sábado, 23 de junho de 2012

A nova dimensão do escritor Jeffrey Curtam Marina Colasanti



Quando o coágulo de sangue explodiu na cabeça de Jeffrey Curtam, algo
nele foi cortado, como uma mangueira ou um caule. E o seu pensamento
viu-se subitamente decepado do corpo.
Sem espanto, porque a dor lancinante não teve sequer o tempo de
traduzir-se em grito antes que aquela estranha guilhotina o truncasse na boca.
Passado isso, nada mais havia a não ser a nova dimensão.
- O Dr. Jewett acha que não há esperança - repetia a enfermeira em
voz baixa, aos eventuais visitantes. - O Sr. Curtam poderá viver
indefinidamente, mas não tornará a ver. Nem se mexerá, nem pensará. Apenas
respirará.
De fato, Jeffrey respirava. Os pulmões, egoisticamente alheios à situação
do restante do corpo, continuavam exercendo sua tarefa com a mesma
fiel regularidade com que durante tantos anos lhe haviam fornecido aquele
ar indispensável para que se levantasse a cada manhã, e a cada manhã se
barbeasse dando a partida para mais um dia, que haveria de catapultá-lo da
mesa de refeições para a mesa de trabalho, diante da máquina de escrever e
dos contos que produzia para alimentar o próprio corpo, e com ele os
próprios pulmões encarregados de fornecer aquele ar indispensável para.
Jeffrey teria ficado orgulhoso dos seus pulmões, se apenas se desse conta
de que funcionavam, ou sequer de que os tinha. Mas, apesar do corpo de
Jeffrey continuar possuindo pulmões e outros órgãos em perfeito estado
de
funcionamento, seu cérebro os desconhecia e comportava-se como se deles
não necessitasse. Assim como não necessitava da visão ou da audição.
Cortadas as ligações que o haviam ancorado ao resto do corpo, o cérebro
de Jeffrey Curtam não dava mais ordens. E os médicos, enganados pelo
silêncio dessa voz de comando, haviam decretado sua morte, entretanto,
emparedado na caixa craniana cujos orifícios a ruptura havia vedado com
sangue espesso como chumbo, o cérebro pensava.
Talvez fosse mais correto dizer que luzia. Pois nada do que havia vivido
até então se assemelhava à luz límpida e pura por ele agora gerada na óssea
escuridão da sua caverna. Jeffrey Curtam havia-se livrado para sempre da
escravidão da coerência. Sua mente, solta, tudo se permitia, tudo realizava.
Aos poucos, a camada de pintura branca que cobria a casa de Jeffrey
entrou em entendimento definitivo com o sol e com a chuva, fundindo sua
obediência a ambos numa única tonalidade cinzenta, que somente sob as
calhas permitia-se escurecer. Começou a descascar. Enormes escamas
quebradiças abriam-se feito conchas na velha superfície, entregando a madeira
ao tempo, sem que pérola rolasse.
Crescia a grama ao redor, manchada aqui e acolá pelas lascas mais frágeis
que em constante outono desprendiam-se das paredes e caíam volteando,
enquanto na imobilidade do corpo de Jeffrey, outro movimento se processava.
Vinda dos pés - ou seria da nuca? - a paralisia que já lhe havia tomado
os membros rastejava por dentro, buscando alcançar-lhe o coração.
Na cidadezinha, todos se referiam a ele como se já estivesse morto.
E todas as manhãs, sua mulher o barbeava e lavava, mudando-o, ela
mesma, da cama para a cadeira e da cadeira para a cama, falando-lhe como
se fala a um cão amigo, embora sem ter sequer a esperança da resposta ou
reconhecimento de que um cão é capaz. Nada lhe vinha daquele corpo, além
do hábito.
Mas Roxanne falava sem esforço, com a mesma doçura dos primeiros
dias, evitando perguntar-se se o fazia para evitar seu próprio silêncio ou
se
para preencher com suas palavras o silêncio que dele parecia emanar.
Sem que ela pudesse ouvir, por trás dos cabelos ralos e quase brancos,
por trás da pele apergaminhada, por trás da espessa barreira dos ossos, um
silêncio cheio de sons e palavras tecia sua sinfonia no cérebro de Jeffrey.
Nunca mais ele havia precisado se expressar de forma audível ou legível.
Nunca mais ele havia pensado para outros. Pensando só para si, seguia o fio
sinuoso e inquebrável dos seus desejos, deixando-se escorrer por ele como
em água, sem saltos ou fraturas. A fabulação, que havia sido sua forma de
viver, tornava-se sua vida. E ali deitado, imóvel, Jeffrey criava e costurava,
uma após a outra, as imagens da longa narrativa.
