisassem ir à repartição na manhã seguinte, Saul despediu-se. Caminhou durante horas pelas ruas desertas, cheias apenas de gatos e putas. Em casa; acariciou Carlos Gardel até que os dois dormissem. Mas um pouco antes, sem saber por quê, começou a chorar sentindo-se só e pobre e feio e infeliz e confuso e abandonado e bêbado e triste, triste, triste. Pensou em ligar para Raul, mas não tinha fichas e era muito tarde.
Depois, chegou o Natal, o Ano-Novo que passaram juntos, recusando convites dos colegas de repartição. Raul deu a Saul uma reprodução do Nascimento de Vênus, que ele colocou na parede exatamente onde estivera o quarto de Van Gogh. Saul deu a Raul um disco chamado Os Grandes Sucessos de Dalva de Oliveira. O que mais ouviram foi Nossas Vidas, prestando atenção no pedacinho que dizia até nossos beijos parecem beijos de quem nunca amou.
Foi na noite de trinta e um, aberta a champanhe na quitinete de Raul, que Saul ergueu a taça e brindou à nossa amizade que nunca nunca vai terminar. Beberam até quase cair. Na hora de deitar, trocando a roupa no banheiro, muito bêbado, Saul falou que ia dormir nu. Raul olhou para ele e disse você tem um corpo bonito. Você também, disse Saul, e baixou os olhos. Deitaram ambos nus, um na cama atrás do guarda-roupa, outro no sofá. Quase a noite inteira, um conseguia ver a brasa acesa do cigarro do outro, furando o escuro feito um demônio de olhos incendiados. Pela manhã, Saul foi embora sem se despedir para que Raul não percebesse suas fundas olheiras.
Quando janeiro começou, quase na época de tirarem férias — e tinham planejado, juntos, quem sabe Parati, Ouro Preto, Porto Seguro — ficaram surpresos naquela manhã em que o chefe de seção os chamou, perto do meio-dia. Fazia muito calor. Suarento, o chefe foi direto ao assunto. Tinha recebido algumas cartas anônimas. Recusou-se a mostrá-las. Pálidos, ouviram expressões como "relação anormal e ostensiva", "desavergonhada aberração", "comportamento doentio", "psicologia deformada", sempre assinadas por Um Atento Guardião da Moral. Saul baixou os olhos desmaiados, mas Raul colocou-se em pé. Parecia muito alto quando, com uma das mãos apoiadas no ombro do amigo e a outra erguendo-se atrevida no ar, conseguiu ainda dizer a palavra nunca, antes que o chefe, entre coisas como a-reputação-de-nossa-firma, declarasse frio: os senhores estão despedidos.
Esvaziaram lentamente cada um a sua gaveta, a sala deserta na hora do almoço, sem se olharem nos olhos. O sol de verão escaldava o tampo de metal das mesas. Raul guardou no grande envelope pardo um par de olhos enormes, sem íris nem pupilas, presente de Saul, que guardou no seu grande envelope pardo, com algumas manchas de café, a letra de Tú Me Acostumbraste, escrita à mão por Raul numa tarde qualquer de agosto. Desceram juntos pelo elevador, em silêncio.
Mas quando saíram pela porta daquele prédio grande e antigo, parecido com uma clínica ou uma penitenciária, vistos de cima pelos colegas todos postos na janela, a camisa branca de um, a azul do outro, estavam ainda mais altos e mais altivos. Demoraram alguns minutos na frente do edifício. Depois apanharam o mesmo táxi, Raul abrindo a porta para que Saul entrasse. Ai-ai, alguém gritou da janela. Mas eles não ouviram. O táxi já tinha dobrado a esquina.
Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens no céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.
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cem melhores contos brasileiros do século
quinta-feira, 14 de junho de 2012
Idolatria Sérgio Faraco
Eu olhava para a estrada e tinha a impressão de que jamais na vida chegaríamos a Nhuporã. Que pedaço brabo. O camaleão se esfregava no chassi e o pai praguejava:
— Caminho do diabo!
Nosso Chevrolet era um trinta e oito de carroceria verde-oliva e cabina da mesma cor, só um nadinha mais escura. No pára-choque havia uma frase sobre amor de mãe e em cima da cabina uma placa onde o pai anunciava que fazia carreto na cidade, fora dela e ele garantia, de boca, que até fora do estado, pois o Chevrolet não se acanhava nas estradas desse mundo de Deus.
Mas o caminho era do diabo, ele mesmo tinha dito. A pouco mais de légua de Nhuporã o caminhão derrapou, deu um solavanco e tombou de ré na valeta. O pai acelerou, a cabina estremeceu. Ouvíamos os estalos da lataria e o gemido das correntes no barro e na água, mas o caminhão não saiu do lugar. Ele deu um murro no guidom.
— Puta merda.
Quis abrir a porta, ela trancou no barranco.
— Abre a tua.
A minha também trancava e ele se arreliou:
— Como é, ô Moleza!
Empurrou-a com violência.
— Me traz aquelas pedras. E vê se arranca um feixe de alecrim, anda.
Agachou-se junto às rodas e começou a fuçar, jogando grandes porções de barro para os lados. Mal ele tirava, novas porções vinham abaixo, afogando as rodas. Com a testa molhada, escavava sem parar, suspirando, praguejando, merda isso e merda aquilo, e de vez em quando, com raiva, mostrava o punho para o caminhão.
O pai era alto, forte, tinha o cabelo preto e o bigode espesso. Não era raro ele ficar mais de mês em viagem e nem assim a gente se esquecia da cara dele, por causa do nariz, chato como o de um lutador. Bastava lembrar o nariz e o resto se desenhava no pensamento.
— Vamos com essas pedras!
Por que falava assim comigo, tão danado? As pedras, eu as sentia dentro do peito, inamovíveis.
— Não posso, estão enterradas.
— Ah, Moleza.
Meteu as mãos na terra e as arrancou uma a uma. Carreguei-as até o caminhão, enquanto ele se embrenhava no capinzal para pegar o alecrim.
