Subitamente, não sabia mais como se ata o nó da gravata. Era como se enfrentasse uma tarefa desconhecida, com que nunca tinha tido qualquer familiaridade. Recomeçou do princípio. Uma vez, outra vez — e nada. Suspirou com desânimo e olhou atento aquele pedaço de pano dependurado no seu pescoço. Vagarosamente, tentou dar a primeira volta — e de novo parou, o gesto sem seqüência. Viu-se no espelho, rugas e suor na testa: a mão esquerda era a direita, a mão direita era a esquerda. — Vou descendo — anunciou a mulher, impaciente. — Escuta — disse ele forçando o tom de brincadeira. — Como é que se dá mesmo nó em gravata? — Engraçadinho — e a mulher saiu sem olhá-lo. Quanto tempo durou aquela hesitação? Essa coisa familiar, corriqueira, cotidiana — dar o nó na gravata. Uns poucos segundos, um minuto, dois minutos ou mais? O tempo da ansiedade, não o do relógio. Não fazia calor, e nas costas das suas mãos começou a porejar um suor incômodo. Assim como surgiu, na mesma vertigem, passou: logo suas mãos inconscientes se organizaram e, independentes, sem comando, ataram a gravata e o puseram em condições de, irrepreensivelmente vestido, sair de casa. Ia a um jantar. Estimulado pelo uísque, desejoso de atrair a atenção dos circunstantes, ocorreu-lhe, no meio da conversa, contar o pequeno incidente pitoresco: — Agora mesmo, em casa. Ao me vestir. Esqueci como é que se dá o nó da gravata. E antes que despertasse qualquer curiosidade, uma chave se torceu dentro dele. O fato insignificante deixou de ser engraçado. Uma aflição mordeu-o no íntimo. Como uma luz que se apaga. Uma advertência. Um sinal que anuncia, que espreita e ameaça. — Essa é boa — curioso ou simplesmente gentil, um dos ouvintes procurou estimulá-lo. Mas o ter esquecido como se dá o nó da gravata já não era apenas um incidente pitoresco. Disfarçou o próprio desconforto e, grave, interditado, sentiu a língua travada, como se esquecer como é que se ata a gravata fosse logicamente sucedido da incapacidade de contar. Apenas um lapso, que pode acontecer com qualquer um. Tolice sem importância. E nem se lembrou mais, até que dias depois, achando graça, a mulher tirou-o da dificuldade: atou por ele a gravata desfeita na sua mão. Uma terceira vez ocorreu dois dias depois. "Estou ficando gagá", pensou, entre divertido e irritado. Retirou-se do espelho e procurou com calma recuperar a inocência perdida. Pois era como ter perdido a inocência, de súbito autoconsciente. Mas logo esqueceu e saiu para a rua, como todo dia. Pegou o carro e, autômato, foi até o edifício do escritório. Estava na fila do elevador, quando deu acordo de si. Era o terceiro da fila. Bem disposto, recém-banhado, cheirando à nova loção de barba, o estômago nutrido pelo recente café da manhã, olhava com magnanimidade o dia que o esperava, o mundo em torno. Pulsava nas suas veias sãs uma suculenta harmonia. Presente tranqüilo, futuro próspero. Confiava em si, confiava na vida. Só o elevador demorava mais do que de costume, pequeno borrão na manhã alegre e amiga. Não fazia sentido aquela demora que, de repente, perturbou-o como um cisco no olho. Agarrado à pasta como se temesse perdê-la, verificou que o elevador continuava parado no sétimo andar, exatamente o do seu escritório. Queria não pensar em nada, apenas esperar como todo mundo, mas via com nitidez, como se estivesse de corpo presente no sétimo andar, um contínuo fardado a segurar a porta do elevador que se abria e se fechava por meio de uma célula fotoelétrica. Dois homens tentavam a custo enfiar dentro do carro uma mesa de escritório. Era a sua mesa, mas muito maior. Seus papéis pessoais, sua caneta, as gavetas devassadas. Fechou os olhos, meio tonto, reabriu-os. A fila crescia, ninguém conhecido. Olhou a nuca do homem à sua frente: toutiço sólido, de cinqüentão próspero. Jurava que agora o elevador vinha descendo. Quis certificar-se e deu com a luzinha sempre acesa no sétimo andar. Outra vez, como se a tudo assistisse, viu o contínuo segurando a porta do elevador e dois homens de macacão tentando irritadamente encaixar lá dentro a mesa enorme. Na fila, ninguém dava mostra de impaciência. A rua ao sol lá fora — gente e carros passando — movimentava-se como todo dia. Pouco adiante, matinal, recém-florido, aparecia um trecho do jardim. Mas o elevador continuava parado no sétimo andar. Retirou o lenço do bolso e, a pasta debaixo do braço, enxugou a fronte e o pescoço. Vinha-lhe de longe um desconforto a princípio moral — como se tivesse cometido uma falta grave que ali mesmo ia ser descoberta. Depois um mal-estar físico, como se tivesse perdido a carteira, alguma coisa que o diminuísse, uma vez desaparecida. Olhou o relógio de pulso, procurou conformar-se, esquecer que esperava. Há quanto tempo esperava o elevador? No sétimo andar, a mesa, a sua mesa, era grande demais para passar pelas portas que o contínuo continuava a imobilizar. Dentro dele, um desejo minucioso de examinar-se. Como costumava fazer quando ia viajar. Arrumar a mala sem esquecer nada, um lenço sequer. Começava pela cabeça: pente, escova, loção. O aparelho de barba. As gravatas, as camisas, as cuecas. Peça por peça, ia passando tudo em revista. Mas naquele momento era como se tivesse esquecido qualquer coisa que não identificava. Que o condenava aos olhos da fila cada vez mais numerosa. Quando a revisão a que se submetia chegou aos pés, ocorreu-lhe que tinha se esquecido de calçar as meias. Tentou sorrir da dúvida disparatada. E queria lembrar-se, ter certeza das suas meias, do momento em que as calçara. Recompunha cada detalhe de tudo que tinha feito desde o momento em que acordara. A barba, o banho de chuveiro, todos os atos, que, automáticos, inauguravam um novo dia, um homem novo. Usava habitualmente só meias cinzas, azuis e pretas. De que cor eram, naquele momento, as suas meias? Um desejo ardente de esticar uma perna, depois a outra, arregaçar as calças e olhar, comprovar. Mas o medo irracional do ridículo, como se toda a fila acompanhasse a sua preocupação e esperasse apenas um gesto de sua parte para vaiá-lo. Sorriu sem sorrir, o sangue estremeceu pela altura do peito até o pescoço. Lá em cima, no sétimo andar, interminável, continuava a luta para meter a imensa mesa no elevador — e era como se estivesse presente, a tudo assistia. A obsessão agarrou-o: de que cor eram as meias, de que cor? As suas meias, as que usava naquele exato momento. De que cor eram? Procurou se lembrar das circunstâncias com que em casa se vestiu, sua rotina, uma cadeia de gestos repetidos inconscientemente. Mas agora precisava lembrar-se: as meias? Tinha vontade de suspender a calça e olhar, mas se continha. Nada o denunciava, um cidadão como outro qualquer, um cavalheiro, impecável, à espera do elevador, que todavia não se deslocava do sétimo andar — a luzinha continuava acesa. E ninguém, na fila aumentando, se impacientava. Como se só a ele coubesse quebrar o silêncio. Todos o observavam. Até que foi invadido pela certeza cruel de que usava meias vermelhas, um grito de sangue na sua indumentária azul. A gravata era azul, podia ver. A camisa era branca. O terno era azul. Mas as meias. As meias berrantemente vermelhas tornavam os seus pés alheios, episcopais. Estava de pé sobre pés estranhos, sapatos quem sabe de fivela e meias cardinalícias. Seriam rubras, eram, podiam ser? Enxugou o suor no rosto, agarrou-se aflito à pasta como se, para existir, para continuar na fila, precisasse dela. A fila silenciosa, irritantemente tranqüila, aguardava um sinal para protestar, começar o motim. A manhã perfeita, luminosa. Lá fora, os carros e as pessoas passando. Mas as meias eram inabsorvíveis. Onde é que fora arranjar aquele par de meias, santo Deus? Ocultas ainda sob as calças, ameaçavam vir a público, denunciá-lo. Agora tinha definitivamente certeza: um escândalo, ridículo, um vermelho-vivo como o sangue fresco de um touro. Súbito, como se tivesse estado distraído, ou dormindo, o elevador escancarou a porta no andar térreo. Sentiu-se paralisado, preso ao chão, incapaz de locomover-se como as pessoas à sua frente, como os que se postavam às suas costas. Procurava, pasmo, os dois homens de macacão, o contínuo uniformizado — e a mesa, a sua mesa. Mas só via o elevador, como sempre, como todos os dias. Foi preciso quase que o empurrassem, as grotescas meias vermelhas, para que ele, morto de vergonha, sem poder olhar os próprios pés, se animasse a entrar no elevador. Saltou no sétimo andar e, por um triz, ia deixando cair a pasta. Trancou-se na sua sala. A mesa, devolvida às dimensões normais, continuava lá, imóvel. Finalmente tomou coragem para verificar. Suspendeu as calças, fixou com espanto as próprias pernas: agora de novo as suas meias eram azuis. E os sapatos voltavam a ser os seus sapatos. Movia-se outra vez com os próprios pés. O telefone o chamava. Foi falar ao telefone. E o dia prosseguiu, na sua confortável rotina. Nem de longe podia pensar em contar para alguém. Não havia o que contar. O tempo passou. Nada fora do comum aconteceu nas semanas seguintes. A não ser um pequeno desmaio da memória: esquecera o nome de um amigo de infância. Teimoso, idéia fixa, passou horas tentando lembrar. Não podia dormir sem que lhe viesse o nome que escapava. Uma falha na cadeia lógica e vulgar das lembranças que cercavam aquele antigo colega de ginásio. Puxando pela memória, reavivou pormenores há muito sepultados pelo tempo. Mas o nome. O nome não lhe ocorria. Sob a língua. Ou na ponta da língua, mas inarticulado, desfeito. Como a gravata, trapo inútil incapaz de organizar-se no nó. Tinha de esquecer que esquecera, para então recuperar, espontâneo, o que com esforço não conseguia arrancar de dentro de si mesmo. Tudo perfeito, alerta, mas um pequeno colapso insistente, inexplicável. Via a cara do companheiro, ouvia-lhe a voz, podia descrevê-lo traço por traço. Mas o nome. O nome por atar. Dormiu frustrado, mais aborrecido do que seria natural diante de lapso tão inexpressivo. — Gumercindo — no meio da noite acordou assustado e tinha na boca, de graça, atado, o nome que em vão perseguira antes de dormir. Amnésias assim, sabia, acontecem a todo mundo. Não chegam a ser tema de conversa. Deu de ombros, não comentou nem com a mulher. Dois ou três dias depois, porém. Numa noite em que se recolheu mais cedo, morto de sono. Fisicamente exausto, atirou-se pesadamente à cama e não conseguia deitar-se a cômodo, como toda noite. — Como é mesmo que eu durmo? — queria saber qual a posição que habitualmente tomava para dormir. A postura que usava no sono, insabida. Probleminha idiota, mas que o desorganizava mentalmente e súbito o lançava numa aflita perplexidade física. Deste lado: não era. Virou-se do outro lado: também não era. Estendeu-se de costas: as mãos sobravam, os braços não se incorporavam à rotina. Como distribuir o corpo na cama? Cruzou os braços no peito e sentiu-se estranho, ridículo. Cruzou as mãos e pareceu sinistro, fúnebre. Era como se antecipasse o defunto que não queria ser. Angustiante idéia da morte. Até que associou o mal-estar com a primeira vez que não soubera dar o nó na gravata. Alguma coisa de comum, um escondido traço unia um episódio ao outro. Nada de particularmente alarmante, só uma ponta de grotesco. Vexame. Ajeitou o travesseiro, a cabeça alta demais. Afastou o travesseiro e enfiou a cara no colchão como se procurasse com alívio uma forma de sufocação. Insustentável, esticou as pernas e dividiu-se em dois. Recolheu as pernas, dobrou os joelhos, mas ainda assim não conseguiu retomar a naturalidade. Buscava um ponto de equilíbrio e não o achava. Seu corpo exigia um prumo inencontrável. De barriga para baixo, a cabeça sobrava, pesava, descomprometida. Não era assim. Nunca foi assim. E o tempo passava; o sono não vinha. Sentado na cama, passou a mão pelos cabelos ralos e procurou controlar-se. Que é que estava acontecendo? Ansiedade sem sentido, tolice. Decidiu recomeçar do princípio e ainda sorriu do próprio embaraço. Tinha a sua graça. Um cidadão morto de sono esquecer como é que costuma dormir. Virou a cabeça para a esquerda. Para