terça-feira, 14 de agosto de 2012

O peru de Natal Mário de Andrade


 (O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida

cinco meses antes, foi de conseqüências decisivas para a felicidade
familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito
abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas
nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza
cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, duma exemplaridade
incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da
vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.
Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal,
eu já estava que não podia mais pra afastar aquela memória
obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação
de uma lembrança dolorosa em cada gesto mínimo da família. Uma vez que
eu sugerira à mamãe a idéia dela ir ver uma fita no cinema, o que resultou
foram lágrimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A dor já estava sendo cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.  Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a ideia de fazer uma das minhas chamadas “loucuras”. Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde o beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável de tia; e principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei, duma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de “louco”. “É doido, coitado!” falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que convencem de alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada.

Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se

imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo.
Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por
causa dos quebra-nozes...), empanturrados de castanhas e monotonias, a
gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas “loucuras - Bom, no Natal, quero comer peru.
Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia
solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar
ninguém por causa do luto.
- Mas quem falou de convidar ninguém! Essa mania... Quando é que
a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa, vem
toda essa parentada do diabo...
- Meu filho, não fale assim...
- Pois falo, pronto!
E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita,
diz-que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o
momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a
ocasião. Me deu de sopetão uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas
duas mães, três com minha irmã, as três mães que sempre me divinizaram a
vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados
pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos
doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da vida senão trabalhar,
trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e inda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir.  As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia inda provavam um naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.  Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas.
E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha,
com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. é certo que com meus “gostos”, já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.
Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos,
num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que
sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que
estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de
mim a... culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como
pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:
- É louco mesmo!...
Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado: assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos também, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem - Não senhora, corte inteiro! só eu como tudo isso!  Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós, redescobria em cada um o que a cotidianidade abafara por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe mas estou pensando em Jesus... Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas.
- Eu que sirvo!
“Ë louco, mesmo!” pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira
naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim
e principiei uma distribuição heroica, enquanto mandava meu mano servir a
cerveja. Tomei conta logo dum pedaço admirável da “casca”, cheio de gordura
e pus no prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou
o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:
- Se lembre de seus manos, Juca! Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela,
da Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.
- Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!  Foi quando ela não pôde mais com tanta comoção e principiou chorando. Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não chorar também, tinha dezenove anos... Diabo de família besta que via peru e chorava! coisas assim. Todos se esforçavam por sorrir, mas agora é que a alegria se tornara impossível. Ë que o pranto evocara por associação a imagem indesejável de meu pai morto.  Meu pai, com sua figura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso Natal.
Fiquei danado.
Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade. E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.
Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru a imagem de papai cresceu vitoriosa, Insuportavelmente obstruidora.
- Só falta seu pai...
Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político. Naquele Instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:
- É mesmo... Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente... (hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família.
E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu. Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre se sacrificara por nós, fora um santo que “vocês, meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a seu pai”, um santo. Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.
Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever “felicidade gustativa”, mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.

Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia

lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!
A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor...
Depois vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o
nome de “bem-casados”. Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à
lembrança de meu pai, que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa,
em culto puro de contemplação.
Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por
duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco
importa, porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose, católica
antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha. Pra poder
sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e pisquei pra
ela,
modo de contar onde é que ia e fazê-la sofrer seu bocado. As outras duas
mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!...
- Villa Rica Editoras Reunidas LTDA.
Nhola dos Anjos e a cheia do Corumbá
Bernardo Elis
- Fio, fais um zóio de boi lá fora pra nóis.
O menino saiu do rancho com um baixeiro na cabeça, e no terreiro, debaixo da chuva miúda e continuada, enfincou o calcanhar na lama, rodou sobre ele o pé, riscando com o dedão uma circunferência no chão mole - outra e mais outra. Três círculos entrelaçados, cujos centros formavam um triângulo equilátero.
Isto era simpatia para fazer estiar. E o menino voltou:
- Pronto, vó.
- O rio já encheu mais? - perguntou ela.
Chi, tá um mar d’água! Qué vê, espia, - e apontou com o dedo para fora do rancho. A velha foi até a porta e lançou a vista. Para todo lado havia água. Somente para o sul, para a várzea, é que estava mais enxuto, pois o braço do rio aí era pequeno. A velha voltou para dentro, arrastando-se pelo chão, feito um cachorro, cadela, aliás: era entrevada. Havia vinte anos apanhara um “ar de estupor” e desde então nunca mais se valera das pernas, que murcharam e se estorceram.
Começou a escurecer nevroticamente. Uma noite que vinha vagarosamente, irremediavelmente, como o progresso de uma doença fatal.  O Quelemente, filho da velha, entrou. Estava ensopadinho da silva.  Dependurou numa forquilha a caroça, - que é a maneira mais analfabeta de se esconder da chuva, - tirou a camisa molhada do corpo e se agachou na beira da fornalha.
- Mãe, o vau tá que tá sumino a gente. Este ano mesmo, se Deus ajudá, nóis se muda.
Onde ele se agachou, estava agora uma lagoa, da água escorrida da calça de algodão grosso.
A velha trouxe-lhe um prato de folha e ele começou a tirar, com a colher de pau, o feijão quente da panela de barro. Era um feijão brancacento, cascudo, cozido sem gordura. Derrubou farinha de mandioca em cima, mexeu e pôs-se a fazer grandes capitães com a mão, com que entrouxava a bocarra.
Agora a gente só ouvia o ronco do rio lá embaixo - ronco confuso, rouco, ora mais forte, ora mais fraco, como se fosse um zunzum subterrâneo.
A calça de algodão cru do roceiro fumegava ante o calor da fornalha,
como se pegasse fogo. Já tinha pra mais de oitenta anos que os dos Anjos moravam ali na foz do
Capivari no Corumbá. O rancho se erguia num morrote a cavaleiro de terrenos
baixos e paludosos. A casa ficava num triângulo, de que dois lados eram formados
por rios, e o terceiro, por uma vargem de buritis. Nos tempos de cheias os
habitantes ficavam ilhados, mas a passagem da várzea era rasa e podia-se vadear
perfeitamente.
No tempo da guerra do Lopes, ou antes ainda, o avô de Quelemente veio de Minas e montou ali sua fazenda de gado, pois a formação geográfica construíra um excelente apartador. O gado, porém, quando o velho morreu, já estava quase extinto pelas ervas daninhas. Daí para cá foi a decadência.  No lugar da casa de telhas, que ruiu, ergueram um rancho de palhas. A erva se incumbiu de arrasar o resto do gado e as febres as pessoas.  “- Este ano, se Deus ajudá, nóis se muda.” Há quarenta anos a velha Nhola vinha ouvindo aquela conversa fiada. A princípio fora seu marido:
“- Nóis precisa de mudá, pruquê senão a água leva nóis”. Ele morreu de maleita e os outros continuaram no lugar. Depois era o filho que falava assim, mas nunca se mudara. Casara-se ali: tivera um filho; a mulher dele, nora de Nhola, morreu de maleita. E ainda continuaram no mesmo lugar: a velha Nhola, o filho Quelemente e o neto, um biruzinho sempre perrengado.  A chuva caía meticulosamente, sem pressa de cessar. A palha do rancho porejava água, fedia a podre, derrubando dentro da casa uma infinidade de bichos que a sua podridão gerava. Ratos, sapos, baratas, grilos, aranhas, - o diabo refugiava-se ali dentro, fugindo à inundação, que aos poucos ia galgando a perambeira do morrote.
Quelemente saiu ao terreiro e olhou a noite. Não havia céu, não havia horizonte - era aquela coisa confusa, translúcida e pegajosa. Clareava as trevas o branco leitoso das águas que cercavam o rancho. Ali pras bandas da vargem é que ainda se divisava o vulto negro e mal recortado do mato. Nem uma estrela. Nem um pirilampo. Nem um relâmpago. A noite era feito um grande cadáver, de olhos abertos e embaciados. Os gritos friorentos das marrecas povoavam de terror o ronco medonho da cheia.  No canto escuro do quarto, o pito da velha Nhola acendia-se e apagava-se sinistramente, alumiando seu rosto macilento e fuxicado.  - Ocê bota a gente hoje em riba do jirau, viu? - pediu ela ao filho.  - Com essa chuveira de dilúvio, tudo quanto é mundice entra pro rancho e eu num quero drumi no chão não.
Ela receava a baita cascavel que inda agorinha atravessara a cozinha numa intimidade pachorrenta.
Quelemente sentiu um frio ruim no lombo. Ele dormia com a roupa ensopada, mas aquele frio que estava sentindo era diferente. Foi puxar o baixeiro e nisto esbarrou com água. Pulou do jirau no chão e a água subiu-lhe ao umbigo. Sentiu um aperto no coração e uma tonteira enjoada. O rancho estava viscosamente iluminado pelo reflexo do líquido. Uma luz cansada e incômoda, que não permitia divisar os contornos das coisas. Dirigiu-se ao jirau da velha. Ela estava agachada sobre ele, com um brilho aziago no olhar.
Lá fora o barulhão confuso, subterrâneo, sublinhado pelo uivo de um cachorro.
- Adonde será que tá o chulinho?
Foi quando uma parede do rancho começou a desmoronar. Os torrões
de barro do pau-a-pique se desprendiam dos amarrilhos de embiras e caíam
nágua com um barulhinho brincalhão - tchibungue - tibungue. De
repente, foi-se todo o pano de parede. As águas agitadas vieram banhar as
pernas inúteis de mãe Nhola:
- Nossa Senhora d’Abadia do Muquém!
- Meu Divino Padre Eterno!
O menino chorava aos berros, tratando de subir pelos ombros da estuporada e alcançar o teto. Dentro da casa, boiavam pedaços de madeira,
cujas, coités, trapos e a superfície do líquido tinha umas contorsões diabólicas de espasmos epiléticos, entre as espumas alvas.
- Cá, nego, cá, nego - Nhola chamou o chulinho que vinha nadando pelo quarto, soprando a água. O animal subiu ao jirau e sacudiu o pêlo molhado, trêmulo, e começou a lamber a cara do menino.  O teto agora começava a desabar, estralando, arriando as pathas no rio, com um vagar irritante, com uma calma perversa de suplício. Pelo vão da parede desconjuntada podia-se ver o lençol branco, - que se diluía na cortina diáfana, leitosa do espaço repleto de chuva, - e que arrastava as palhas, as taquaras da parede, os detritos da habitação. Tudo isso descia em longa fila, aos mansos boléus das ondas, ora valsando em torvelinhos, ora parando nos remansos enganadores. A porta do rancho também ia descendo.  Era feita de paus de buritis amarrados por embiras.  Quelemente nadou, apanhou-a, colocou em cima a mãe e o filho, tirou do teto uma ripa mais comprida para servir de varejão, e lá se foram derivando, nessa jangada improvisada.
- E o chulinho? - perguntou o menino, mas a única resposta foi mesmo o uivo do cachorro.
Quelemente tentava atirar a jangada para a vargem, a fim de alcançar
as árvores. A embarcação mantinha-se a coisa de dois dedos acima da
superfície das águas, mas sustinha satisfatoriamente a carga. O que era preciso
era alcançar a vargem, agarrar-se aos galhos das árvores, sair por esse único ponto mais próximo e mais seguro. Daí em diante o rio pegava a estreitar-se entre barrancos atacados, até cair na cachoeira. Era preciso evitar essa passagem, fugir dela. Ainda se se tivesse certeza de que a enchente houvesse passado acima do barranco e extravasado pela campina adjacente a ele, podia-se salvar por ali. Do contrário, depois de cair no canal, o jeito era mesmo espatifar-se na cachoeira.