— Pai, pai, o caminhão tá afundando!
A cabeça dele apareceu entre as ervas.
— Não vê que é a água que tá subindo, ô pedaço de mula?
E riu. Ficava bonito quando ria, os dentes bem parelhos e branquinhos.
— Tá com fome?
— Não.
— Vem cá.
Tirou do bolso uma fatia de pão.
— Toma.
— Não quero.
— Toma logo, anda.
— E tu?
— Eu o quê? Come isso.
Trinquei o pão endurecido. Estava bom e minha boca se encheu de saliva.
— Acho que não vamos conseguir nada por hoje. De manhãzinha passa a patrola do DAER*, eles puxam a gente.
Atirou a erva longe e entrou na cabina.
— Ô Moleza, vamos tomar um chimarrão?
Fiz que sim. Ao me aproximar, ele me jogou sua japona.
— Veste isso, vai esfriar.
A japona me dava nos joelhos e ele riu de novo, mostrando os dentes.
— Que bela figura.
A cara dele era tão boa e tão amiga que eu tinha uma vontade enorme de me atirar nos seus braços, de lhe dar um beijo. Mas receava que dissesse: como é, Moleza, tá ficando dengoso? Então agüentei firme ali no barro, com as abas da japona me batendo nas pernas, até que ele me chamou outra vez:
— Como é, vens ou não?
Aí eu fui.
*Sigla do departamento responsável pela conservação das estradas estaduais.
FONTE:http://www.releituras.com/sfaraco_menu.asp
FONTE:http://www.releituras.com/sfaraco_menu.asp
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quarta-feira, 13 de junho de 2012
O Anti-Natal de 1951 Carlos Sussekind
No documento emitido pelo Juizado de Menores lê-se o seguinte: "Requisito-vos" (ao agente da Estação D. Pedro II, no Rio de Janeiro) "duas passagens de ida e volta em 1ª classe dessa estação até a Estação Presidente Franklin Roosevelt, em São Paulo, para o Dr. Lourenço Laurentis, Curador de Menores do Distrito Federal, e um menor, que viajam a serviço deste Juízo".
Muito atencioso, o agente-ajudante que me atende na Central. Não me faz esperar. Mas, depois de carimbar a requisição, objeta-me que só amanhã poderá dar as passagens, pois o regulamento ferroviário exige antecedência de três dias, não de quatro. Adiantei-me, pois. Evito discutir, para que não surjam obstáculos futuros.
A idéia de fazer essa viagem na companhia unicamente de meu filho, tendo eu me comprometido a não desviá-lo de suas leituras nem durante o percurso nem durante o dia inteiro (25 de dezembro) que passaremos em São Paulo, corresponde satisfatoriamente à nossa concepção (minha e dele) do anti-Natal. Atravessaremos a véspera natalina dentro do trem, sem desejar mal nem bem a quem quer que seja, ele lendo, eu nos meus devaneios. Dia 26 estaremos de volta. Não daremos nem receberemos presentes. O único presente tolerado é essa viagem de graça, que, a bem dizer, não é um presente, é um direito que me dá o cargo de Curador de menores. Doutor Lourenço e o filósofo Lourencinho estarão na deles, numa boa.
Verifico que, se fosse de noturno, com leito de luxo, no "Santa Cruz", em cabine individual de dois passageiros, a viagem de ida e volta custaria ao Estado o triplo do preço desse trajeto feito em poltrona comum. Sairíamos do Rio às 22:30 do dia 24 e chegaríamos a São Paulo às 9 da manhã de 25. Magnífico, sem dúvida. Mas repugna à minha consciência abusar da requisição, proporcionando-nos esse luxo nababesco que ficaria documentado para sempre. Basta a fraude de dizer que eu e o Lourencinho vamos "a serviço do Juízo".
Tentarei, em todo caso, combinar ida em noturno e volta em diurno, numa última homenagem ao meu escrúpulo. O abuso já não será tanto, nem deixarei de proporcionar a meu filho uma viagem repousada. Se tiver de ir e vir de diurno — o que seria a hipótese mais econômica —, a consciência ficará mais leve, mas não sei como se comportariam o fígado dele e os meus rins. Enfim, veremos.
Precipitado no meu otimismo, faço, depois do jantar, uma descrição para a família toda reunida de como é o trem encantado em que viajaremos os dois. Vagões de aço inoxidável. As poltronas forradas de camurça. Giratórias. Ninguém em pé, todos acomodados, de fisionomias risonhas. A composição move-se deslizando, sem nenhuma trepidação, nenhum ruído, não entra pó, o ar que circula é como o do cinema Metro, trem de cinema, primeiro você pensa que é por causa do dia chuvoso, mas deixe chegar uma estação, abrir-se a porta e verá que é como se se abrisse uma fornalha. É a temperatura que faz lá fora. Dentro do carro, no entanto, a mesma inalterável e suavíssima ambiência! Moças e rapazes falam-se aos beijos. Quando não se beijam, cantam. Um sonho!
Diante da minha expansão, Lourencinho tem o comentário desalentador de que só vai a São Paulo para me acompanhar, e que não sabe, afinal, se isso de anti-Natal funcionará mesmo. Se nem o anti-Natal o seduz, meu Deus, que se pode esperar desse rapaz? Deve ser a perspectiva da viagem fatigante. Mas não é só isso, não. Quando lhe falo no que faremos para conhecer a cidade, onde não piso desde 1920 — há mais de 30 anos, portanto —, adverte logo: — Desista disso de querer mostrar parques e avenidas e monumentos e pessoas! Iremos cada qual para seu lado.
Vou buscar as passagens na estação. Outro subagente. Atencioso, como o de ontem. Entretanto, fez-me esperar 25 minutos para verificar se a assinatura era mesmo do juiz de menores, um desaforo. Conclui dizendo, amabilíssimo, que só amanhã, 22, poderá me dar os bilhetes, pois o regulamento fala em "três dias antes da viagem": sendo esta no dia 24, os três dias contam-se 22, 23 e 24. Considera 24 como sendo ao mesmo tempo o dia da viagem e a véspera! Evito discutir etc.