a direita. Para a esquerda. Para a direita. A cabeça sobejava mesmo. Num princípio de tonteira, a cabeça cresceu de volume e desprendeu-se do corpo, que agora lhe parecia estranho, como se não fosse dele. Outra vez esticado, recolheu as pernas, dobrou os joelhos na altura da barriga. Enfiou as mãos entre os joelhos, enroscado em si mesmo, fetal. Suportou aquela disciplina por alguns minutos; resistindo ao desejo de se levantar, fugir da cama, do sono, de si mesmo. Vontade de esquecer-se, abandonar o próprio corpo, com que já não se sentia solidário. — Como é mesmo que eu durmo? Como é raios que eu sempre dormi em toda a minha vida? — e não se sentia anatomicamente confortável, como se tivesse perdido uma chave sem qualquer importância — até perdê-la. Como todas as noites, serena, abandonada, sem arquitetura, a mulher dormia ao seu lado. Impensável acordá-la para perguntar como é que ele dormia. Ficaria uma fera com a brincadeira sem graça. Ou ia pensar que estava louco. Pé ante pé, levantou-se no escuro e foi até a copa. Tudo rigorosamente normal. De pé, seu corpo era do tamanho de sempre, articulado. Abriu a geladeira — a luz da geladeira rasgou um cone de claridade na copa — e bebeu sem sede um copo d'água. Só percebeu que estava descalço quando pisou nos ladrilhos do banheiro social. Sem acender a luz, o medo de não se ver no espelho. O medo de não se reconhecer arrepiou-o. Outra cara, infamiliar, ou quem sabe sem cara. Acendeu a luz: afinal era ele mesmo, banalmente. Com alívio, reapertou a calça frouxa do pijama. Saiu do toalete sem apagar a luz e, outra vez na copa, tomou um comprimido para dormir e, com a mão trêmula, levou um copo d'água para o quarto. A mulher dormia tranqüila. Todo mundo dormia. Devagarinho, sem alterar a respiração, meteu-se debaixo dos lençóis, de costas, os olhos fechados. E começou a flutuar no espaço. Abria os olhos, continuava a boiar, mais baixo, mais baixo, até chegar ao nível da cama. Fechava os olhos e o jogo recomeçava. Ora só o corpo, girando circularmente, subindo, descendo. Ora o corpo e com o corpo a cama, rodando depressa, mais depressa. Abria os olhos, parava. Mudou de posição: de bruços, como no seu tempo de criança. A mãe lhe trazia o xarope no meio da noite e lhe recomendava que se deitasse de bruços, para vencer o acesso de tosse. Antigamente. Mas agora o sono não vinha. A ponta do sono, inagarrável. O sono desfeito como um novelo amontoado, sem começo nem fim. Sem nó. Pacientemente, deitou-se do lado direito. Depois do lado esquerdo. Não insistiu na postura: encolheu as pernas, esticou os braços. Um braço recolhido e o outro estendido ao longo do corpo. Não reencontrava a perdida intimidade consigo mesmo. Não sabia mais deitar-se e dormir. Ficou quieto, tentando esquecer, sem pensar. Deflagrada, a insônia recusava-se a apagar dentro dele a sua luz amarela. Desejo de absorver-se, reorganizar-se, pedaço por pedaço. Membro por membro. Reintegrar-se. Esquecer-se para dormir. Recostado contra o travesseiro, meio sentado, a noite tinha ancorado para sempre num porto de fadiga e torpor. Noite longa, lenta, oleosa, de silêncio e vácuo. Um chinelo pendendo do pé. Cochilou na cadeira de balanço, como um agonizante, afinal entregue, que sem convicção espera o amanhecer. Despertou com o corpo dolorido, os pés inchados — na árvore da rua a algazarra dos pardais despertos. O dia clareando, libertou-se da insônia e se meteu na cama até a hora do costume. Dia estafante, devolvido à rotina como se nada demais tivesse acontecido. Só à noite contou o caso, a insônia, para a mulher, que ouviu calada, irrelevante. Mas não contou o que agora lhe parecia absurdo: esquecer-se, como quem perde uma chave, de como deitar-se para dormir. Era um segredo e uma ameaça. E à distância de algumas horas, remoto como uma experiência alheia. Naquela mesma noite levou para o quarto e para a cama o temor de que tudo ia se repetir. Pegou um livro, mas não conseguia prestar atenção à leitura. Ligou o rádio. Demorou-se no banheiro. Entrou e saiu do quarto, cortou aplicadamente as unhas dos pés. Ao espelho, observou as rugas nos cantos dos olhos, o cabelo ralo. Com uma pinça, tirou uns fios mais espessos das sobrancelhas. Espremeu os cravos do nariz e arrancou dois ou três cabelos encravados da barba. Queria afastar a lembrança da véspera. Distrair-se. E dormiu naturalmente, como todo dia. O cotidiano refeito, as noites tranqüilas, repousantes. Até que uma semana depois: — Esqueci como é que eu durmo — disse ansioso à mulher. — Bobagem — ela resmungou, morta de sono. — Minha posição na cama. — Deita e dorme — disse a mulher imperativa, sem olhá-lo. Foi a primeira insônia completa de sua vida. Noite branca, hora a hora, minuto após minuto, segundo por segundo. Virava e revirava-se na cama, esbarrava no mesmo desconforto. A vida deixava de fluir. Uma parada, um branco, uma ausência. A falta de uma ponte. Um elo perdido. Levantava-se, procurava esquecer, desligar-se daquele segredo comprometedor. Ligar as duas pontas do que sempre fora ao que devia continuar sendo, sem interrupção. Fumou cigarro atrás de cigarro. Porque não queria fumar fumava mais. Andava pela casa. Olhava pela janela a rua — a calçada vazia, a árvore, as lâmpadas acesas. Pensou, lembrou, repensou, relembrou. Cruel, a noite vagarosa, a interminável noite ancorada. E a sua pequena desprotegida solidão, palpável, aborrecido plantão para nada. Estar só e acordado o fazia mais só, mais acordado. Velava a si mesmo. Tentou dormir no sofá da sala, mas nem o sofá nem a cama acolhiam naturalmente o seu corpo, o seu sono. Dormir era perder a própria companhia. O dia claro, alto sol, a casa restituída à sua visão familiar, a cozinha e a copa recendendo ao café fresco, fez a barba, tomou banho e saiu. Foi trabalhar — a incomunicável insônia, de que à luz do sol se envergonhava. Era inverossímil. E era preciso guardar o segredo. Como se escondesse um malfeito infantil, sua culpa. — Que é que há com você? — a mulher deu enfim sinal de perceber. — Nada. — Então dorme. O horror de ir para a cama. E a impossibilidade de contar, partilhar sua vergonha. Ficou mais sozinho. Já não era igual a todo mundo. Tinha medo e orgulho — um homem diferente. Sua singularidade ameaçava, mas consolava também. Sentia-se mais próximo de si mesmo. — Por que você não consulta um médico? — a mulher desconfiava. Pequenos derrames imperceptíveis — leu numa revista vagas informações sobre problemas que os neurologistas estudam. Falhas de memória, hiatos convulsivos. Pensou em consultar mesmo um clínico: medir a pressão, o sangue. Mas não gostava de médico e confiava na saúde de ferro. Deixou de preocupar-se com o nó da gravata. Esqueceu a insônia. Ridículo contar a sério que, na hora de dormir, já não sabia como se deitar. Não tinha importância. Uma tarde, ao falar pelo telefone. Era com o sócio, com quem se dava bem, prosperavam. A princípio apenas um mal-estar indefinido. Depois não conseguia se lembrar da cara do sócio. A voz conhecida, a conversa nítida, o riso de sempre, os mesmos cacoetes — mas como era mesmo a sua fisionomia? Desligou o telefone e teve a impressão de que estava pálido. Apertou a cabeça entre as mãos. Fechou e abriu os olhos, pontinhos volantes. Como é a cara dele? Transpirava como se estivesse numa sauna. E aquele vazio: a cara, como era a cara? A cara sonegada, escamoteada como num passe de mágica. Tudo o mais era como de costume, mas a penetrante sensação de aviso o ameaçava. Ansioso sinal, plano inclinado. Trancou-se no banheiro e lavou várias vezes o rosto. Precisava refrescar-se, afogueado. Um frio fogo o queimava. No entanto, refletida no espelho, sua cara normal, até favorecida. Menos rugas, as entradas da testa menos cavadas. Seu definido perfil: era ele mesmo, sem qualquer alteração. Como todo mundo, tinha uma fisionomia pessoal e intransferível. Mas o sócio — como era o sócio? Estúpido vazio. Sabia-se despojado de qualquer coisa essencial e, pela primeira vez, frágil, desprotegido contra o que podia acontecer, teve medo, tremeu de medo. Era um compromisso que não queria aceitar, mas de que não conseguia desvencilhar-se. Precisava apelar para alguém, pedir socorro. Recuar do abismo, mudar de rumo, rejeitar o que podia vir, o que sobrevinha, iminente, incontornável — e não tinha nome, nem configuração. Desligado de tudo, sem interesse pelo trabalho, foi para casa mais cedo. A casa podia protegê-lo. Leu sem pressa o jornal e ligou a televisão. Era um homem normal, um homem como qualquer outro, mas, por trás dos seus gestos, de sua normalidade, um vazio o convocava. Telefonou para a casa do sócio, não o encontrou. Desejo de sair para a rua, ver gente, cada qual com seu perfil. Ver o sócio, recuperá-lo — o que só foi possível no dia seguinte, quando se avistaram no escritório. — Nunca me viu? — por um momento o sócio pareceu estranhar a maneira como ele o fixava. Queria e já não podia contar. E não poder contar o isolava definitivamente, como se, a partir dali, tivesse mudado de lado, passado para a outra margem. Dava adeus ao que vinha sendo, a tudo que era — ao dia-a-dia, aos negócios, ao confortável cotidiano. Mas lutava. Para qualquer nova emergência, não seria apanhado desprevenido. Obsessivamente, arquivava, armazenava traço por traço do sócio, seu rosto de sempre, inesquecível, doravante inescamoteável. Uma tarde muito quente, no escritório, o ar-condicionado ronronando, vinha da rua exaltado, feliz com o resultado de um negócio que há semanas se arrastava, quando precisou telefonar para a mulher. Ao discar — lembrava-se do número, claro — deu por falta de alguma coisa. Um pássaro que de repente levanta vôo, uma paisagem que se oculta por trás de um obstáculo, um perfume que se esvai. Algo que se interrompe, curto-circuito na corrente elétrica. Uma ficha que desaparece. Ao alcance da mão, habitual, mecânico, um objeto que se subtrai — uma caneta, um par de óculos, uma anotação. Do outro lado da linha, na sua casa, o telefone chamava. — Alô — disse ela. Uma leve tonteira, como se levitasse, arrebatou-o. Perplexo, não aceitava o próprio silêncio e, para libertar-se, desligou. Sua mulher, não se lembrava da própria mulher. Seu nome, seu rosto — tudo permanecia a uma distância inatingível. Lá longe existia, não mais ao seu alcance. Entre ele e o que naturalmente sabia, seu patrimônio, um elo partiu-se, treva opaca, ausência. Mecanicamente, tirou a gravata e de pé, como num teste decisivo, refez o laço. Perfeito. Mas sua mulher. Às pressas, sem despedir-se, saiu imediatamente para casa. — Chegou cedo — disse ela. — Alguma coisa? — Dor de cabeça — ele disfarçou e, ao olhá-la, se convenceu do absurdo que era ter esquecido. Sua mulher. Ali estava inteira, com seu rosto, seu nome. Trancou-se no quarto, espichou-se de costas na cama e leu de cabo a rabo o jornal da tarde. Uma incômoda sonolência fechou-lhe os olhos. A noite caiu sem que percebesse. Acendeu a luz da cabeceira e retomou o jornal como se o lesse pela primeira vez. Voltou à primeira página. Lia e relia o mesmo texto, palavra por palavra. Chegava ao fim e era como se não tivesse lido. Lia sem ler, desligado. Queria estranhar, alarmar-se, mas era como se tivesse sido sempre assim. E a certeza de que assim seria sempre, sem volta possível. Deixou cair o jornal no chão e, esticado na cama, sem qualquer protesto, acompanhava com os olhos uma pequena bruxa a cabecear tonta contra o teto. — Que é que você tem? — até que enfim a mulher veio chamá-lo. — Nada — respondeu, e estava perfeitamente em paz, resignado. Brancas paredes despojadas, largo silêncio sem ecos. Desprendera-se de tudo. A longa viagem ia começar, sem rumo, sem susto, para levar a lugar nenhum. Uma mulher acabou de entrar. — Quem sou eu? — ele perguntou num último esforço. E, para sempre dócil, conquistado, nem ao menos quis saber seu nome. ( cem melhores contos brasileiros do século)
terça-feira, 28 de agosto de 2012
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Nossa amiga Carlos Drummond de Andrade
Não é bastante alta para chegar ao botão da campainha.