Um neurologista - fama convocada para validar o que vários outros
já haviam afirmado - tentou convencer Roxanne de que era inútil dispensar
tamanho cuidado ao enfermo. "Se Jeffrey tivesse consciência do seu estado",
disse em voz autoritariamente piedosa, "desejaria morrer. Desejaria
libertar-se
da prisão do próprio corpo.
Mas Jeffrey não desejava morrer. Assim como não desejava livrar-se do
próprio corpo. Esse corpo que, sem movimentos, atrofiava-se aos poucos
sobre a cama, não lhe era prisão. Nem lhe fazia falta. Antes, havia sido
necessário ocupar-se dele, vigiar seus alarmas, suas dores, seus sintomas,
lutar
diariamente para atender sua fome inesgotável, protegê-lo. Antes havia sido
imperioso servi-lo, e às suas exigências. Talvez então lhe fosse mais prisão
do
que agora, quando, impedido o contato entre o pensamento e suas carnes,
eram elas que o serviam.
De alguma forma, poderia-se dizer que Jeffrey não tinha consciência
do seu estado. Mas isso, não porque estivesse impedido de percebê-lo. E sim
porque, na longa travessia na qual seu pensamento estava empenhado, o fato
de não falar ou mover-se parecia tão menor que se via excluído.
Jamais, olhando o vivo cadáver do marido, suspeitaria Roxanne da
intensa movimentação que o habitava. Sem gesto que o cansasse, Jeffrey não
dormia, seu estado era um só. E nesse estado, de absoluta entrega e absoluta
atenção, ele mudava de tempo e de país, dialogava com os vivos e agia com
os mortos, dançava como nunca havia dançado, cavalgava, respirava no
fundo da água, e voava, voava.
Longas vezes, enfastiado talvez da tanta agitação, o cérebro de Jeffrey
deixava-se ficar, girando apenas ao redor de um pensamento, envolvendo-o
nos fios prateados das suas idéias, aprumando-lhe as formas e o sentido, até
ve-lo crescer, tão intenso como se a vida não lhe tivesse sido dada ali, mas apenas explodisse naquele momento, carga milenar que desde sempre trazia
consigo. Erguiam-se então na pálida atmosfera do quarto as invisíveis torres,
e os sinos badalavam ensurdecedores no cérebro de Jeffrey. Sem que seu som
cortasse o ar pesado do cheiro de remédios.
Os anos haviam devorado o seguro de Jeffrey. Roxanne fora obrigada
a vender uma parte da terra atrás da casa, depois a abrir mão de uma faixa
de jardim à direita. Uma hipoteca tornara-se inevitável.
E no entanto, como nos primeiros dias, quando a doença se manifestara
e ainda parecia possível reverter o destino, ela continuava a amar o marido.
Amava, em verdade, aquele homem que havia antes, e que ela teimava
em sobrepor a esta pálida coisa cada dia menor e mais leve, coisa quase
humana que ainda transportava da cama para a cadeira e da cadeira para a
cama, como se carregasse um fardo ou um feto.
- Que mais posso eu fazer? - perguntava-se puxando de leve as
cortinas, não fosse o sol bater sobre o pobre rosto que, único movimento
perceptível, parecia voltar-se sempre em direção à luz.
Uma luz quente derramava-se sobre as imagens dos pensamentos de
Jeffrey, naquela tarde em que, pela primeira vez depois de tanto tempo, sentiu
que seu corpo o chamava. Desobstruíam-se os ouvidos, sons alheios aos seus
lhe chegavam como ruído de cachoeira, ou vento, ou cantoria. As placas
ósseas da sua fronte, as maçãs do seu rosto abriam-se como batentes
empurrados por dentro e o sol, com intensidade nunca antes alcançada, vinha
expulsá-lo da caverna.
O fio do pensamento de Jeffrey lançou-se para aquela luz.
Roxanne, que cochilava na cadeira ao pé da cama, acordou sobressaltada.
Estendeu a mão para tocar o marido. Não foi preciso. Antes mesmo
de olhá-lo, soube que estava sozinha na casa. Recolheu a mão ao colo,
segurou-a com a outra, e deixou-se ficar. O sol se pôs. O perfume dos lilases
pareceu enlouquecer as cigarras, o coaxar das rãs pairou sobre o peitoril da
janela.
Só então Roxanne levantou-se.