Risadas do homenzinho quando lhe falo em "noturno" e "Santa Cruz". A requisição menciona apenas "passagem de 1ª". Sem especificar "noturno", só se pode subentender "diurno". A fim de não dificultar a interpretação favorável em São Paulo, para a volta, escreve "tarifa noturna", o que permitirá que eu cogite de noturno de lá para cá. Mas, noturno em "trem de madeira", sem leito de qualquer espécie. Nem, sequer, poltrona. A poltrona, mesmo para o diurno, tem de ser paga à parte. São 60 para a ida e outros 60 para a volta. Quer dizer que a requisição do Juízo de Menores só me deu o direito de andar dentro do trem até São Paulo e de São Paulo aqui. Custará isso ao Estado 568 cruzeiros redondos. Acho infinita graça, agora, na minha ingenuidade de falar em "escrúpulo" de pleitear coisa melhor. . . O Governo sabe com quem lida. As bandalheiras não se fazem assim, com recibo. Elas se aninham noutras dobras.
Volto no dia seguinte, o guichê das passagens está se abrindo, sou o primeiro passageiro atendido. Entretanto, não posso ter os assentos que peço, na sombra. "Nós aqui desconhecemos os lugares que são no sol e os que ficam na sombra. As ordens são para destacá-los automaticamente, sem intervenção de quem quer que seja".Conformo-me. Ele lê a requisição. O outro funcionário, ao datá-la, pôs certo 21.12.1951; mas, quando se referiu ao dia da viagem, escreveu, sabe-se lá por que, 24.12.1952, equívoco palpável, evidente. Mas S. Exa. o bilheteiro do guichê nº 1 acha que deve ser retificado. Atendo-o, ainda nisto. No guichê n° 5 já está outro funcionário, diverso do "amabilíssimo" com quem falei ontem. Objeta-me que a retificação não é da sua competência, e que o funcionário que poderia fazê-la só começará a trabalhar às 4 da tarde. Não posso tolerar semelhante absurdo. Volto então ao agente substituto. Ouve-me em silêncio. Manda chamar o bilheteiro. Fala-lhe. E se volta para mim, austeramente: — O funcionário tem razão. Ele não pode retificar um erro que não cometeu. Mas o senhor, também, não vai pagar pelo que se fez sem sua culpa. Atenda-o, portanto, Sr. Freitas. Se o algarismo puder ser modificado, modifique-o. Se não puder, extraia outro passe.
E dá-me as costas. O algarismo não pôde ser modificado. Depois de ajustar pachorrentamente os carbonos e de "experimentar" noutro papel, de rascunho, Freitas pega solenemente o lápis, calca-o, descobre o carbono e diz:
— Não deu certo. — Espero, pois, 15 minutos para que ele extraia novo passe.
Seria justo que minha odisséia terminasse aí. Mas não terminou. Vou para o bilheteiro do guichê n° 1. Examina os novos passes, pede-me a carteira funcional e me diz secamente: 60 cruzeiros pelas duas poltronas. Dou-lhe o dinheiro, mas pergunto:
— Que é que essas poltronas têm de mais?
Ele não demora na resposta:
— Nada.
— Então por que se paga à parte? Se eu não pagasse, iria em pé?
O homem ajusta os óculos ao nariz, fita-me serenamente, reflete no que vai dizer. Responde-me:
— Iria.
Quer dizer: um funcionário, viajando a serviço do Estado, tendo sua passagem requisitada pelo Juízo de Menores, em nome do Ministro da Justiça, não tem direito sequer a viajar sentado nas 11 horas do percurso.
Mas ainda há mais. Pergunto, delicadamente, ao ditador que tenho pela frente, se as poltronas 37 e 38 do carro "B" ficam, ou não, na sombra. Com uma irritação mal disfarçada em calma "superior", responde-me:
— Meu caro senhor, quer um conselho? Peça a Deus que sejam na sombra, porque só Ele pode decidir.
Ali a justiça divina já está feita de antemão. Qualquer dos lugares é igual nos benefícios e nas desvantagens. Em 11 horas de viagem, de 7:25 às 18:25, quem tiver sol pela manhã não o terá mais à tarde, e quem, pela manhã, gozar da sombra, escaldará com o sol de depois do meio-dia.
Rimo-nos, ambos, para descarregar os nervos, evidentemente tensos, tensíssimos. Desejo-lhe Feliz Natal com toda a sinceridade. Posso respirar, enfim. As providências que tinha de tomar para garantir nosso anti-Natal, meu e do meu filho, já estão tomadas.
FONTE:http://www.releituras.com/csussekind_menu.asp
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quarta-feira, 6 de junho de 2012
BALEIA – Graciliano Ramos
A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pêlo caíra-lhe em vários pontos, as
costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de
moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida.
Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no
pescoço um rosário de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se
nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as
orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de roscas, semelhante a
uma cauda de cascavel.
Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o
sacatrapo e fez tenção de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito.
Sinhá Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que adivinhavam desgraça
e não se cansavam de repetir a mesma pergunta:
- Vão bulir com a Baleia?
Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano afligiam-nos, davam-lhes a suspeita
de que Baleia corria perigo.
Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se
diferençavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameaçava cobrir o
chiqueiro das cabras.
Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas Sinhá Vitória levou-os para a cama de varas,
deitou-os e esforçou-se por tapar-lhes os ouvidos: prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas
e espalmou as mãos nas orelhas do segundo. Como os pequenos resistissem, aperreou-se e tratou de
subjugá-los, resmungando com energia.
Fia também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a decisão de Fabiano era
necessária e justa. Pobre da Baleia.
Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma, as pancadas surdas da vareta
na bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia.
Os meninos começaram a gritar e a espernear. E como Sinhá Vitória tinha relaxado os músculos,
deixou escapar o mais taludo e soltou uma praga:
- Capeta excomungado.