O peixeiro presta-lhe esse serviço, tocando. Alguém abre.
- Foi a garota que pediu para chamar...
Quando não é algum transeunte austero, senador ou ministro
do Supremo, que atende à sua requisição.
Com pouco, a solução já não lhe satisfaz. Descobre na
porta, a seu alcance, a abertura forrada de metal e coberta por uma tampa
móvel, de matéria idêntica: por ali entram as cartas. Os dedos sacodem a tampa,
desencadeando o necessário e aflitivo rumor. Antes de abrir, perguntam de dentro:
- Quem está aí? Ë de paz ou de guerra?
De fora respondem:
- É Luci Machado da Silva. Abre que eu quero entrar.
Ante a intimação peremptória, franqueia-se o recinto. Entra
uma
coisinha morena, despenteada, às vezes descalça, às vezes
comendo pão com
cocada, mas sempre séria, ar extremamente maduro das meninas
de três anos.
À força de entrar, sair, tornar a entrar minutos depois,
tornar a sair,
lanchar, dormir na primeira poltrona, praticar pequenos atos
domésticos,
dissolveu a noção de residência, se é que não a retificou para
os dicionários
do futuro.
- Qual é a sua casa?
- Esta.
- E a outra de onde você veio?
- Também.
- Quantas casas você tem?
- Esta e aquela.
- De qual você gosta mais?
- Que é que você vai me dar?
- Nada.
- Gosto da outra.
- Tem aqui esta pessegada, esta bananinha...
- Gosto desta casa! Gosto de você!
Não é gulodice nem interesse mesquinho... Será antes prazer de
sentir-se cortejada, mimada. Esquece a merenda para ficar
na sala, de mão na boca, olhando os pés estendidos, enquanto alguém lhe
acarinha os cabelos.
Nem tudo são flores, no espaço entre as duas residências. Há
Catarina
e Pepino.
Catarina foi inventada à pressa, para frustrar certa
depredação iminente.
Os bichos de cristal na mesinha da sala de estar tentavam a
mão viageira.
Pressentia-se o momento em que as formas alongadas e frágeis
se desfariam.
Na parede, esquecida, preta, pousara uma bruxa.
- Não mexa nos bichinhos.
Mexia.
- Não mexa, já disse...
Em vão.
- Você está vendo aquela bruxa ali? É Catarina.
- Que Catarina?
- Uma menina de sua idade, igualzinha a você, talvez até
mais bonita. Muito mexedeira, mas tanto,
tanto! Um dia foi brincar com o cachorrinho de vidro, a mãe não queria que ela
brincasse. Catarina teimou, mexeu e quebrou o cachorrinho. Então, de castigo,
Catarina virou aquela bruxinha preta, horrorosa. Para o resto da vida.
A mão imobiliza-se. A bruxa está presa tanto na parede
como nos olhos fixos, grandes, pensativos. Entre os mitos do mundo (entre os
seres reais?) existe mais um, alado, crepuscular, rebelde e decaído. Pepino tem existência mais positiva. Circula
na rua - a rua é o espaço entre as duas quadras, repleto de surpresas -
geralmente à tarde. Vem bêbado, curvado, expondo em frases incoerentes seus
problemas íntimos. Pegador de crianças.
- Vou embora para minha casa. Você vai me levar.
- Mas você mora tão pertinho...
- E Pepino?
- Pepino não pega ninguém. Ele é camarada.
- Pega, sim. Eu sei.
- Pois eu vou dar uma festa para as crianças desta rua e
convido Pepino.
Você vai ver se ele pega.
- Eu não vou na festa.
- Você é quem perde. Vem Elzinha, Nesinha, Heloísa, Alice,
Maria Helena, Lourdes, Bárbara, Edison, Careca, João e Adão. Pepino vai dançar para
as crianças. Você, como é uma boba, não toma parte. - Até logo!
Sai voando, a porta fecha-se com estrondo. Da varanda, ainda
se vê o
pequeno vulto desgrenhado.
- Espere aí, você não tem medo do Pepino?
- Não. Estou zangada com você.
Com a zanga, desaparece o temor. Seria realmente temor? Gosta
de ser
acompanhada, para dizer à mãe, quando chega em casa:
- Espia quem me trouxe.
Volta meia hora depois, penteada, calçada, vestido limpo.
- Espia minha roupa nova. Meu sapato branco.
- Mas que beleza! Onde você vai?
- Vou na festa.
Para tomar banho e trocar de vestido, é necessário que se
anuncie
sempre uma festa, jamais localizada ou realizada, mas que
opera interiormente
sua fascinação. Não há pressa em ir para ela. A merenda, a
conversa
grave com pessoas grandes, estranhamente preferidas a
quaisquer outras, o
brinquedo personalíssimo com o primeiro encontro do dia - um
carretel,
a galinha que salta do carrinho de feira - fazem esquecer a
festa, se não a
constituem. E resta saber se o enganado não será o adulto, que
sugere terrores
ou recompensas fantasiosas. Nas campinas da imaginação, esse
galope de
formas - será a verdade? Senta-se no corredor, e com uns
panos velhos, lápis vermelho, pedrinha,
qualquer elemento poetizável, representa para si só a imemorial
história
das mães.
- Comadre, seu filhinho como vai?
- Tá bom, comadre, e o seu?
- Tá com dedo machucado e dodói na barriga. Vai tomar injeção.
- Então vou dar no meu também.
Perguntas e respostas, recolhidas em conversas de adulto,
saem da mesma boca inexperiente. O objeto que serve de filho é embalado com seriedade.
A doença existe, existem os sustos maternais. Mas tudo se desfaz, se acaso um
intruso vem surpreender a criação, tirada em partes iguais da vida e do sonho,
e que os prolonga. Assim pudesse a mãe antiga tornar invisível seu filho, ante
os soldados de Herodes.
Marcadores:
cem melhores contos brasileiros do século
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Gringuinho Samuel Rawet
Chorava. Não propriamente o medo da surra em perspectiva,
apesar de roto o uniforme. Nem para isso teria tempo a mãe. Quando muito uns berros
em meio à rotina. Tiraria a roupa; a outra, suja, encontraria no fundo do
armário, para a vadiagem. Ao dobrar a esquina tinha a certeza de que nada faria
hoje. Os pés, como facas alternadas, cortavam o barro de pós-chuva.
A mangueira do terreno baldio onde caçavam gafanhotos,
ou jogavam bola,
tinha pendente a corda do balanço improvisado.
Reconheceu-a. Fora sua e
restara da forte embalagem que os seus trouxeram. Ninguém
na rua. Os
outros decerto não voltaram da escola ou já almoçavam.
Ninguém percebeu-lhe
o choro. A vizinha sorriu ao espantar o gato enlameado da
poltrona da
varanda. Conteve o soluço ao empurrar o portão. Com a manga
esfregava o
rosto marcando faixas de lama na face. Brilhavam ainda da
chuva as folhas
do fícus. Olhou a trepadeira. Novinha, mas já quase passando
a janela. Na
sala hesitou entre a cozinha e o quarto. A mãe, de lenço à
cabeça, estaria
descascando batatas ou moendo carne. Despertara-lhe a
atenção ao lançar os
livros sobre a cômoda. Que trocasse a roupa e fosse buscar
cebolas no
armazém. Nada mais. Nem o rosto enfiara para ver-lhe o ar de
pranto e a
roupa em desalinho. À entrada do quarto surpreendeu o
blá-blá do caçula
que, olhos no teto, tocava uma harpa invisível. Era-lhe
estranha a sala, quase
estranhos, apesar dos meses, os companheiros. Os olhos no
quadro-negro
espremiam-se como se auxiliassem a audição perturbada pela
língua. Autômato,
copiava nomes e algarismos (a estes compreendia),
procurando intuir as frases da professora. As vezes perdia-se em fitá-la.
Dentes incisivos salientes, os cabelos lembrando chapéus de velhas múmias, os
lábios grossos. Outras, rodeava os olhos
pelas paredes carregadas de mapas e figurões.
A janela lembrava-lhe a rua, onde se sentia melhor. Podia
falar pouco. Ouvir.
Nem provas nem argüições. O apelido. Amolava-o a insistência
dos moleques.
Esfregou ante o espelho os olhos empapuçados. Ontem rolara
na vala
com Caetano após discussão. Atrapalhou o jogo. O negrinho
cresceu em sua frente no ímpeto de derrubá-lo.
Gringuinho burro!
Ajeitou sobre a cama o uniforme. A lição não a faria. Voltar
à mesma
escola, sabia impossível também. Por vontade, a nenhuma.
Antigamente,
antes do navio, tinha seu grupo. Verão, encontravam-se na
praça e atravessando
o campo alcançavam o riacho, onde nus podiam mergulhar sem
medo.
À chatura das lições do velho barbudo (de mão farta e
pesada nos tapas e
beliscões) havia o bosque como recompensa. Castanheiros de
frutos espinhentos
e larga sombra, colinas onde o corpo podia rolar até a beira
do
caminho. Framboesas que se colhiam à farta. Cenoura roubada
da plantação
vizinha. A voz da mãe repetia o pedido de cebolas. Coçar de
cabeça sem
vontade. No inverno havia o trenó que se carregava para
montante, o rio
gelado onde a botina ferrada deslizava qual patim. Em casa a
sopa quente de
beterrabas, ou o fumegar de repolhos. Sentava-se no colo
do avô recém-chegado
das orações e repetia com entusiasmo o que aprendera. Onde o
avô?
Gostava do roçar da barba na nuca que lhe fazia cócegas, e
dos contos que
lhe contava ao dormir. Sempre milagres de homens santos.
Sonhava satisfeito
com a eternidade. A voz do avô era rouca, mas boa de se ouvir.
Mais quando
cantava. Os olhos no teto de tábuas, ou acompanhando a
chaminé do fogão,
a melodia atravessava-lhe o sono. Hoje entrara tarde na
sala. Não gostava de
chamar a atenção sobre si, mas teve que ir à mesa explicar
o atraso. Cinqüenta
pares de olhos fixos em seus pés que tremiam. O pedido de
cebolas veio mais forte. Gargalhada maciça em contraponto aos titubeios da
boca, olhos e mãos. A custo conteve as lágrimas quando tomou o lugar. Chorara
assim quando no primeiro sábado saiu de boné com o pai em direção à sinagoga. Caetano, Raul, Zé Paulo, Betinho fizeram coro
ao fim da rua repetindo em estribilho o gringuinho. Suspenso o chocalho deparou
com os olhos do irmão nos seus. Blá-blá. Sorriso mole. Sentara-se. Abrira o
livro na página indicada, tenteando como um cego, para entrar no compasso da
leitura. Nem às figuras se acostumara, nem às histórias estranhas para ele, que
lia aos saltos. Fala gringuinho. Viera de tnis a voz, grossa, de alguém mais
velho. Fala gringuinho. Insistia. Ao girar
o pescoço na descoberta da fonte fora surpreendido pela ordem de leitura. Olhou
os dentes aguçados insinuando-se no lábio inferior como para escapar.