- É o mato? - perguntou engasgadamente Nhola, cujos olhos de pua furavam o breu da noite.
Sim. O mato se aproximava, discerniam-se sobre o líquido grandes manchas, sonambulicamente pesadas, emergindo do insondável - deviam ser as copas das árvores. De súbito, porém, a sirga não alcançou mais o fundo.
A correnteza pegou a jangada de chofre, fê-la tornear rapidamente e arrebatou-a
no lombo espumarento. As três pessoas agarraram-se freneticamente aos buritis,
mas um tronco de árvore que derivava chocou-se com a embarcação, que agora corria na garupa da correnteza.  Quelemente viu a velha cair nágua, com o choque, mas não pôde nem mover-se: procurava, por milhares de cálculos, escapar à cachoeira, cujo rugido se aproximava de uma maneira desesperadora. Investigava a treva, tentando enxergar os barrancos altos daquele ponto do curso. Esforçava-se para identificar o local e atinar com um meio capaz de os salvar daquele estrugir encapetado da cachoeira.
A velha debatia-se, presa ainda à jangada por uma mão, despendendo esforços impossíveis por subir novamente para os buritis. Nisso Quelemente notou que a jangada já não suportava três pessoas. O choque com o tronco de árvore havia arrebentado os atilhos e metade dos buritis havia-se desligado e rodado. A velha não podia subir, sob pena de irem todos para o fundo. Ali já não cabia ninguém. Era o rio que reclamava uma vítima.
As águas roncavam e cambalhotavam espumejantes na noite escura que
cegava os olhos, varrida de um vento frio e sibilante. A nado, não havia força
capaz de romper a correnteza nesse ponto. Mas a velha tentava energicamente
trepar novamente para os buritis, arrastando as pernas mortas que as águas
metiam por baixo da jangada. Quelemente notou que aquele esforço da velha
estava fazendo a embarcação perder a estabilidade. Ela já estava quase abaixo das águas. A velha não podia subir. Não podia. Era a morte que chegava,
abraçando Quelemente com o manto líquido das águas sem fim. Tapando a sua respiração, tapando seus ouvidos, seus olhos, enchendo sua boca de água, sufocando-o, sufocando-o, apertando sua garganta. Matando seu filho, que era perrengue e estava grudado nele.
Quelemente segurou-se bem aos buritis e atirou um coice valente na
cara aflissurada da velha Nhola. Ela afundou-se para tornar a aparecer, presa
ainda à borda da jangada, os olhos fuzilando numa expressão de incompreensão
e terror espantado. Novo coice melhor aplicado e um tufo d’água espirrou
no escuro. Aquele último coice, entretanto, desequilibrou a jangada, que
fugiu das mãos de Quelemente, desamparando-o no meio do rio.
Ao cair, porém, sem querer, ele sentiu sob seus pés o chão seguro. Ali
era um lugar raso. Devia ser a campina adjacente ao barranco. Era raso. O
diabo da correnteza, porém, o arrastava, de tão forte. A mãe, se tivesse pernas
vivas, certamente teria tomado pé, estaria salva. Suas pernas, entretanto, eram uns molambos sem governo, um estorvo.
Ah! se ele soubesse que aquilo era raso, não teria dado dois coices na
cara da velha, não teria matado uma entrevada que queria subir para a jangada
num lugar raso, onde ninguém se afogaria se a jangada afundasse...
Mas quem sabe ela estava ali, com as unhas metidas no chão, as pernas
escorrendo ao longo do rio?
Quem sabe ela não tinha rodado? Não tinha caído na cachoeira, cujo
ronco escurecia mais ainda a treva?
- Mãe, ô, mãe!
- Mãe, a senhora tá aí?
E as águas escachoantes, rugindo, espumejando, refletindo cinicamente
a treva do céu parado, do céu defunto, do céu entrevado, estuporado.
- Mãe, ô, mãe! Eu num sabia que era raso.
- Espera aí, mãe!
O barulho do rio ora crescia, ora morria e Quelemente foi-se metendo
por ele a dentro. A água barrenta e furiosa tinha vozes de pesadelo, resmungo
de fantasmas, timbres de mãe ninando filhos doentes, uivos ásperos de cães
danados. Abriam-se estranhas gargantas resfolegantes nos torvelinhos malucos
e as espumas de noivado ficavam boiando por cima, como flores sobre túmulos.
- Mãe! - lá se foi Quelemente, gritando dentro da noite, até que a água lhe encheu a boca aberta, lhe tapou o nariz, lhe encheu os olhos arregalados, lhe entupiu os ouvidos abertos à voz da mãe que não respondia, e foi deixá-lo, empazinado, nalgum perau distante, abaixo da cachoeira.