Na luta que travou para segurar de novo o filho rebelde, zangou-se de verdade. Safadinho. Atirou
um cocorote ao crânio enrolado na coberta vermelha e na saia de ramagens.
Pouco a pouco a cólera diminuiu, e Sinhá Vitória, embalando as crianças, enjoou-se da cadela
achacada, gargarejou muxoxos e nomes feios. Bicho nojento, babão. Inconveniência deixar cachorro
doido solto em casa. Mas compreendia que estava sendo severa demais, achava difícil Baleia
endoidecer e lamentava que o marido não houvesse esperado mais um dia para ver se realmente a
execução era indispensável.
Nesse momento Fabiano andava no copiar, batendo castanholas com os dedos. Sinhá Vitória encolheu
o pescoço e tentou encostar os ombros às orelhas. Como isso era impossível, levantou os braços
e, sem largar o filho, conseguiu ocultar um pedaço da cabeça.
Fabiano percorreu o alpendre, olhando a baraúna e as porteiras, açulando um cão invisível contra
animais invisíveis:
- Ecô! ecô!
Em seguida entrou na sala, atravessou o corredor e chegou à janela baixa da cozinha. Examinou o
terreiro, viu Baleia coçando-se a esfregar as peladuras no pé de turco, levou a espingarda ao
rosto. A cachorra espiou o dono desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando, até ficar
no outro lado da árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido com
esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca do curral, deteve-se no
mourão do canto e levou de novo a arma ao rosto. Como o animal estivesse de frente e não
apresentasse bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar às catingueiras, modificou a
pontaria e puxou o gatilho. A carga alcançou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de
Baleia, que se pôs a latir desesperadamente.
Ouvindo o tiro e os latidos, Sinhá Vitória pegou-se à Virgem Maria e os meninos rolaram na cama,
chorando alto. Fabiano recolheu-se.
E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho da esquerda, passou rente
aos craveiros e às panelas de losna, meteu-se por um buraco da cerca e ganhou o pátio, correndo
em três pés. Dirigiu-se ao copiar, mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das
cabras.
Demorou-se aí um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino, aos pulos.
Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como
gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo. Quis recuar e
esconder-se debaixo do carro, mas teve medo da roda.
Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um deles havia uma barroca macia e funda. Gostava de
espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava as moscas e os mosquitos, e quando se levantava,
tinha folhas secas e gravetos colados às feridas, era um bicho diferente dos outros.
Caiu antes de alcançar essa cova arredada. Tentou erguer-se, endireitou a cabeça e estirou as
pernas dianteiras, mas o resto do corpo ficou deitado de banda. Nesta posição torcida, mexeu-se
a custo, ralando as patas, cravando as unhas no chão, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal
esmoreceu e aquietou-se junto às pedras onde os meninos jogavam cobras mortas.
Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um
nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente não latia:
uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo, tornavam-se quase imperceptíveis.
Como o sol a encandeasse, conseguiu adiantar-se umas polegadas e escondeu-se numa nesga de
sombra que ladeava a pedra.
Olhou-se de novo, aflita. Que lhe estaria acontecendo? O nevoeiro engrossava e aproximava-se.
Sentiu o cheiro bom dos preás que desciam do morro, mas o cheiro vinha fraco e havia nele
partículas de outros viventes. Parecia que o morro se tinha distanciado muito. Arregaçou o
focinho, aspirou o ar lentamente, com vontade de subir a ladeira e perseguir os preás, que
pulavam e corriam em liberdade.
Começou a arquejar penosamente, fingindo ladrar. Passou a língua pelos beiços torrados e não
experimentou nenhum prazer. O olfato cada vez mais se embotava: certamente os preás tinham
fugido.
Esqueceu-os e de novo lhe veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos
meio vidrados, com um objeto esquisito na mão.
Não conhecia o objeto, mas pôs-se a tremer, convencida de que ele encerrava surpresas
desagradáveis. Fez um esforço para desviar-se daquilo e encolher o rabo. Cerrou as pálpebras
pesadas e julgou que o rabo estava encolhido. Não poderia morder Fabiano: tinha nascido perto
dele, numa camarinha, sob a cama de varas, e consumira a existência em submissão, ladrando para
juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas.
O objeto desconhecido continuava a ameaçá-la. Conteve a respiração, cobriu os dentes, espiou o
inimigo por baixo das pestanas caídas. Ficou assim algum tempo, depois sossegou. Fabiano e a
coisa perigosa tinham-se sumido.
Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escuridão, com certeza o sol desaparecera.
Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do chiqueiro espalhou-se pela
vizinhança.
Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A obrigação dela era levantar-
se, conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procurando distinguir os meninos. Estranhou a
ausência deles.
Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia não atribuía a esse desastre a
impotência em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades. Uma angústia
apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar as cabras: àquela hora cheiros de suçuarana
deviam andar pelas ribanceiras, rondar as moitas afastadas. Felizmente os meninos dormiam na
esteira, por baixo do caritó onde Sinhá Vitória guardava o cachimbo.
Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio completo, nenhum sinal
de vida nos arredores. O galo velho não cantava no poleiro, nem Fabiano roncava na cama de
varas. Estes sons não interessavam Baleia, mas quando o galo batia as asas e Fabiano se virava,
emanações familiares revelavam-lhe a presença deles. Agora parecia que a fazenda se tinha
despovoado.
Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a língua pendente e
insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto, e a
viagem difícil do barreiro ao fim do pátio desvaneciam-se no seu espírito.
Provavelmente estava na cozinha, entre as pedras que serviam de trempe. Antes de se deitar,
Sinhá Vitória retirava dali os carvões e a cinza, varria com um molho de vassourinha o chão
queimado, e aquilo ficava um bom lugar para cachorro descansar. O calor afugentava as pulgas, a
terra se amaciava. E, findos os cochilos, numerosos preás corriam e saltavam, um formigueiro de
preás invadia a cozinha.