Explicar-lhe? Como? Mudo curvou a cabeça como gato envergonhado por diabrura.
Era-lhe fácil a lágrima. Lembrou um domingo. Enfiou-se pelo pátio com Raul que o chamara à
sua casa. No fundo do quintal cimentado, sob coberta, dispusera os dois times
de botões. Da copa o barulho, ainda, de talheres, fim do ajantarado. Chamaram.
A mãe cortou o melão e separou duas fatias. Raul agradeceu pelos dois. “Ah! é o
gringuinho!” Expelida pelo nariz a fumaça do cigarro, o pai soltara a
exclamação. Quase o sufoca a fruta na boca. Os tios concentraram nele a
atenção. Parecia um bicho encolhido, jururu, paralisado, as duas mãos prendendo
nos lábios a fatia. ‘Fala gringuinho!”Coro. Fala gringuinho. Novamente as vozes
atrás da carteira. Da outra vez correra como acuado em meio a risos. Recolhido
no quarto desabafou no regaço da mãe. Blá-blá. Agitar do chocalho. Um cheiro de
urina despertara-o da modorra. Um fio escorria da fralda no lençol de borracha.
Fala gringuinho. Sentiu-se crescer e tombar para trás a cadeira. Em meio à gritaria a garra da velha
suspendeu-o amarrotando a camisa. Cercado, alguns de pé sobre as mesas,
recolheu-se à mudez expressiva. Da vingança intentada restara a frustração que
se não explica por sabê-la impossível. Blá-blá!
A poça de urina principiava a irritá-lo e após esperneios o irmão arrematou em
choro arrastado. Agitou o chocalho novamente, com indiferença, olho na rua. O
matraqueado aumentara o choro. Não percebeu a entrada da mãe. Sem olhá-lo
recolheu o irmão no embalo. Tirou da gaveta a fralda seca, e entre o ninar e o
gesto de troca passou-lhe a descompostura.
Insistiu no pedido do armazém. Ele tentou surpreender-lhe
o olhar, conquistar a inocência a que tinha direito. Depois gostaria de
cair-lhe ao colo, beijá-la
e contar tudo, na certeza de que lhe seria dada a razão.
Mas nada disso. Recolhendo os níqueis
procurou a porta. Traria as cebolas. E não contaria que, ao ser repreendido na
escola, na impotência de dar razões, quando a velha principiou a amassar-lhe a
palma da mão com a régua negra e elástica, não se conteve e esmurrou-lhe o
peito rasgando o vestido. Quando atravessou o portão acelerou a marcha impelido
pelo desejo de ser homem já. Julgava que correndo apressaria o tempo. Seus pés
saltitavam no cimento molhado, como outrora deslizavam, com as botinas
ferradas, pelo rio gelado no inverno.
Marcadores:
cem melhores contos brasileiros do século
terça-feira, 21 de agosto de 2012
As cores Orígenes Lessa
Maria Alice abandonou o livro onde seus dedos longos liam
uma história de amor. Em seu pequeno mundo de volumes, de
cheiros, de sons, todas aquelas palavras eram a perpétua renovação dos
mistérios em cujo
seio sua imaginação se perdia. Esboçou um sorriso... Sabia
estar só na casa que conhecia tão bem, em seus mínimos detalhes, casa grande de
vários quartos e salas onde se movia livremente, as mãos olhando por ela, o
passo calmo, firme e silencioso, casa cheia de ecos de um mundo não seu, mundo em
que a imagem e a cor pareciam a nota mais viva das outras vidas de ilimitados
horizontes.
Como seria cor e o que seria? Conhecia todas pelos nomes,
dava com elas a cada passo nos seus livros, soavam aos seus ouvidos a todo
momento, verdadeira constante de todas as palestras. Era, com certeza, a nota
marcante de todas as coisas para aqueles cujos olhos viam, aqueles olhos que
tantas vezes palpara com inveja calada e que se fechavam, quando os tocava, sensíveis
como pássaros assustados, palpitantes de vida, sob seus dedos trêmulos, que
diziam ser claros. Que seria o claro, afinal? Algo que aprendera, de há muito,
ser igual ao branco. Branco, o mesmo que alvo, característica de todos os seus,
marca dos amigos da casa, de todos os amigos, algo que os distinguia dos
humildes serviçais da copa e da cozinha, às vezes das entregas do armazém.
Conhecia o negro pela voz, o branco pela maneira de agir ou falar. Seria uma
condição social? Seguramente. Nos primeiros tempos, perguntava. É preto? Ë
branco? Raramente se enganava agora. Já sabia... Nas pessoas, sabia... Às vezes,
pelo olfato, outras, pelo tom de voz, quase sempre pela condição. Embora
algumas vezes - e aquilo a perturbava - encontrasse também a cor social mais
nobre no trato das panelas e na limpeza da casa.
Nas paredes, porém, nos objetos, já não sentia aquelas
cores. E se ouvia
geralmente um tom de desprezo ou de superioridade, quando se
falava no
negro das pessoas, que envolvia sempre a abstração
deprimente da fealdade,
o mesmo negro nos gatos, nos cavalos, nas estatuetas,
vinha sempre conjugado
à idéia de beleza, que ela sabia haver numa sonata de
Beethoven, numa fuga de Bach, numa polonaisede Chopin, na voz de uma cantora,
num gesto de ternura humana.
Que seria a cor, detalhe que fugia aos seus dedos,
escapava ao seu olfato
conhecedor das almas e dos corpos, que o seu ouvido
apurado não aprendia,
e que era vermelho nas cerejas, nos morangos e em certas
gelatinas, mas nada
tinha em comum com o adocicado de outras frutas e se
encontrava também
nos vestidos, nos lábios (seriam os seus vermelhos também e
convidariam ao
beijo, como nos anúncios de rádio?), em certas cortinas,
naquele cinzeiro
áspero da mesinha do centro, em determinadas rosas (e havia
brancas e
amarelas), na pesada poltrona que ficava à direita e onde se
afundava feliz,
para ouvir novelas? Que seria a cor, que definia as coisas e
marcava os
contrastes, e ora agradava, ora desagradava? E como seria o
amarelo, para
alguns padrão de mau gosto, mas que tantas vezes provocava
entusiasmo nos
comentários do mundo onde os olhos viam? E que seria ver?
Era o sentido
certamente que permitia evitar as pancadas, os tropeções,
sair à rua sozinho,
sem apoio de bengala, e aquela inquieta procura de mãos
divinatórias que
tantas vezes falhavam. Era o sentido que permitia encontrar
o bonito, sem
tocar, nos vestidos, nos corpos, nas feições, o bonito,
variedade do belo e
de outras palavras sempre ouvidas e empregadas e que bem
compreendia,
porque o podia sentir na voz e no caráter das pessoas, nas
atitudes e nos gestos
humanos, no Rêve clAmour, que executava ao piano, e em
muita coisa mais...
Ver era saber que um quadro não constava apenas de uma
superfície estranha, áspera e desigual, sem nenhum sentido para o seu mundo
interior, por vezes bonita, ao seu tato, nas molduras, mas que para
os outros figurava casas, ruas, objetos, frutas, peixes, panelas de cobre (tão
gratas aos seus dedos), velhos mendigos, mulheres nuas e, em certos casos,
mesmo para os outros, não dizia nada...
Claro que via muito pelos olhos dos outros. Sabia onde ficavam
as coisas e seria capaz de descrevê-las nos menores detalhes. Conhecia-lhes até
a cor... Se lhe pedissem o cinzeiro
vermelho, iria buscá-lo sem receio. E sabia dizer, quando tocava em Ana
Beatriz, se estava com o vestido bege ou com a blusa lilás. E de tal maneira a
cor flutuava em seus lábios, nas palestras diárias, que para todos os
familiares era como se a visse também. -
Ponha hoje o vestido verde, Ana Beatriz...
Dizia aquilo um pouco para que não dessem conta da sua
inferioridade, mais ainda para não inspirar compaixão. Porque a piedade alheia
a cada passo a torturava e Maria Alice tinha pudor de seu estado. Seria mais
feliz se pudesse estar sempre sozinha como agora, movendo-se como sombra muda
pela casa, certa de não provocar exclamações repentinas de pena, quando se
contundia ou tropeçava nas idas e vindas do cotidiano labor. - Machucou, meu bem?
Doía mais a pergunta. Certa vez a testa sangrava, diante
da família assustada e do remorso de Jorge, que deixara um móvel fora do lugar,
mas teimava em dizer que não fora nada.
E quando insistiam, com visita presente, para que tocasse
piano, era sistemática a recusa.
- Maria Alice é modesta, odeia exibições...
Outro era o motivo. Ela muita vez bem que ardia em desejos
de se refugiar no mundo dos sons, para escapar aos mexericos de toda a gente...
Mas como a remordia a admiração piedosa
dos amigos... As palmas e os louvores vinham sempre cheios de pena e havia
grosserias trágicas em certos entusiasmos, desde o espanto infantil por vê-la
acertar direitinho com as teclas à exclamação maravilhada de alguns:
- Muita gente que enxerga se orgulharia de tocar assim...
Nunca Maria Alice o dissera, mas seu coração tinha
ternuras apenas
para os que não a avisavam de haver uma cadeira na frente
ou não a preveniam
contra a posição do abajur.
- Eu sei... eu já sei...
E como tinha os outros sentidos mais apurados, sempre se
antecipava na descrição das pessoas e coisas. Sabia se era homem ou mulher o
recém- chegado, antes que se pusesse a falar. Pela maneira de pisar, por mil e
uma sutilezas. Sem que lhe dissessem, já sabia se era gordo ou magro, bonito ou
feio. E antes que qualquer outro, lia-lhe o caráter e o temperamento. Àqueles pequeninos
milagres de sua intuição e de sua capacidade de observar, todos estavam
habituados em casa. Por isso lhe falavam sempre em termos de quem via, para
quem via. E nesses termos lhes falava também.
O livro abandonado sobre a mesa, o pensamento de Maria Alice caminhava liberto. Recordava agora o largo tempo que passara
no Instituto, onde a família julgara que lhe seria mais fácil aprender a
ler. Detestava o ambiente de humildade, raramente de revolta, que lá
encontrara. Vivendo em comunidade, sabia facilmente quais os que enxergavam,
sem que nenhum destes se desse conta disso ou dissesse que enxergava. Pela
simples linguagem, pela maneira de agir o sabia. E ali começara a odiar os dois
mundos diferentes, O seu, de humildes e resignados, cônscios de sua inferioridade
humana, o outro, o da piedade e da cor. -
Me dá o cinzeiro vermelho, Maria Alice...
Maria Alice dava. - Vou ao cinema com o vestido claro ou
com aquele estampado, Maria
Alice?
Maria Alice aconselhava.
Ninguém conseguia entender como sabia ela indicar qual o
sapato ou a bolsa que ia melhor com este ou aquele vestido. Quase sempre
acertava. Assim como ninguém sabia que,
com o tempo, Maria Alice fora identificando as cores com sentimentos e coisas.