A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do peito para trás era tudo
insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava, espinhos de mandacaru
penetravam na carne meio comida pela doença.
Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente Sinhá Vitória
tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo.
Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano,
um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num
chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes. FONTE:http://mscamp.wordpress.com/2009/02/17/baleia-graciliano-ramos/
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terça-feira, 5 de junho de 2012
DOIS CORPOS QUE CAEM – João Silvério Trevisan
Por simples acaso, dois desconhecidos encontraram-se despencando juntos do alto do Edifício
Itália, no centro de São Paulo.
- Oi – disse o primeiro, no alvoroçado início da queda. – Eu me chamo João. E você?
- Antônio – gritou o segundo, perfurando furiosamente o espaço.
E, só pra matar o tempo do mergulho, começaram a conversar.
- O que você faz aqui? – perguntou Antônio.
- Estou me matando – respondeu João. – E você?
- Que coincidência! Eu também. Espero que desta vez dê certo, porque é minha décima tentativa.
anos venho tentando. Mas tem sempre um amigo, um desconhecido e até bombeiro que impede. Você
afinal está se matando por quê?
- Por amor – respondeu João, sentindo o vento frio no rosto. – Eu, que amava tanto, fui trocado
por um homem de olhos azuis. Infelizmente só tenho estes corriqueiros olhos castanhos…
- E não lhe parece insensato destruir a vida por algo tão efêmero como o amor? – ponderou
Antônio, sentindo a zoada que o acompanhava à morte.
- Justamente. Trata-se de uma vingança da insensatez contra a lógica
- gritou João num tom quase triunfante. – Em geral é a vida que destrói o amor. Desta vez,
decidi que o amor acertaria contas com a vida!
- Poxa – exclamou Antônio – você fez do amor uma panacéia!
- Antes fosse – replicou João, com um suspiro. – Duvidoso como é, o amor me provocou dores
horríveis. Nunca se sabe se o que chamamos amor é desamparo, solidão doentia ou desejo
incontrolável de dominação. O que na verdade me seduz é que o amor destrói certezas com a mesma
incomparável transparência com que o caos significante enfrenta a insignificância
da ordem. Não, o amor não é solução para a vida. Mas é culminância. Morrer por ele me trouxe
paz.
Ante o vertiginoso discurso, ambos tentaram sorrir contra a gravidade.
- E você, como se sente? – perguntou João a Antônio.
- Oh, agora estou plenamente satisfeito.
- Então por que busca a morte?
- Bom – respondeu Antônio – me assustou descobrir um fiasco primordial: que a razão tem demônios
que a própria razão desconhece. Daí, preferi mergulhar de vez no mistério.
- Sim, da razão conheço demasiados horrores. Mas que mistério é esse tão importante a ponto de
merecer sua vida?
- Não sei – respondeu Antônio. – Mistério é mistério.
- Mas morto você não desvendará o mistério! – protestou João.
- Por isso mesmo. O fundamental no mistério é aguçar contradições, e não desvendar. Matar-me,
por exemplo, é bom na medida que me torna parte do enigma e, de certo modo, o agudiza. Tem a ver
com a fé, que gera energias para a vida. Ou para a história, quem sabe…
- Taí um negócio que perdi: a fé. Deus para mim… – e João engasgou.
- Ora – revidou Antônio vivamente. – A fé nada tem a ver com Deus, que se reduziu a uma pobre
estrela anã de energias tão concentradas que já nem sai do lugar. Deus desistiu de entender os
homems, e virou também indagador. Sem Deus nem Razão, a única fé possível é mergulhar neste
abismo do mistério total.
- Mas para isso é preciso ao menos saber onde está o mistério – insistiu João com os cabelos
drapejando ao vento.
- Ué, o mistério está em mim, por exemplo, que me mato para coincidir comigo mesmo. Mas há
mistério também em você: seu morrer de amor é o mais impossível ato de fé. Graças a ele, você
participa do mistério. Porque se apaixonou pelos abismos. João olhou com olhos estatelados, ao
compreender. E Antônio, que já faiscava na semi-realidade da vertigem, gritou com todas as
forças:
- Há sobretudo este mistério maior de estarmos, na mesma hora e local, cometendo o mesmo gesto
absurdo e despencando para a mesma incerteza, por puro acaso. Além de cúmplices, a intensidade
deste mergulho nos tornou visionários. Você não vê diante de si o desconhecido? É que já estamos
perfurando a treva.
E como tudo de fato reluzia, João também ergueu a voz:
- Sim, sim. É espantoso o brilho do absurdo.
- E agora – disse Antônio bem diante do rosto de João – falemos um pouco da permanência. Você
gosta dos meus olhos azuis?
Foi quando os dois corpos se estatelaram na Avenida São Luiz. FONTE:http://mscamp.wordpress.com/2008/11/27/dois-corpos-que-caem-joao-silverio-trevisan/
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quarta-feira, 30 de maio de 2012
Sem enfeite nenhum Adélia Prado
A mãe era desse jeito: só ia em missa das cinco, por causa de os gatos no scuro serem pardos. Cinema, só uma vez, quando passou os Milagres do padre Antônio em Urucánia. Desde aí, falava sempre, excitada nos olhos, apressada no cacoete dela de enrolar um cacho de cabelo: se eu fosse lá, quem sabe? Sofria palpitação e tonteira, lembro dela caindo na beira do tanque, o vulto dobrado em arco, gente afobada em volta, cheiro de alcanfor. Quando comecei a empinar as blusas com o estufadinho dos peitos, o pai chegou pra almoçar, estudando terreno, e anunciou com a voz que fazia nessas ocasiões, meio saliente: companheiro meu tá vendendo um relogim que é uma gracinha, pulseirinha de crom', danado de bom pra do Carmo. Ela foi logo emendando: tristeza, relógio de pulso e vestido de bolér. Nem bolero ela falou direito de tanta antipatia. Foi água na fervura minha e do pai. Vivia repetindo que era graça de Deus se a gente fosse tudo pra um convento e várias vezes por dia era isto: meu Jesus, misericórdia... A senhora tá triste, mãe? eu falava. Não, tou só pedindo a Deus pra ter dó de nós. Tinha muito medo da morte repentina e pra se livrar dela, fazia as nove primeiras sextas-feiras, emendadas. De defunto não tinha medo, só de gente viva, conforme dizia. Agora, da perdição eterna, tinha horror, pra ela e pros outros. Quando a Ricardina começou a morrer, no Beco atrás da nossa casa, ela me chamou com a voz alterada: vai lá, a Ricardina tá morrendo, coitada, que Deus perdoe ela, corre lá, quem sabe ainda dá tempo de chamar o padre, falava de arranco, querendo chorar, apavorada: que Deus perdoe ela, Deus perdoe ela, ficou falando sem coragem de sair do lugar. Mas a Ricardina era de impressionar mesmo, imagina que falou pra mãe, uma vez, que não podia ver nem cueca de homem que ela ficava doida. Foi mais por isso que ela ficou daquele jeito, rezando pra salvação da alma da Ricardina. Era a mulher mais difícil a mãe. Difícil, assim, de ser agradada. Gostava que eu tirasse só dez e primeiro lugar. Pra essas coisas não poupava, era pasta de primeira, caixa com doze lápis e uniforme mandado plissar. Acho mesmo que meia razão ela teve no caso do relógio, luxo bobo, pra quem só tinha um vestido de sair. Rodeava a gente estudar e um dia falou abrupto, por causa do esforço de vencer a vergonha: me dá seus lápis de cor. Foi falando e colorindo de laranjado, uma rosa geométrica: cê põe muita força no lápis, se eu tivesse seu tempo, ninguém na escola me passava, inteligência não te falta, o que falta é estudar, por exemplo falar você em vez de cê, é tão mais bonito, é só acostumar. Quando o coração da gente dispara e a gente fala cortado, era desse jeito que tava a voz da mãe. Achava estudo a coisa mais fina e inteligente era mesmo, demais até, pensava com a maior rapidez. Gostava de ler de noite, em voz alta, junto com tia Santa, os livros da Pia Biblioteca, e de um não esqueci, pois ela insistia com gosto no título dele, em latim: Máguina pecatrís. Falava era antusiasmo e nunca tive coragem de corrigir, porque toda vez que usava essa palavra, tava muito alegre, feito naquela hora, desenhando, feito no dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou: coitado, até essa hora no serviço pesado. Não estava gostando nem um pouquinho do desenho, mas nem que eu falava. Com tanta satisfação ela passava o lápis, que eu fiquei foi aflita, como sempre que uma coisa boa acontecia. Bom também era ver ela passando creme Marsílea no rosto e Antisardina nº 3, se sacudindo de rir depois, com a cara toda empolada. Sua mãe é bonita, me falaram na escola. E era mesmo, o olho meio verde. Tinha um vestido de seda branco e preto e um mantô cinzentado que ela gostava demais. Dia ruim foi quando o pai entestou de dar um par de sapato pra ela. Foi três vezes na loja e ela botando defeito, achando o modelo jeca, achando a cor regalada, achando aquilo uma desgraça e que o pai tinha era umas bobagens. Foi até ele enfezar e arrebentar com o trem, de tanta raiva e mágoa. Mas sapato é sapato, pior foi com o crucifixo. O pai, voltando de cumprir promessa em Congonhas do Campo, trouxe de presente pra ela um crucifixo torneadinho, o cordão de pendurar, com bambolim nas pontas, a maior gracinha. Ela desembrulhou e falou assim: bonito, mas eu preferia mais se fosse uma cruz simples, sem enfeite nenhum. Morreu sem fazer trinta e cinco anos, da morte mais agoniada, encomendando com a maior coragem: a oração dos agonizantes, reza aí pra mim, gente. Fiquei hipnotizada, olhando a mãe. Já no caixão, tinha a cara severa, de quem sente dor forte, igualzinho no dia que o João Antônio nasceu, Entrei no quarto querendo festejar e falei sem graça: a cara da senhora, parece que tá com raiva, O Senhor te abençoe e te guarde, Volva a ti o Seu Rosto e se compadeça de ti, O Senhor te dê a Paz. Esta é a bênção de São Francisco, que foi abrandando o rosto dela, descansando, descansando, até como ficou, quase entusiasmado. Era raiva não. Era marca de dor. - não encontrou nenhum documento.
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terça-feira, 29 de maio de 2012
A caolha Júlia Lopes de Almeida
A caolha era uma mulher magra, alta, macilenta, peito fundo, busto
arqueado, braços compridos, delgados, largos nos cotovelos, grossos nos
pulsos; mãos grandes, ossudas, estragadas pelo reumatismo e pelo trabalho;
unhas grossas, chatas e cinzentas, cabelo crespo, de uma cor indecisa entre
o
branco sujo e o louro grisalho, desse cabelo cujo contato parece dever ser
áspero e espinhento; boca descaída, numa expressão de desprezo, pescoço
longo, engelhado, como o pescoço dos urubus; dentes falhos e cariados.
O seu aspecto infundia terror às crianças e repulsão aos adultos; não
tanto pela sua altura e extraordinária magreza, mas porque a desgraçada tinha
um defeito horrível: haviam-lhe extraído o olho esquerdo; a pálpebra descera
mirrada, deixando, contudo, junto ao lacrimal, uma fístula continuamente
porejante.
Era essa pinta amarela sobre o fundo denegrido da olheira, era essa
destilação incessante de pus que a tornava repulsiva aos olhos de toda a gente.
Morava numa casa pequena, paga pelo filho único, operário numa
oficina de alfaiate; ela lavava a roupa para os hospitais e dava conta de todo
o serviço da casa inclusive cozinha. O filho, enquanto era pequeno, comia
os pobres jantares feitos por ela, às vezes até no mesmo prato; à proporção
que ia crescendo, ia-se-lhe a pouco e pouco manifestando na fisionomia a
repugnância por essa comida; até que um dia, tendo já um ordenadozinho,
declarou à mãe que, por conveniência do negócio, passava a comer fora...