O branco era como barulho de água de torneira aberta. Cor-de-rosa se confundia
com valsa. Verde, aprendera a identificá-lo com cheiro de árvore. Cinza, com
maciez de veludo. Azul, com serenidade. Diziam que o céu era azul. Que seria o
céu? Um lugar, com certeza. Tinha mil e uma idéias sobre o céu. Deus, anjos,
glória divina, bem-aventurança, hinos e salmos. Hendel. Bach. Mas sabia haver
um outro, material, sobre as pessoas e casas, feito de nuvens, que associava à
idéia do veludo, mais própria do cinza, apesar de insistirem em que o céu era
azul. Aquelas associações materiais, porém,
não a satisfaziam. A cor realmente era o grande mistério. Sentira muitas vezes
que o cinza pertencia a substâncias ásperas ou duras. Que o branco estava no
mármore duro e na folha de papel, leve e flexível. E que o negro estava num
cavalo que relinchava inquieto, com um sopro vigoroso de vida, e na suavidade e
leveza de um vestido de baile, mas era ao mesmo tempo a cor do ódio e da
negação, a marca inexplicável da inferioridade.
E agora Maria Alice voltava outra vez ao Instituto. E ao
grande amigo que lá conhecera. Voltavam as longas horas em que falavam de Bach,
de Beethoven, dos mistérios para eles tão claros da música eterna. Lembrava-se da
ternura daquela voz, da beleza daquela voz. De como se adivinhavam entre
dezenas de outros e suas mãos se encontravam. De como as palavras de amor
tinham irrompido e suas bocas se encontrado... De como um dia seus pais haviam
surgido inesperadamente no Instituto e a haviam levado à sala do diretor e se
haviam queixado da falta de vigilância e moralidade no estabelecimento. E de
como, no momento em que a retiravam e quando ela disse que pretendia se
despedir de um amigo pelo qual tinha grande afeição e com quem se queria casar,
o pai exclamara, horrorizado:
- Você não tem juízo, criatura? Casar-se com um mulato?
Nunca!
Mulato era cor.
Estava longe aquele dia. Estava longe o Instituto, ao qual
não saberia voltar, do qual nunca mais tivera notícia, e do qual somente
restara o privilégio de caminhar sozinha pelo reino dos livros, tão parecido
com a vida dos outros, tão cheio de cores... Um rumor familiar ouviu-se à
porta. Era a volta do cinema. Ana Beatriz ia contar-lhe o filme todo, com
certeza. O rumor - passos e vozes -
encheu a casa.
- Tudo azul? - perguntou Ana Beatriz, entrando na sala.
- Tudo azul - respondeu Maria Alice.
Marcadores:
cem melhores contos brasileiros do século
A máquina extraviada José J. Veiga
Você sempre pergunta pelas novidades daqui deste sertão, e
finalmente
posso lhe contar uma importante. Fique o compadre sabendo
que agora
temos aqui uma máquina imponente, que está entusiasmando
todo o
mundo. Desde que ela chegou - não me lembro quando, não sou
muito
bom em lembrar datas - quase não temos falado em outra
coisa; e da
maneira que o povo aqui se apaixona até pelos assuntos mais
infantis, é de
admirar que ninguém tenha brigado ainda por causa dela, a
não ser os políticos. A máquina chegou uma tarde, quando as famílias estavam
jantando ou acabando de jantar, e foi descarregada na frente da Prefeitura. Com
os gritos dos choferes e seus ajudantes (a máquina veio em dois ou três
caminhões) muita gente cancelou a sobremesa ou o café e foi ver que algazarra
era aquela.
Como geralmente acontece nessas ocasiões, os homens
estavam mal-humorados e
não quiseram dar explicações, esbarravam propositalmente
nos curiosos, pisavam-lhes os pés e não pediam desculpa, jogavam pontas de cordas
sujas de graxa por cima deles, quem não quisesse se sujar ou se machucar que
saísse do caminho.
Descarregadas as várias partes da máquina, foram elas
cobertas com encerados e os homens entraram num botequim do largo para comer e
beber. Muita gente se amontoou na porta
mas ninguém teve coragem de se aproximar dos estranhos porque um deles,
percebendo essa intenção nos curiosos, de vez em quando enchia a boca de
cerveja e esguichava na direção da porta. Atribuímos essa esquiva ao cansaço e
à fome deles e deixamos as tentativas de aproximação para o dia seguinte; mas
quando os procuramos de manhã cedo na pensão, soubemos que eles tinham montado
mais ou menos a máquina durante a noite e viajado de madrugada. A máquina ficou ao relento, sem que ninguém
soubesse quem a encomendou nem para que servia. Ë claro que cada qual dava o
seu palpite, e cada palpite era tão bom quanto outro.
As crianças, que não são de respeitar mistério, como você
sabe, trataram de aproveitar a novidade. Sem pedir licença a ninguém (e a quem
iam pedir?), retiraram a lona e foram subindo em bando pela máquina acima - até
hoje ainda sobem, brincam de esconder entre os cilindros e colunas,
embaraçam-se nos dentes das engrenagens e fazem um berreiro dos diabos até que
apareça alguém para soltá-las; não adiantam ralhos, castigos, pancadas; as
crianças simplesmente se apaixonaram pela tal máquina. Contrariando a opinião de certas pessoas que
não quiseram se entusiasmar, e garantiram que em poucos dias a novidade
passaria e a ferrugem tomaria conta do metal, o interesse do povo ainda não
diminuiu. Ninguém passa pelo largo sem ainda parar diante da máquina, e de cada
vez há um detalhe novo a notar. Até as velhinhas de igreja, que passam de
madrugada e de noitinha, tossindo e rezando, viram o rosto para o lado da
máquina e fazem uma curvatura discreta, só faltam se benzer. Homens
abrutalhados, como aquele Clodoaldo seu conhecido, que se exibe derrubando boi pelos
chifres no pátio do mercado, tratam a máquina com respeito; se um ou outro agarra
uma alavanca e sacode com força, ou larga um pontapé numa das colunas, vê-se
logo que são bravatas feitas por honra da firma, para manter fama de corajoso.
Ninguém sabe mesmo quem encomendou a máquina. O prefeito
jura que não foi ele, e diz que consultou o arquivo e nele não encontrou nenhum
documento autorizando a transação. Mesmo assim não quis lavar as mãos, e de
certa forma encampou a compra quando designou um funcionário para zelar pela
máquina.
Devemos reconhecer - aliás todos reconhecem - que esse
funcionário tem dado
boa conta do recado. A qualquer hora do dia, e às vezes
também
de noite, podemos vê-lo trepado lá por cima espanando cada
vão, cada
engrenagem, desaparecendo aqui para reaparecer ali,
assoviando ou cantando,
ativo e incansável. Duas vezes por semana ele aplica caol
nas partes de metal dourado, esfrega, sua, descansa, esfrega de novo - e a
máquina fica faiscando como jóia.
Estamos tão habituados com a presença da máquina ali no
largo, que
se um dia ela desabasse, ou se alguém de outra cidade viesse
buscá-la,
provando com documentos que tinha direito, eu nem sei o que
aconteceria,
nem quero pensar. Ela é o nosso orgulho, e não pense que
exagero. Ainda não sabemos para que ela serve, mas isso já não tem maior
importância. Fique sabendo que temos recebido delegações de outras cidades,
do estado e de fora, que vêm aqui para ver se conseguem comprá-la. Chegam como
quem não quer nada, visitam o prefeito, elogiam a cidade, rodeiam, negaceiam, abrem
o jogo: por quanto cederíamos a máquina. Felizmente o prefeito é de confiança e
é esperto, não cai na conversa macia. Em
todas as datas cívicas a máquina é agora uma parte importante das festividades.
Você se lembra que antigamente os feriados eram comemorados no coreto ou no
campo de futebol, mas hoje tudo se passa ao pé da máquina. Em tempo de eleição todos os candidatos querem
fazer seus comícios à sombra dela, e como isso não é possível, alguém tem de
sobrar, nem todos se conformam e sempre surgem conflitos. Felizmente a máquina
ainda não foi danificada nesses esparramos, e espero que não seja. A única pessoa que ainda não rendeu homenagem
à máquina é o vigário, mas você sabe como ele é ranzinza, e hoje mais ainda,
com a idade. Em todo caso, ainda não
tentou nada contra ela, e ai dele. Enquanto ficar nas censuras veladas, vamos
tolerando; é um direito que ele tem. Sei que ele andou falando em castigo, mas
ninguém se impressionou.
Até agora o único acidente de certa gravidade que tivemos
foi quando
um caixeiro da loja do velho Adudes (aquele velhinho
espigado que passa
brilhantina no bigode, se lembra?) prendeu a perna numa
engrenagem da
máquina, isso por culpa dele mesmo. O rapaz andou bebendo em
uma
serenata, e em vez de ir para casa achou de dormir em cima
da máquina. Não
se sabe como, ele subiu à plataforma mais alta, de madrugada
rolou de lá,
caiu em cima de uma engrenagem e com o peso acionou as
rodas. Os gritos
acordaram a cidade, correu gente para verificar a causa, foi
preciso arranjar
uns barrotes e labancas para desandar as rodas que estavam
mordendo a perna
do rapaz. Também dessa vez a máquina nada sofreu,
felizmente. Sem a perna e sem o emprego, o imprudente rapaz ajuda na
conservação da máquina, cuidando das partes mais baixas.
Já existe aqui um movimento para declarar a máquina
monumento municipal - por enquanto. O vigário, como sempre, está contra; quer
saber a que seria dedicado o monumento. Você já viu que homem mais azedo? Dizem que a máquina já tem feito até milagre,
mas isso - aqui para nós - eu acho que é exagero de gente supersticiosa, e
prefiro não ficar falando no assunto. Eu - e creio que também a grande maioria
dos munícipes - não espero dela nada em particular; para mim basta que ela fique
onde está, nos alegrando, nos inspirando, nos consolando.
O meu receio é que, quando menos esperarmos, desembarque
aqui um
moço de fora, desses despachados, que entendem de tudo,
olhe a máquina por
fora, por dentro, pense um pouco e comece a explicar a
finalidade dela, e para
mostrar que é habilidoso (eles são sempre muito habilidosos)
peça na garagem
um jogo de ferramentas, e sem ligar a nossos protestos se
meta por baixo da
máquina e desande a apertar, martelar, engatar, e a
máquina comece a trabalhar.
Se isso acontecer, estará quebrado o encanto e não
existirá mais máquina.
Marcadores:
cem melhores contos brasileiros do século
domingo, 19 de agosto de 2012
Um cinturão Graciliano Ramos
As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas
e deixaram-me funda impressão. Eu devia ter quatro ou cinco anos, por aí, e
figurei na qualidade de réu. Certamente já me haviam feito representar esse
papel, mas ninguém me dera a entender que se tratava de julgamento. Batiam-me porque
podiam bater-me, e isto era natural.
Os golpes que recebi antes do caso do cinturão, puramente
físicos, desapareciam quando findava a dor. Certa vez minha mãe surrou-me com uma
corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas. Moído, virando a
cabeça com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos vermelhos.
Deitaram-me, enrolaram-me em panos molhados com água de sal e houve uma
discussão na família. Minha avó, que nos visitava, condenou o procedimento da
filha e esta afligiu-se. Irritada, ferira-me à toa, sem querer. Não guardei
ódio a minha mãe: o culpado era o nó. Se não fosse ele, a flagelação me haveria
causado menor estrago. E estaria esquecida.
A história do cinturão, que veio pouco depois, avivou-a.
Meu pai dormia na rede, armada na sala enorme. Tudo é
nebuloso. Paredes extraordinariamente
afastadas, rede infinita, os armadores longe, e meu pai acordando, levantando-se
de mau humor, batendo com os chinelos no chão, a cara enferrujada. Naturalmente
não me lembro da ferrugem, das rugas, da voz áspera, do tempo que ele consumiu
rosnando uma exigencia. Sei que estava
bastante zangado, e isto me trouxe a covardia habitual. Desejei vê-lo
dirigir-se a minha mãe e a José Baía, pessoas grandes, que não levavam pancada.
Tentei ansiosamente fixar-me nessa esperança frágil. A força de meu pai
encontraria resistência e gastar-se-ia em palavras. Débil e ignorante, incapaz de conversa ou
defesa, fui encolher-me num canto, para lá dos caixões verdes. Se o pavor não
me segurasse, tentaria escapulir-me: pela porta da frente chegaria ao açude,
pela do corredor acharia o pé de turco. Devo ter pensado nisso, imóvel, atrás
dos caixões. Só queria que minha mãe, sinhá Leopoldina, Amaro e José Baía
surgissem de repente, me livrassem daquele perigo.