Ela fingiu não perceber a verdade, e resignou-se.
Daquele filho vinha-lhe todo o bem e todo o mal.
Que lhe importava o desprezo dos outros, se o seu filho adorado lhe
apagasse com um beijo todas as amarguras da existência?
Um beijo dele era melhor que um dia de sol, era a suprema carícia para
o seu triste coração de mãe! Mas... os beijos foram escasseando também,
com o crescimento do Antonico! Em criança ele apertava-a nos bracinhos e
enchia-lhe a cara de beijos; depois, passou a beijá-la só na face direita,
aquela
onde não havia vestígios de doença; agora, limitava-se a beijar-lhe a mão!
Ela compreendia tudo e calava-se.
O filho não sofria menos.
Quando em criança entrou para a escola pública da freguesia, começaram logo
os colegas, que o viam ir e vir com a mãe, a chamá-lo - o filho da
caolha.
Aquilo exasperava-o; respondia sempre.
Os outros riam-se e chacoteavam-no; ele queixava-se aos mestres, os
mestres ralhavam com os discípulos, chegavam mesmo a castigá-los - mas
a alcunha pegou, já não era só na escola que o chamavam assim.
Na rua, muitas vezes, ele ouvia de uma ou de outra janela dizerem: o
filho da caolha! Lá vai o filho da caolha! Lá vem o filho da caolha!
Eram as irmãs dos colegas, meninas novas, inocentes e que, industriadas
pelos irmãos, feriam o coração do pobre Antonico cada vez que o viam passar!
As quitandeiras, onde iam comprar as goiabas ou as bananas para o lunch, aprenderam depressa a denominá-lo como os outros e, muitas vezes,
afastando os pequenos que se aglomeravam ao redor delas, diziam, estendendo
uma mancheia de araçás, com piedade e simpatia:
- Taí, isso é pra o filho da caolha!
O Antonico preferia não receber o presente a ouvi-lo acompanhar de
tais palavras; tanto mais que os outros, com inveja, rompiam a gritar,
cantando em coro, num estribilho já combinado:
- Filho da caolha, filho da caolha!
O Antonico pediu à mãe que o não fosse buscar à escola; e, muito
vermelho, contou-lhe a causa; sempre que o viam aparecer à porta do colégio
os companheiros murmuravam injúrias, piscavam os olhos para o Antonico
e faziam caretas de náuseas!
A caolha suspirou e nunca mais foi buscar o filho.
Aos onze anos o Antonico pediu para sair da escola: levava a brigar com
os condiscípulos, que o intrigavam e malqueriam. Pediu para entrar para
uma oficina de marceneiro. Mas na oficina de marceneiro aprenderam
depressa a chamá-lo - o filho da caolha, a humilhá-lo, como no colégio.
Além de tudo, o serviço era pesado e ele começou a ter vertigens e
desmaios. Arranjou então um lugar de caixeiro de venda; os seus ex-colegas
agrupavam-se à porta, insultando-o, e o vendeiro achou prudente mandar o
caixeiro embora, tanto que a rapaziada ia-lhe dando cabo do feijão e do arroz
expostos à porta nos sacos abertos! Era uma contínua saraivada de cereais
sobre o pobre Antonico!
Depois disso passou um tempo em casa, ocioso, magro, amarelo,
deitado pelos cantos, dormindo às moscas, sempre zangado e sempre bocejante!
Evitava sair de dia e nunca, mas nunca, acompanhava a mãe; esta
poupava-o: tinha medo de que o rapaz, num dos desmaios, lhe morresse nos
braços, e por isso nem sequer o repreendia! Aos dezesseis anos, vendo-o mais
forte, pediu e obteve-lhe, a caolha, um lugar numa oficina de alfaiate.
A infeliz mulher contou ao mestre toda a história do filho e suplicou-lhe que
não deixasse os aprendizes humilhá-lo; que os fizesse terem caridade!
Antonico encontrou na oficina uma certa reserva e silêncio da parte dos
companheiros; quando o mestre dizia: Sr. Antonico, ele percebia um sorriso
mal oculto nos lábios dos oficiais; mas a pouco e pouco essa suspeita, ou esse
sorriso, se foi desvanecendo, até que principiou a sentir-se bem ali.
Decorreram alguns anos e chegou a vez de Antonico se apaixonar. Até
aí, numa ou outra pretensão de namoro que ele tivera, encontrara sempre
uma resistência que o desanimava, e que o fazia retroceder sem grandes
mágoas. Agora, porém, a coisa era diversa: ele amava! amava como um louco
a linda moreninha da esquina fronteira, uma rapariguinha adorável, de olhos
negros como veludo e boca fresca como um botão de rosa. O Antonico voltou
a ser assíduo em casa e expandia-se mais carinhosamente com a mãe; um dia,
em que viu os olhos da morena fixarem os seus, entrou como um louco no
quarto da caolha e beijou-a mesmo na face esquerda, num transbordamento
de esquecida ternura!
Aquele beijo foi para a infeliz uma inundação de júbilo! tornara a
encontrar o seu querido filho! pôs-se a cantar toda a tarde, e nessa noite,
ao
adormecer, dizia consigo:
- Sou muito feliz... o meu filho é um anjo!
Entretanto, o Antonico escrevia, num papel fino, a sua declaração de amor
à vizinha. No dia seguinte mandou-lhe cedo a carta. A resposta fez-se esperar.
Durante muitos dias Antonico perdia-se em amarguradas conjeturas.
Ao princípio pensava:
- "É o pudor". Depois começou a desconfiar de outra causa; por fim
recebeu uma carta em que a bela moreninha confessava consentir em ser sua
mulher, se ele se separasse completamente da mãe! Vinham explicações confusas, mal alinhavadas: lembrava a mudança de bairro; ele ali era muito
conhecido por filho da caolha, e bem compreendia que ela não se poderia
sujeitar a ser alcunhada em breve de - nora da caolha, ou coisa semelhante!