- Ninguém veio, meu pai me descobriu acocorado e sem
fôlego, colado ao muro, e arrancou-me dali violentamente, reclamando um cinturão.
Onde estava o cinturão? Eu não sabia, mas era difícil explicar-me:
atrapalhava-me, gaguejava, embrutecido, sem atinar com o motivo da raiva. Os
modos brutais, coléricos, atavam-me; os sons duros morriam, desprovidos de significação.
Não consigo reproduzir toda a cena. Juntando vagas
lembranças dela
a fatos que se deram depois, imagino os berros de meu pai, a
zanga terrível,
a minha tremura infeliz. Provavelmente fui sacudido. O
assombro gelava-me
o sangue, escancarava-me os olhos. Onde estava o cinturão?
Impossível responder. Ainda que tivesse
escondido o infame objeto, emudeceria, tão apavorado me
achava. Situações deste gênero constituíram as maiores torturas da minha
infância, e as conseqüências delas me acompanharam.
O homem não me perguntava se eu tinha guardado a miserável
correia:
ordenava que a entregasse imediatamente. Os seus gritos me
entravam na cabeça, nunca ninguém se esgoelou de semelhante maneira. Onde estava o cinturão? Hoje não posso ouvir
uma pessoa falar alto. O coração bate-me
forte, desanima, como se fosse parar, a voz emperra, a vista escurece, uma
cólera doida agita coisas adormecidas cá dentro. A horrível sensação de que me
furam os tímpanos com pontas de ferro.
Onde estava o cinturão? A pergunta repisada ficou-me na
lembrança:
parece que foi pregada a martelo.
A fúria louca ia aumentar, causar-me sério desgosto.
Conservar-me-ia
ali desmaiado, encolhido, movendo os dedos frios, os beiços
trêmulos e
silenciosos. Se o moleque José ou um cachorro entrasse na
sala, talvez as
pancadas se transferissem. O moleque e os cachorros eram
inocentes, mas
não se tratava disto. Responsabilizando qualquer deles,
meu pai me esqueceria,
deixar-me-ia fugir, esconder-me na beira do açude ou no
quintal. Minha mãe, José Baía, Amaro,
sinhá Leopoldina, o moleque e os cachorros da fazenda abandonaram-me. Aperto na
garganta, a casa a girar, o meu corpo a cair lento, voando, abelhas de todos os
cortiços enchendo-me os ouvidos - e, nesse zunzum, a pergunta medonha. Náusea,
sono. Onde estava o cinturão? Dormir muito, atrás dos caixões, livre do
martírio. Havia uma neblina, e não
percebi direito os movimentos de meu pai. Não o vi aproximar-se do torno e pegar o
chicote. A mão cabeluda prendeu-me, arrastou-me para o meio da sala, a folha de
couro fustigou-me as costas. Uivos,
alarido inútil, estertor. Já então eu devia saber que rogos e adulações exasperavam
o algoz. Nenhum socorro. José Baía, meu amigo, era um pobre-diabo.
Achava-me num deserto. A casa escura, triste; as pessoas
tristes. Penso
com horror nesse ermo, recordo-me de cemitérios e de
ruínas mal-assombradas. Cerravam-se as portas e as janelas, do teto negro
pendiam teias de aranha. Nos quartos lúgubres minha irmãzinha engatinhava,
começava a aprendizagem dolorosa.
Junto de mim, um homem furioso, segurando-me um braço,
açoitando-me. Talvez
as vergastadas não fossem muito fortes: comparadas ao que senti
depois, quando me ensinaram a carta de A B C, valiam pouco. Certamente o meu choro, os saltos, as tentativas
para rodopiar na sala como carrapeta, eram menos um sinal de dor que a explosão
do medo reprimido.
Estivera sem bulir, quase sem respirar. Agora esvaziava os
pulmões, movia-me,
num desespero.
O suplício durou bastante, mas, por muito prolongado que tenha
sido, não
igualava a mortificação da fase preparatória: o olho duro a
magnetizar-me,
os
gestos ameaçadores, a voz rouca a mastigar uma
interrogação incompreensível. Solto, fui enroscar-me perto dos caixões, coçar
as pisaduras, engolir soluços, gemer baixinho e embalar-me com os gemidos.
Antes de adormecer, cansado, vi meu pai dirigir-se à rede, afastar as varandas,
sentar-se e logo se levantar, agarrando uma tira de sola, o maldito cinturão, a
que desprendera a fivela quando se deitara. Resmungou e entrou a passear
agitado. Tive a impressão de que ia falar-me: baixou a cabeça, a cara enrugada
serenou, os olhos esmoreceram, procuraram o refúgio onde me abatia, aniquilado.
Pareceu-me que a figura imponente minguava - e a minha
desgraça
diminuiu. Se meu pai se tivesse chegado a mim, eu o teria
recebido sem o
arrepio que a presença dele sempre me deu. Não se
aproximou: conservou-se longe, rondando, inquieto. Depois se afastou.
Sozinho, vi-o de novo cruel e forte, soprando, espumando. E
ali
permaneci, miúdo, insignificante, tão insignificante e miúdo
como as aranhas
que trabalhavam na telha negra.
Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça.
O pirotécnico Zacarias
Murilo Rubião
“E se levantará pela tarde sobre ti uma luz como a do meio-dia;
e quando te julgares consumido, nascerás como a estrela-d’alva.” (Jó, XI, 17)
Raras são as vezes que, nas conversas de amigos meus, ou
de pessoas das minhas relações, não surja esta pergunta. Teria morrido o
pirotécnico Zacarias?
A esse respeito as opiniões são divergentes. Uns acham que
estou vivo
- o morto tinha apenas alguma semelhança comigo. Outros,
mais supersticiosos,
acreditam que a minha morte pertence ao rol dos fatos
consumados
e o indivíduo a quem andam chamando Zacarias não passa de
uma alma
penada, envolvida por um pobre invólucro humano. Ainda há os
que
afirmam de maneira categórica o meu falecimento e não
aceitam o cidadão
existente como sendo Zacarias, o artista pirotécnico, mas
alguém muito
parecido com o finado.
Uma coisa ninguém discute: se Zacarias morreu, o seu corpo não
foi
enterrado.
A única pessoa que poderia dar informações certas sobre o
assunto sou
eu. Porém estou impedido de fazê-lo porque os meus
companheiros fogem
de mim, tão logo me avistam pela frente. Quando apanhados de
surpresa,
ficam estarrecidos e não conseguem articular uma palavra.
Em verdade morri, o que vem de encontro à versão dos que crêem
na
minha morte. Por outro lado, também não estou morto, pois faço
tudo o
que antes fazia e, devo dizer, com mais agrado do que
anteriormente.
A princípio foi azul, depois verde, amarelo e negro. Um negro
espesso,
cheio de listras vermelhas, de um vermelho compacto,
semelhante a densas
fitas de sangue. Sangue pastoso com pigmentos amarelados, de
um amarelo
esverdeado, tênue, quase sem cor.
Quando tudo começava a ficar branco, veio um automóvel e me
matou.
- Simplício Santana de Alvarenga!
- Presente!
Senti rodar-me a cabeça, o corpo balançar, como se me faltasse
o apoio
do solo. Em seguida fui arrastado por uma força poderosa,
irresistível. Tentei
agarrar-me às árvores, cujas ramagens retorcidas, puxadas
para cima, escapavam
aos meus dedos. Alcancei mais adiante, com as mãos, uma roda
de fogo,
que se pôs a girar com grande velocidade por entre elas, sem
queimá-las,
todavia.
- “Meus senhores: na luta vence o mais forte e o momento é de
decisões supremas. Os que desejarem sobreviver ao tempo tirem
os seus
chapéus!”
(Ao meu lado dançavam fogos de artifício, logo devorados pelo
arco-íris.)
- Simplício Santana de Alvarenga!
- Não está? - Tire a mão da boca, Zacarias!
- Quantos são os continentes?
- E a Oceania?
Dos mares da China não mais virão as quinquilharias.
A professora magra, esquelética, os olhos vidrados, empunhava
na mão
direita uma dúzia de foguetes. As varetas eram compridas, tão
longas que
obrigavam D. Josefina a ter os pés distanciados uns dois
metros do assoalho
e a cabeça, coberta por fios de barbante, quase encostada no
teto.
- Simplício Santana de Alvarenga!
- Meninos, amai a verdade!
A noite estava escura. Melhor, negra. Os filamentos
brancos não tardariam a cobrir o céu.
Caminhava pela estrada. Estrada do Acaba Mundo: algumas
curvas, silêncio, mais sombras que silêncio.
O automóvel não buzinou de longe. E nem quando já se
encontrava perto de mim, enxerguei os seus faróis. Simplesmente porque não
seria naquela noite que o branco desceria até a terra.
As moças que vinham no carro deram gritos histéricos e não
se
demoraram a desmaiar. Os rapazes falaram baixo, curaram-se
instantaneamente
da bebedeira e se puseram a discutir qual o melhor destino
a ser dado ao cadáver.
A princípio foi azul, depois verde, amarelo e negro. Um
negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho compacto, semelhante
a densas fitas de sangue. Sangue pastoso com pigmentos amarelados, de um
amarelo esverdeado, quase sem cor. Sem cor jamais quis viver. Viver, cansar bem
os músculos, andando pelas ruas cheias de gente, ausentes de homens. Havia silêncio, mais sombras que silêncio,
porque os rapazes não mais discutiam baixinho. Falavam com naturalidade,
dosando a gíria. Também o ambiente
repousava na mesma calma e o cadáver - o meu ensangüentado cadáver - não
protestava contra o fim que os moços lhe desejavam dar.
A idéia inicial, logo rejeitada, consistia em me
transportar para a cidade, onde me deixariam no necrotério. Após breve
discussão, todos os argumentos analisados com frieza, prevaleceu a opinião de
que meu corpo poderia sujar o carro. E havia ainda o inconveniente das moças
não se conformarem em viajar ao lado de um defunto. (Neste ponto eles estavam
redondamente enganados, como explicarei mais tarde.)
Um dos moços, rapazola forte e imberbe - o único que se
impressionara com o acidente e permanecera calado e aflito no decorrer dos acontecimentos
-, propôs que se deixassem as garotas na estrada e me levassem para o
cemitério. Os companheiros não deram importância à proposta. Limitaram-se a
condenar o mau gosto de Jorginho - assim lhe chamavam - e a sua insensatez em
interessar-se mais pelo destino do cadáver do que pelas lindas pequenas que os
acompanhavam. O rapazola notou a bobagem
que acabara de proferir e, sem encarar de frente os componentes da roda, pôs-se
a assoviar, visivelmente encabulado. Não
pude evitar a minha imediata simpatia por ele, em virtude da sua razoável
sugestão, debilmente formulada aos que decidiam a minha sorte.
Afinal, as longas caminhadas cansam indistintamente defuntos
e vivos. (Este
argumento não me ocorreu no momento.) discutiram em seguida outras soluções e, por fim,
consideraram queme lançar ao precipício, um fundo precipício, que margeava a
estrada, limpar
o chão manchado de sangue, lavar cuidadosamente o carro,
quando chegassem a
casa, seria o alvitre mais adequado ao caso e o que melhor
conviria a
possíveis complicações com a polícia, sempre ávida de
achar mistério onde nada existe de misterioso.
Mas aquele seria um dos poucos desfechos que não me
interessavam.
Ficar jogado em um buraco, no meio de pedras e ervas,
tornava-se para mim
uma idéia insuportável. E ainda: o meu corpo poderia, ao
rolar pelo barranco
abaixo, ficar escondido entre a vegetação, terra e
pedregulhos. Se tal
acontecesse, jamais seria descoberto no seu improvisado
túmulo e o meu nome
não ocuparia as manchetes dos Jornais.
Não, eles não podiam roubar-me nem que fosse um pequeno
necrológio no principal
matutino da cidade. Precisava agir rápido e decidido:
- Alto lá! Também quero ser ouvido!