O Antonico chorou! Não podia crer que a sua casta e gentil moreninha
tivesse pensamentos tão práticos!
Depois o seu rancor voltou-se para a mãe.
Ela era a causadora de toda a sua desgraça! Aquela mulher perturbara a
sua infância, quebrara-lhe todas as carreiras, e agora o seu mais brilhante
sonho de futuro sumia-se diante dela! Lamentava-se por ter nascido de
mulher tão feia, e resolveu procurar meio de separar-se dela; considerar-se-ia
humilhado continuando sob o mesmo teto; havia de protegê-la de longe,
vindo de vez em quando vê-la à noite, furtivamente...
Salvava assim a responsabilidade de protetor e, ao mesmo tempo,
consagraria à sua amada a felicidade que lhe devia em troca do seu consentimento
e amor...
Passou um dia terrível; à noite, voltando para casa, levava o seu projeto
e a decisão de o expor à mãe.
A velha, agachada à porta do quintal, lavava umas panelas com um trapo
engordurado. O Antonico pensou: "A dizer a verdade eu havia de sujeitar
minha mulher a viver em companhia de... uma tal criatura?" Estas últimas
palavras foram arrastadas pelo seu espírito com verdadeira dor. A caolha
levantou para ele o rosto, e o Antonico, vendo-lhe o pus na face, disse:
- Limpe a cara, mãe...
Ela sumiu a cabeça no avental; ele continuou:
- Afinal nunca me explicou bem a que é devido esse defeito!
- Foi uma doença, - respondeu sufocadamente a mãe - é melhor
não lembrar isso!
- E é sempre a sua resposta: é melhor não lembrar isso! Por quê?
- Porque não vale a pena; nada se remedeia...
- Bem! agora escute: trago-lhe uma novidade: o patrão exige que eu
vá dormir na vizinhança da loja... já aluguei um quarto: a senhora fica aqui
e eu virei todos os dias a saber da sua saúde ou se tem necessidade de alguma
coisa... É por força maior; não temos remédio senão sujeitar-nos!...
Ele, magrinho, curvado pelo hábito de costurar sobre os joelhos,
delgado e amarelo como todos os rapazes criados à sombra das oficinas, onde
o trabalho começa cedo e o serão acaba tarde, tinha lançado naquelas palavras
toda a sua energia, e espreitava agora a mãe com um olho desconfiado e
medroso.
A caolha levantou-se e, fixando o filho com uma expressão terrível,
respondeu com doloroso desdém:
- Embusteiro! o que você tem é vergonha de ser meu filho! Saia! que
eu também já sinto vergonha de ser mãe de semelhante ingrato!
O rapaz saiu cabisbaixo, humilde, surpreso da atitude que assumira a
mãe, até então sempre paciente e cordata; ia com medo, maquinalmente,
obedecendo à ordem que tão feroz e imperativamente lhe dera a caolha.
Ela acompanhou-o, fechou com estrondo a porta, e vendo-se só,
encostou-se cambaleante à parede do corredor e desabafou em soluços.
O Antonico passou uma tarde e uma noite de angústia.
Na manhã seguinte o seu primeiro desejo foi voltar à casa; mas não teve
coragem; via o rosto colérico da mãe, faces contraídas, lábios adelgaçados
pelo ódio, narinas dilatadas, o olho direito saliente, a penetrar-lhe até o
fundo
do coração, o olho esquerdo arrepanhado, murcho - e sujo de pus; via a
sua atitude altiva, o seu dedo ossudo, de falanges salientes, apontando-lhe
com energia a porta da rua; sentia-lhe ainda o som cavernoso da voz, e o
grande fôlego que ela tomara para dizer as verdadeiras e amargas palavras que
lhe atirara no rosto; via toda a cena da véspera e não se animava a arrostar com o perigo de outra semelhante.
Providencialmente, lembrou-se da madrinha, única amiga da caolha,
mas que, entretanto, raramente a procurava.
Foi pedir-lhe que interviesse, e contou-lhe sinceramente tudo que
houvera.
A madrinha escutou-o comovida; depois disse:
- Eu previa isso mesmo, quando aconselhava tua mãe a que te dissesse
a verdade inteira; ela não quis, aí está!
- Que verdade, madrinha?
- Hei de dizer-te perto dela; anda, vamos lá!
Encontraram a caolha a tirar umas nódoas do fraque do filho - queria
mandar-lhe a roupa limpinha. A infeliz arrependera-se das palavras que
dissera e tinha passado toda a noite à janela, esperando que o Antonico
voltasse ou passasse apenas... Via o porvir negro e vazio e já se queixava
de
si! Quando a amiga e o filho entraram, ela ficou imóvel: a surpresa e a alegria
amarraram-lhe toda a ação.
A madrinha do Antonico começou logo:
- O teu rapaz foi suplicar-me que te viesse pedir perdão pelo que houve
aqui ontem e eu aproveito a ocasião para, à tua vista, contar-lhe o que já
deverias ter-lhe dito!
- Cala-te! - murmurou com voz apagada a caolha.
- Não me calo! Essa pieguice é que te tem prejudicado! Olha! rapaz,
quem cegou tua mãe foste tu!
O afilhado tornou-se lívido; e ela concluiu:
- Ah, não tiveste culpa! eras muito pequeno quando, um dia, ao
almoço, levantaste na mãozinha um garfo; ela estava distraída, e antes que
eu pudesse evitar a catástrofe, tu enterraste-lho pelo olho esquerdo! Ainda
tenho no ouvido o grito de dor que ela deu!
O Antonico caiu pesadamente de bruços, com um desmaio; a mãe
acercou-se rapidamente dele, murmurando trêmula:
- Pobre filho! vês? era por isto que eu não lhe queria dizer nada!
*
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