Jorginho empalideceu, soltou um grito surdo, tombando
desmaiado, enquanto os seus amigos, algo admirados por verem um cadáver falar,
se dispunham a ouvir-me.
Sempre tive confiança na minha faculdade de convencer os
adversários, em meio às discussões. Não sei se pela força da lógica ou se por
um dom natural, a verdade é que, em vida, eu vencia qualquer disputa dependente
de argumentação segura e irretorquível.
A morte não extinguira essa faculdade. E a ela os meus
matadores
fizeram justiça. Após curto debate, no qual expus com
clareza os meus
argumentos, os rapazes ficaram indecisos, sem encontrar uma
saida que
atendesse, a contento, às minhas razões e ao programa da
noite, a exigir
prosseguimento. Para tornar mais confusa a situação,
sentiam a impossibilidade
de dar rumo a um defunto que não perdera nenhum dos
predicados geralmente atribuidos aos vivos.
Se a um deles não ocorresse uma sugestão, imediatamente
aprovada, teríamos permanecido no impasse. Propunha incluir-me no grupo e,
juntos, terminarmos a farra, interrompida com o meu atropelamento.
Entretanto, outro obstáculo nos conteve: as moças eram
somente três,
isto é, em número igual ao de rapazes. Faltava uma para
mim e eu não aceitava
fazer parte da turma desacompanhado. O mesmo rapaz que
aconselhara a minha inclusão no grupo encontrou a fórmula conciliatória,
sugerindo que abandonassem o colega desmaiado na estrada. Para melhorar o meu
aspecto, concluiu, bastaria trocar as minhas roupas pelas de Jorginho, que me prontifiquei
a fazer rapidamente.
Depois de certa relutância em abandonar o companheiro,
concordaram
todos (homens e mulheres, estas já restabelecidas do
primitivo desmaio) que
ele fora fraco e não soubera enfrentar com dignidade a
situação. Portanto,
era pouco razoável que se perdesse tempo fazendo
considerações sentimentais
em torno da sua pessoa.
Do que aconteceu em seguida não guardo recordações muito
nítidas.
A bebida que antes da minha morte pouco me afetava, teve
sobre o meu
corpo defunto uma ação surpreendente. Pelos meus olhos
entravam estrelas,
luzes cujas cores ignorava, triângulos absurdos, cones e
esferas de marfim,
rosas negras, cravos em forma de lírios, lírios
transformados em mãos. E a
ruiva, que me fora destinada, enlaçando-me o pescoço com o
corpo transmudado
em longo braço metálico.
Ao clarear o dia saí da semiletargia em que me encontrava.
Alguém me perguntava onde eu desejava ficar. Recordo-me que insisti em descer
no cemitério, ao que me responderam ser impossível, pois àquela hora ele se encontrava
fechado. Repeti diversas vezes a palavra cemitério. (Quem sabe nem chegasse a
repeti-la, mas somente movesse os lábios, procurando ligar as palavras às
sensações longínquas do meu delírio policrômico.)
Por muito tempo se prolongou em mim o desequilíbrio entre
o mundo
exterior e os meus olhos, que não se acomodavam ao
colorido das paisagens
estendidas na minha frente. Havia ainda o medo que sentia,
desde aquela madrugada, quando constatei que a morte penetrara no meu corpo. Não
fosse o ceticismo dos homens, recusando-se aceitar-me vivo ou morto, eu poderia
abrigar a ambição de construir uma nova existência. Tinha ainda que lutar contra o desatino que,
às vezes, se tornava senhor dos meus atos e obrigava-me a buscar, ansioso, nos
jornais, qualquer notícia que elucidasse o mistério que cercava o meu
falecimento. Fiz várias tentativas para
estabelecer contato com meus companheiros da noite fatal e o resultado foi
desencorajador. E eles eram a esperança que me restava para provar quão real
fora a minha morte. No passar dos meses,
tornou-se menos intenso o meu sofrimento e menor a minha frustração ante a
dificuldade de convencer os amigos que Zacarias que anda pelas ruas da cidade é
o mesmo artista pirotécnico de outros tempos, com a diferença que aquele era
vivo e este, um defunto. Só um
pensamento me oprime: que acontecimentos o destino reservará a um morto se os
vivos respiram uma vida agonizante? E a minha angústia cresce ao sentir, na sua
plenitude, que a minha capacidade de amar, discernir as coisas, é bem superior
à dos seres que por mim passam assustados. Amanhã o dia poderá nascer claro, o sol
brilhando como nunca brilhou. Nessa hora
os homens compreenderão que, mesmo à margem da vida, ainda vivo, porque a minha
existência se transmudou em cores e o branco já se aproxima da terra para
exclusiva ternura dos meus olhos.
Marcadores:
cem melhores contos brasileiros do século
terça-feira, 14 de agosto de 2012
O peru de Natal Mário de Andrade
(O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida
cinco meses antes, foi de conseqüências decisivas para a
felicidade
familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse
sentido muito
abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem
brigas internas
nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à
natureza
cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo,
duma exemplaridade
incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele
aproveitamento da
vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho
bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora
de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.
Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas
proximidades do Natal,
eu já estava que não podia mais pra afastar aquela memória
obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra
sempre a obrigação
de uma lembrança dolorosa em cada gesto mínimo da família.
Uma vez que
eu sugerira à mamãe a idéia dela ir ver uma fita no cinema,
o que resultou
foram lágrimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A
dor já estava sendo cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara
apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por
espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto. Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim,
espontaneamente, a ideia de fazer uma das minhas chamadas “loucuras”. Essa fora
aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente
familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava
regularmente uma reprovação todos os anos; desde o beijo às escondidas, numa
prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável de tia; e
principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei, duma criada de
parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama
conciliatória de “louco”. “É doido, coitado!” falavam. Meus pais falavam com
certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos
e provavelmente com aquele prazer dos que convencem de alguma superioridade.
Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz
tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com
integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou
disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada.
Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se
imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois
da Missa do Galo.
Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três
manos por
causa dos quebra-nozes...), empanturrados de castanhas e
monotonias, a
gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que
arrebentei com uma das minhas “loucuras - Bom, no Natal, quero comer peru.
Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha
tia
solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não
podíamos convidar
ninguém por causa do luto.
- Mas quem falou de convidar ninguém! Essa mania... Quando é
que
a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato
de festa, vem
toda essa parentada do diabo...
- Meu filho, não fale assim...
- Pois falo, pronto!
E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem
infinita,
diz-que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o
momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não
perdi a
ocasião. Me deu de sopetão uma ternura imensa por mamãe e
titia, minhas
duas mães, três com minha irmã, as três mães que sempre me
divinizaram a
vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só
então faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de
parentes já preparados
pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das
empadinhas e dos
doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da
vida senão trabalhar,
trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem
feitos, a parentagem devorava tudo e inda levava embrulhinhos pros que não
tinham podido vir. As minhas três mães
mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é
que mamãe com titia inda provavam um naco de perna, vago, escuro, perdido no
arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros
filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru
resto de festa. Não, não se convidava
ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas.
E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e
a seca, douradinha,
com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a
farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de
xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que
omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar
de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão
gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. é certo que com meus
“gostos”, já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom,
completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava
cerveja.
Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam
felicíssimos,
num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu
estourara. Bem que
sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu
sozinho é que
estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de
empurrarem pra cima de
mim a... culpa de seus desejos enormes. Sorriam se
entreolhando, tímidos como
pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o
consentimento geral:
- É louco mesmo!...
Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa
do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado: assim
que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra
coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha
adorada. E meus manos também, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos
dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na família. De modo
que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse
todo o peito do peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do
peito da ave, não resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham
entorpecido numa quase pobreza sem - Não senhora, corte inteiro! só eu como
tudo isso! Era mentira. O amor familiar
estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só
pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo.
Aquele peru comido a sós, redescobria em cada um o que a cotidianidade abafara
por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe mas estou
pensando em Jesus... Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se
realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou
inteiramente reduzido a fatias amplas.
- Eu que sirvo!
“Ë louco, mesmo!” pois por que havia de servir, se sempre
mamãe servira
naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram
passados pra mim
e principiei uma distribuição heroica, enquanto mandava meu
mano servir a
cerveja. Tomei conta logo dum pedaço admirável da “casca”,
cheio de gordura
e pus no prato. E depois vastas fatias brancas. A voz
severizada de mamãe cortou
o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua parte
no peru:
- Se lembre de seus manos, Juca! Quando que ela havia de
imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela,
da Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que
sabia meus crimes, a que eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O
prato ficou sublime.
- Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não! Foi quando ela não pôde mais com tanta comoção
e principiou chorando. Minha tia também, logo percebendo que o novo prato
sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais
viu lágrima sem abrir a torneirinha também, se esparramou no choro. Então principiei
dizendo muitos desaforos pra não chorar também, tinha dezenove anos... Diabo de
família besta que via peru e chorava! coisas assim. Todos se esforçavam por
sorrir, mas agora é que a alegria se tornara impossível. Ë que o pranto evocara
por associação a imagem indesejável de meu pai morto. Meu pai, com sua figura cinzenta, vinha pra
sempre estragar nosso Natal.
Fiquei danado.
Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru
estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira entre
os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada,
pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos
pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura,
uma chaga, uma incapacidade. E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim
sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.
Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai.
Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara
decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito
hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru a imagem de papai cresceu vitoriosa,
Insuportavelmente obstruidora.
- Só falta seu pai...
Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito,
tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar
papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e
político. Naquele Instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei
aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:
- É mesmo... Mas papai, que queria tanto bem a gente, que
morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente...
(hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos
reunidos em família.
E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A
imagem dele foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu.
Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre
se sacrificara por nós, fora um santo que “vocês, meus filhos, nunca poderão
pagar o que devem a seu pai”, um santo. Papai virara santo, uma contemplação
agradável, uma inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém,
puro objeto de contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador,
completamente vitorioso.
Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade.
Ia escrever “felicidade gustativa”, mas não era só isso não. Era uma felicidade
maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores
do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso
da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e
inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade
familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém
mais intensa que a nossa me é impossível conceber.
Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia
lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que
ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!
A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito
amor...
Depois vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha
terra levam o
nome de “bem-casados”. Mas nem mesmo este nome perigoso se
associou à
lembrança de meu pai, que o peru já convertera em dignidade,
em coisa certa,
em culto puro de contemplação.
Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados
por
duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na
cama, pouco
importa, porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose,
católica
antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha. Pra
poder
sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e
pisquei pra
ela,
modo de contar onde é que ia e fazê-la sofrer seu bocado. As
outras duas
mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!...
- Villa Rica Editoras Reunidas LTDA.
Nhola dos Anjos e a cheia do Corumbá
Bernardo Elis
- Fio, fais um zóio de boi lá fora pra nóis.
O menino saiu do rancho com um baixeiro na cabeça, e no
terreiro, debaixo da chuva miúda e continuada, enfincou o calcanhar na lama,
rodou sobre ele o pé, riscando com o dedão uma circunferência no chão mole - outra
e mais outra. Três círculos entrelaçados, cujos centros formavam um triângulo
equilátero.
Isto era simpatia para fazer estiar. E o menino voltou:
- Pronto, vó.
- O rio já encheu mais? - perguntou ela.
Chi, tá um mar d’água! Qué vê, espia, - e apontou com o
dedo para fora do rancho. A velha foi até a porta e lançou a vista. Para todo
lado havia água. Somente para o sul, para a várzea, é que estava mais enxuto,
pois o braço do rio aí era pequeno. A velha voltou para dentro, arrastando-se
pelo chão, feito um cachorro, cadela, aliás: era entrevada. Havia vinte anos apanhara
um “ar de estupor” e desde então nunca mais se valera das pernas, que murcharam
e se estorceram.
Começou a escurecer nevroticamente. Uma noite que vinha
vagarosamente, irremediavelmente, como o progresso de uma doença fatal. O Quelemente, filho da velha, entrou. Estava
ensopadinho da silva. Dependurou numa
forquilha a caroça, - que é a maneira mais analfabeta de se esconder da chuva,
- tirou a camisa molhada do corpo e se agachou na beira da fornalha.
- Mãe, o vau tá que tá sumino a gente. Este ano mesmo, se
Deus ajudá, nóis se muda.
Onde ele se agachou, estava agora uma lagoa, da água
escorrida da calça de algodão grosso.
A velha trouxe-lhe um prato de folha e ele começou a tirar,
com a colher de pau, o feijão quente da panela de barro. Era um feijão
brancacento, cascudo, cozido sem gordura. Derrubou farinha de mandioca em cima,
mexeu e pôs-se a fazer grandes capitães com a mão, com que entrouxava a bocarra.
Agora a gente só ouvia o ronco do rio lá embaixo - ronco
confuso, rouco, ora mais forte, ora mais fraco, como se fosse um zunzum
subterrâneo.
A calça de algodão cru do roceiro fumegava ante o calor da
fornalha,
como se pegasse fogo. Já tinha pra mais de oitenta anos
que os dos Anjos moravam ali na foz do
Capivari no Corumbá. O rancho se erguia num morrote a
cavaleiro de terrenos
baixos e paludosos. A casa ficava num triângulo, de que
dois lados eram formados
por rios, e o terceiro, por uma vargem de buritis. Nos tempos
de cheias os
habitantes ficavam ilhados, mas a passagem da várzea era
rasa e podia-se vadear
perfeitamente.
No tempo da guerra do Lopes, ou antes ainda, o avô de
Quelemente veio de Minas e montou ali sua fazenda de gado, pois a formação
geográfica construíra um excelente apartador. O gado, porém, quando o velho
morreu, já estava quase extinto pelas ervas daninhas. Daí para cá foi a
decadência. No lugar da casa de telhas,
que ruiu, ergueram um rancho de palhas. A erva se incumbiu de arrasar o resto
do gado e as febres as pessoas. “- Este
ano, se Deus ajudá, nóis se muda.” Há quarenta anos a velha Nhola vinha ouvindo
aquela conversa fiada. A princípio fora seu marido:
“- Nóis precisa de mudá, pruquê senão a água leva nóis”.
Ele morreu de maleita e os outros continuaram no lugar. Depois era o filho que
falava assim, mas nunca se mudara. Casara-se ali: tivera um filho; a mulher
dele, nora de Nhola, morreu de maleita. E ainda continuaram no mesmo lugar: a
velha Nhola, o filho Quelemente e o neto, um biruzinho sempre perrengado. A chuva caía meticulosamente, sem pressa de
cessar. A palha do rancho porejava água, fedia a podre, derrubando dentro da
casa uma infinidade de bichos que a sua podridão gerava. Ratos, sapos, baratas,
grilos, aranhas, - o diabo refugiava-se ali dentro, fugindo à inundação, que
aos poucos ia galgando a perambeira do morrote.
Quelemente saiu ao terreiro e olhou a noite. Não havia
céu, não havia horizonte - era aquela coisa confusa, translúcida e pegajosa.
Clareava as trevas o branco leitoso das águas que cercavam o rancho. Ali pras
bandas da vargem é que ainda se divisava o vulto negro e mal recortado do mato.
Nem uma estrela. Nem um pirilampo. Nem um relâmpago. A noite era feito um grande
cadáver, de olhos abertos e embaciados. Os gritos friorentos das marrecas
povoavam de terror o ronco medonho da cheia. No canto escuro do quarto, o pito da velha
Nhola acendia-se e apagava-se sinistramente, alumiando seu rosto macilento e
fuxicado. - Ocê bota a gente hoje em
riba do jirau, viu? - pediu ela ao filho. - Com essa chuveira de dilúvio, tudo quanto é
mundice entra pro rancho e eu num quero drumi no chão não.
Ela receava a baita cascavel que inda agorinha atravessara
a cozinha numa intimidade pachorrenta.
Quelemente sentiu um frio ruim no lombo. Ele dormia com a
roupa ensopada, mas aquele frio que estava sentindo era diferente. Foi puxar o baixeiro
e nisto esbarrou com água. Pulou do jirau no chão e a água subiu-lhe ao umbigo.
Sentiu um aperto no coração e uma tonteira enjoada. O rancho estava
viscosamente iluminado pelo reflexo do líquido. Uma luz cansada e incômoda, que
não permitia divisar os contornos das coisas. Dirigiu-se ao jirau da velha. Ela
estava agachada sobre ele, com um brilho aziago no olhar.
Lá fora o barulhão confuso, subterrâneo, sublinhado pelo
uivo de um cachorro.
- Adonde será que tá o chulinho?
Foi quando uma parede do rancho começou a desmoronar. Os
torrões
de barro do pau-a-pique se desprendiam dos amarrilhos de
embiras e caíam
nágua com um barulhinho brincalhão - tchibungue - tibungue. De
repente, foi-se todo o pano de parede. As águas agitadas
vieram banhar as
pernas inúteis de mãe Nhola:
- Nossa Senhora d’Abadia do Muquém!
- Meu Divino Padre Eterno!
O menino chorava aos berros, tratando de subir pelos
ombros da estuporada e alcançar o teto. Dentro da casa, boiavam pedaços de
madeira,
cujas, coités, trapos e a superfície do líquido tinha umas
contorsões diabólicas de espasmos epiléticos, entre as espumas alvas.
- Cá, nego, cá, nego - Nhola chamou o chulinho que vinha
nadando pelo quarto, soprando a água. O animal subiu ao jirau e sacudiu o pêlo molhado,
trêmulo, e começou a lamber a cara do menino. O teto agora começava a desabar, estralando,
arriando as pathas no rio, com um vagar irritante, com uma calma perversa de
suplício. Pelo vão da parede desconjuntada podia-se ver o lençol branco, - que
se diluía na cortina diáfana, leitosa do espaço repleto de chuva, - e que
arrastava as palhas, as taquaras da parede, os detritos da habitação. Tudo isso
descia em longa fila, aos mansos boléus das ondas, ora valsando em torvelinhos,
ora parando nos remansos enganadores. A porta do rancho também ia descendo. Era feita de paus de buritis amarrados por
embiras. Quelemente nadou, apanhou-a,
colocou em cima a mãe e o filho, tirou do teto uma ripa mais comprida para
servir de varejão, e lá se foram derivando, nessa jangada improvisada.
- E o chulinho? - perguntou o menino, mas a única resposta
foi mesmo o uivo do cachorro.
Quelemente tentava atirar a jangada para a vargem, a fim
de alcançar
as árvores. A embarcação mantinha-se a coisa de dois dedos
acima da
superfície das águas, mas sustinha satisfatoriamente a
carga. O que era preciso
era alcançar a vargem, agarrar-se aos galhos das árvores,
sair por esse único ponto mais próximo e mais seguro. Daí em diante o rio
pegava a estreitar-se entre barrancos atacados, até cair na cachoeira. Era
preciso evitar essa passagem, fugir dela. Ainda se se tivesse certeza de que a
enchente houvesse passado acima do barranco e extravasado pela campina
adjacente a ele, podia-se salvar por ali. Do contrário, depois de cair no
canal, o jeito era mesmo espatifar-se na cachoeira.
- É o mato? - perguntou engasgadamente Nhola, cujos olhos
de pua furavam o breu da noite.
Sim. O mato se aproximava, discerniam-se sobre o líquido
grandes manchas, sonambulicamente pesadas, emergindo do insondável - deviam ser
as copas das árvores. De súbito, porém, a sirga não alcançou mais o fundo.
A correnteza pegou a jangada de chofre, fê-la tornear
rapidamente e arrebatou-a
no lombo espumarento. As três pessoas agarraram-se
freneticamente aos buritis,
mas um tronco de árvore que derivava chocou-se com a embarcação,
que agora corria na garupa da correnteza. Quelemente viu a velha cair nágua, com o
choque, mas não pôde nem mover-se: procurava, por milhares de cálculos, escapar
à cachoeira, cujo rugido se aproximava de uma maneira desesperadora.
Investigava a treva, tentando enxergar os barrancos altos daquele ponto do
curso. Esforçava-se para identificar o local e atinar com um meio capaz de os
salvar daquele estrugir encapetado da cachoeira.
A velha debatia-se, presa ainda à jangada por uma mão,
despendendo esforços impossíveis por subir novamente para os buritis. Nisso
Quelemente notou que a jangada já não suportava três pessoas. O choque com o
tronco de árvore havia arrebentado os atilhos e metade dos buritis havia-se
desligado e rodado. A velha não podia subir, sob pena de irem todos para o
fundo. Ali já não cabia ninguém. Era o rio que reclamava uma vítima.
As águas roncavam e cambalhotavam espumejantes na noite
escura que
cegava os olhos, varrida de um vento frio e sibilante. A
nado, não havia força
capaz de romper a correnteza nesse ponto. Mas a velha
tentava energicamente
trepar novamente para os buritis, arrastando as pernas
mortas que as águas
metiam por baixo da jangada. Quelemente notou que aquele
esforço da velha
estava fazendo a embarcação perder a estabilidade. Ela já
estava quase abaixo das águas. A velha não podia subir. Não podia. Era a morte
que chegava,
abraçando Quelemente com o manto líquido das águas sem
fim. Tapando a sua respiração, tapando seus ouvidos, seus olhos, enchendo sua
boca de água, sufocando-o, sufocando-o, apertando sua garganta. Matando seu
filho, que era perrengue e estava grudado nele.
Quelemente segurou-se bem aos buritis e atirou um coice
valente na
cara aflissurada da velha Nhola. Ela afundou-se para
tornar a aparecer, presa
ainda à borda da jangada, os olhos fuzilando numa
expressão de incompreensão
e terror espantado. Novo coice melhor aplicado e um tufo d’água
espirrou
no escuro. Aquele último coice, entretanto, desequilibrou
a jangada, que
fugiu das mãos de Quelemente, desamparando-o no meio do rio.
Ao cair, porém, sem querer, ele sentiu sob seus pés o chão
seguro. Ali
era um lugar raso. Devia ser a campina adjacente ao barranco.
Era raso. O
diabo da correnteza, porém, o arrastava, de tão forte. A mãe,
se tivesse pernas
vivas, certamente teria tomado pé, estaria salva. Suas pernas,
entretanto, eram uns molambos sem governo, um estorvo.
Ah! se ele soubesse que aquilo era raso, não teria dado dois
coices na
cara da velha, não teria matado uma entrevada que queria subir
para a jangada
num lugar raso, onde ninguém se afogaria se a jangada
afundasse...
Mas quem sabe ela estava ali, com as unhas metidas no chão, as
pernas
escorrendo ao longo do rio?
Quem sabe ela não tinha rodado? Não tinha caído na cachoeira,
cujo
ronco escurecia mais ainda a treva?
- Mãe, ô, mãe!
- Mãe, a senhora tá aí?
E as águas escachoantes, rugindo, espumejando, refletindo
cinicamente
a treva do céu parado, do céu defunto, do céu entrevado,
estuporado.
- Mãe, ô, mãe! Eu num sabia que era raso.
- Espera aí, mãe!
O barulho do rio ora crescia, ora morria e Quelemente foi-se
metendo
por ele a dentro. A água barrenta e furiosa tinha vozes de
pesadelo, resmungo
de fantasmas, timbres de mãe ninando filhos doentes, uivos
ásperos de cães
danados. Abriam-se estranhas gargantas resfolegantes nos
torvelinhos malucos
e as espumas de noivado ficavam boiando por cima, como
flores sobre túmulos.
- Mãe! - lá se foi Quelemente, gritando dentro da noite,
até que a água lhe encheu a boca aberta, lhe tapou o nariz, lhe encheu os olhos
arregalados, lhe entupiu os ouvidos abertos à voz da mãe que não respondia, e
foi deixá-lo, empazinado, nalgum perau distante, abaixo da cachoeira.
Marcadores:
cem melhores contos brasileiros do século
Assinar:
Postagens (Atom)